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11 de dezembro de 2008

Sobre filmes, cegos e monstros


Finalmente ontem assisti "Ensaio sobre a cegueira", filme dirirgido pelo Fernando Meirelles a partir do romance homônimo de José Saramago. Eu diria que, se o livro foi um dos melhores romances que eu já li, o filme não fica atrás: a densidade dramática do filme é imensa, por dar a ver a redução da complexidade das relações humanas a uma míséria ética inigualável.

A personagem da "mulher do médico" é uma heroína que me intriga: na cena do jantar, logo ao início do filme, mostra uma mulher frágil, confusa, nervosa, preocupada não com "grandes projetos", mas em realizar com sucesso uma refeição pra ela e o marido. Me lembra a Ana (do conto "Amor" de Clarice Lispector) mas que, diferente da personagem brasileira, a mulher do médico é posta em choque com uma realidade bem mais contundente que a imagem de um cego mascando chicletes. Na história de Saramago, a mulher é jogada num mundo de cegos que não passam a mesma tranquilidade com que estava o cego dos chicletes: demonstra-se, ao contrário, a violência a que pode chegar o homem quando deslocado da sua vida habitual. Nas cenas que envolvem a tomada de poder pela Ala 3, chama atenção a figura do cego de nascença: deslocado da sociedade durante toda a vida, vislumbra naquela situação se confinamento a chance de poder.

Outra figura emblemática no filme é o menino: pois, num mundo degradado como se tornou a convivência na quarentena, lá estava o menino oferecendo um contraponto à barbárie total. Num apelo maior do que se sua presença fosse vista: em vários momentos, o rapazinho segurava a mão das personagens, mantinha o contato físico, muito mais íntimo e muito mais intenso que a visão.

A nudez presente no filme é um limite: o limite entre o que restou da "humanicidade" e o que restou do animal. A nudez mescla-se com o sexo, com os excrementos, com o sono, a chuva, a fome...

A fotografia é perfeita, predominantemente clara, jogando com a cegueira branca, como se, a qualquer momento, nós (público) fôssemos ser tomados pela doença. Ao mesmo tempo que há cenas mais escuras, de maior contraste, como que dando a visão da mulher do médico: talvez a cena de sexo entre o médico e a moça de óculos seja a que melhor realce esse jogo da fotografia.

Lembro que a sugestão de leitura foi do Maico. Em um momento ímpar de inversão, quando era eu que mais lhe sugeria leituras. E, inversões à parte, eu li a sugestão dele. Mais legal ainda foi a oportunidade em que discutimos o livro do Saramago: num acampamento no morro, os dois tigüeras num fusca, cedinho da manhã, comendo pão e tomando cachaça. Dá pra imaginar?

Eu não sou tão ligado assim em lançamentos. É quando um filme já foi visto por todo mundo e já saiu da categoria de "super lançamentos" é que me dá vontade de vê-lo... Dos filmes lançados esse ano, "Blindness - Ensaio sobre a Cegueira" foi o mais esperado por mim. E fazia questão de ver no cinema (de Santa Maria mesmo...). Fora esse, só o Hulk. Grande expectativa em ver o protagonista da história interpretado por Edward Norton, além do que estou adorando o ciclo de filmes de heróis da Marvel. Qual foi a minha surpresa ao ver que a primeira metade do filme se passa na Favela da Rocinha? Recomendo, adorei o filme... (em off posso comentar uma cena com o seu devido humor negro, mas aqui não seria politicamente correto). Esses dias nos despertou o interesse em ver Wall-E. Ah, Maico, e Nasça depois de ler (inteligência é relativa) daqui a pouco chega aqui em Santa Maria...

2 comentários:

PaTi disse...

otimas colocacoes! adorei o filme tb! temos que discutir, se nao com pao e cachaca no morro, com cerveja e churrasquin gaucho...
beijos!
Pati

Maico Silveira disse...

Fico muito feliz que tu tenhas lido minha sugestão! Eu, pelo contrário, ainda não vi o filme. Mas, inversões à parte, não vou prometer para logo. Em cinema dublado, minha realidade atual, não ouso entrar. Mas assim que estiver por aí, procuramos um outro fusca, uma outra cachaça, um outro acampamento, e conversaremos sobre as mesmas m... de sempre!

Ah, "Nasça depois de ler" até que é legal. Nele fica claríssima a idéia de inteligência relativa... hum... deixei no ar...? Veja, veja...

E bom 6002 pra ti, o ano que já começou virado.

Té!

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