literatura, política, cultura e comportamento. seja em osório, em santa maria ou em liechtenstein.
na verdade, tanto faz.
"SEAMOS REALISTAS Y HAGAMOS LO IMPOSIBLE", Che.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

sem título, sem data

Esse poeminha realmente é das antigas. Não está datado, e inclusive está sem título. Mas eu lembrava dele e, limpando a casa, achei-o. A "Tereza" é, obviamente, uma referência a poemas do Manuel Bandeira. Talvez merecesse retoques, mas por ora fica como algum dia escrevi-o:


Tereza, eu te vi uma vez, te beijei, te abracei, conversei contigo, ri, falamos de literatura, falamos em francês, me falaste de ti, falei de mim, debochamo-nos, separamo-nos numa festa, não ouvi teu nome, e para poder sonhar contigo inventei um nome pra ti.


Bonitinho, não?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Deu no Vermelho: Osório cria núcleo da UJS

Copiado de: http://www.vermelho.org.br/rs/noticia.php?id_noticia=123089&id_secao=113 . 24 jan 2010.

Desde o dia 16 de janeiro, Osório já possui a UJS – União da Juventude Socialista. A reunião que criou a UJS contou com a presença do Vereador de Cidreira, Matheus Junges (PCdoB), do Presidentes Estadual da UJS, Mateus Fiorentini (Xuxa), do Secretário Adjunto de Juventude, Esporte e Lazer, Binho Silveira e do Presidente do PCdoB Osório, Jessé Leites.

ujs osorio

Jessé, Mateus (Xuxa), Douglas, Matheus Junges, Binho e Vagner
















Na reunião ficaram a acertadas as atividades da UJS para 2010, bem como a campanha Te Liga 16 que vai conscientizar os jovens entre 16 e 18 anos a votarem nas próximas eleições. A direção provisória formada pelos estudantes universitários Douglas e Vagner trabalhará para realizar o Congresso Municipal entre março e abril.

Para o Vereador Matheus, a criação da UJS não é apenas a constituição de um grupo de jovens. “A UJS lutou pela democracia, conseguiu o voto aos 16 anos, dirigi a UNE, a UBES e tem figuras que fazem história, como por exemplo, Aldo Rebelo, Manuela d’Ávila e o Ministro Orlando”.

Já Binho acredita que Osório tem muito a ganhar com a UJS. “Acredito que agora teremos uma juventude aguerrida e corajosa, disposta a contribuir para as lutas do povo de Osório e do Litoral”.

O Presidente Estadual, Mateus (Xuxa), lançou a ideia de todo o Litoral possuir direções da UJS a partir do núcleo criado em Osório. “A UJS precisa estar em todas as 23 cidades da região. A partir de hoje tenho certeza que os bons ventos de Osório soprarão também na renovação da política do Litoral”.

Conheça o Portal Vermelho: http://www.vermelho.org.br/

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

“Sem forma revolucionaria não há arte revolucionária”


Entrevistas interessantíssimas encontrei no blog de Geneton Moraes Neto (http://colunas.g1.com.br/geneton/), entrevistas que não consegui parar de ler se já começava a lê-las. Hesitei em reproduzir alguma que fosse aqui no blog; mas como realmente fiquei surpreendido com as entrevistas que li, acredito ser uma forma de dividir com os amigos esses textos. Entre vários, resolvi reproduzir esse em especial, que trata do museu do poeta russo Vladimir Maiakóvski.

“O BARCO DO AMOR QUEBROU-SE CONTRA A VIDA COTIDIANA.É INÚTIL PASSAR EM REVISTA AS DORES, OS INFORTÚNIOS E OS ERROS RECÍPROCOS. SEJAM FELIZES”
Postado por Geneton Moraes Neto em 24 de novembro de 2009 às 22:40
Anotação de uma visita ao museu que homenageia um grande poeta em Moscou:

A poucos passos da antiga sede da KGB, a famigerada polícia secreta dos tempos do regime soviético, o forasteiro encontrará, preservado, um discreto monumento à poesia : o quarto onde vivia Vladimir Maiakóvski, autor de versos épicos e geniais. Não existe lugar melhor para celebrar a beleza trágica da vida do maior poeta russo do século vinte.

Tudo
o que quero
é um palmo de terra
ao lado
dos mais pobres
camponeses e obreiros.
Porém
se vocês pensam
que se trata apenas
de copiar
palavras a esmo,
eis aqui,camaradas,
minha pena,
podem
escrever
vocês mesmos !

Uma pequena legião de fãs Maiakóvskinianos desembarca todos os dias neste endereço que vem se tornando cult,em pleno centro de Moscou. Uma placa aponta para um pátio, no início da rua Myatninskaya. O visitante que deixar a calçada rumo ao pátio interno de um prédio desbotado terá uma surpresa. O pátio dá acesso a um dos mais originais, irreverentes e anticonvencionais museus abertos nos últimos anos na Rússia.

Perdidos em disputas monótonas,
buscamos o sentido secreto,
quando um clamor sacode os objetos :
Dai-nos novas formas !”
Não há mais tolos boquiabertos
esperando a palavra do “mestre”.
Dai-nos,camaradas,uma arte nova
— nova —
que arranque a República da escória.

O Museu Maiakóvski abriu suas portas em 1990 – quando o comunismo já agonizava sob os escombros do Museu de Berlim. Virou ponto de peregrinação de fãs de Maiakóvski, principalmente porque foi lá que o poeta morou, entre l9l9 e l930, num quarto modesto onde viria a morrer.
Os quatro andares do prédio onde ficava o quarto de Maiakóvski foram transformados em museu, administrado pelo Estado. Ao contrário do que acontece em museus instalados em casas onde viveram escritores – em geral, marcados pelo tom austero e solene – o Museu Maiakóvski dá asas ao delírio.


Bebe e celebra! Desata
nas veias a primavera !
Coração, bate a combate!
O peito – bronze de guerra.

O Museu quer reproduzir,numa espécie de ”instalação” que poderia ser perfeitamente montada numa dessas bienais de artes plásticas,o que se passava pela ”imaginação em chamas do poeta”. Assim,objetos que pertenceram a Maiakóvski,como manuscritos e até boletins escolares, são expostos de uma maneira que pode confundir visitantes desatentos. É esta exatamente a intenção do Museu : provocar espanto no visitante.
Cadeiras estão suspensas no ar. Uma estante de vidros quebrados parece enterrada no chão. Surrealismo puro. A porta de uma cadeia é a maneira de informar que Maiakóvski ficou preso por nove meses por ter ajudado presos políticos a fugir.Um dossiê policial registra,ainda na primeira década do século,as atividades do subversivo Maiakóvski,na Rússia pré-revolucionária. Bolas azuis jogadas no trajeto dos visitantes são uma citação ao futurismo.

Depois de descobrir o futurismo na Escola de Pintura e Escultura de Moscou, Maiakóvski foi um dos autores de um manifesto que pedia “um tapa na rosto do gosto do público”. Bustos clássicos espalhados pelo chão testemunham a necessidade de estilhaçar velhas formas da criação artística: “Sem forma revolucionaria não há arte revolucionária”. Seis fuzis apontam para o céu.
O poeta chegou a fazer um apelo para ser recrutado pelo Exército. Depois de percorrer os quatro lances da instalação delirante, o visitante chegará ao pequeno quarto de pensão que exibe, na porta, o nome do poeta. O cenário é modesto: um sofá, um baú azul, uma estante de quatro prateleiras, uma foto de Lênin na parede. É tudo despojado e simples, como convém a um poeta que escreveu:


Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
lavada e clara
e basta -
para mim é tudo.
Ao Comitê Central
do futuro ofuscante,
sobre a malta dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar
do registro partidário
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.

Ao lado do quarto de Maiakóvski, o chão foi pintado de amarelo. Há portas vermelhas entreabertas. O visitante que desembarcar neste estranho mas fascinante museu terá como guia um personagem que parece saído de um dos versos do poeta : uma mulher de 74 anos,chamada Maria Leonietvna. Depois de ler um aviso de que o museu estava à procura de ”trabalhadores idosos”,esta ex-professora se apresentou. Contratada,virou especialista em Maiakóvski.
Aos visitantes, ela explicará que durante anos a vizinha KGB, “por razões de segurança”, era contrária à instalação de um Museu no local onde Maiakóvski viveu e morreu. “Desde que Maiakóvski morreu, ninguém voltou a morar no quarto que ele ocupava. Era propriedade do Estado” – dirá a paciente guia. Entusiasmada com a narrativa da odisséia do poeta na Rússia conflagrada das primeiras décadas do século, Maria Leonietvna vai guiando os navegadores entre um e outro cenário do planeta maiakovskiniano instalado no centro de Moscou:
— “Maiakóvski era uma figura contraditória sob todos os aspectos. Rejeitava o amor burguês, mas amou uma mulher de origem burguesa. Temos um ícone de Nossa Senhora no Museu: Maiakóvski era ateu, mas se voltou para a idéia de Deus. Rejeitava o Estado, mas serviu ao Estado. Fez versos e pinturas triunfalistas sobre a Rússia. Stálin vetou Maiakóvski, porque ele tinha escrito um poema dedicado a Lênin. Quando Stálin devolveu Maiakóvski à vida russa, pensou que Maiakóvski escreveria um poema de louvor a ele. Mas Maiakóvski não escreveu” – diz a guia.
Tanto tempo depois, visitantes anônimos percorrem este pequeno território no centro de Moscou. O capítulo final pode ter sido – e foi – trágico. Mas Maiakóvski é lembrado como o poeta vital, épico, rebelde, que celebrava o Comitê Central do Futuro em versos gritados como estes, em que dialoga com o sol:


(…) Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.

Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.

Maiakóvski – que enfiaria um balaço no peito no dia quatorze de abril de 1930, aos trinta e seis anos de idade - produziu em 1926 um poema belíssimo em homenagem a Serguei Iessienin, um poeta e amigo que se matara três dias depois do Natal de 1925. Não se sabe o que é maior ali: se a tragédia de um suicídio consumado (e outro antevisto) ou se a beleza de versos encharcados de dor e esperança. Maiakóvski passou três meses escrevendo os versos de ”A Serguei Iessienin”.
Haroldo de Campos traduziu assim o canto de Maiakóvski ao amigo morto:


Por enquanto
há escória de sobra.
O tempo é escasso-
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
(…) Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.

Iessienin tinha deixado, como despedida, versos belos mas desesperançados – escritos, literalmente, com sangue, num quarto do Hotel Inglaterra, em Leningrado. Depois de cortar os pulsos e escrever os versos finais, Iessienin se enforcou.
A tradução de Augusto de Campos para os versos de Iessienin foi publicada no volume “Maiakóvski/Poemas”, um pequeno tesouro organizado a seis mãos por Boris Schnaiderman e pelos irmãos Campos para a Editora Perspectiva, em São Paulo, em 1983:


Até logo,até logo,companheiro
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
é sinal de um encontro no futuro.
Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
tampouco há novidade em estar vivo”.

Cinco anos depois, o próprio Maiakóvski se matou. O bilhete de despedida dizia:
“O incidente está encerrado. O barco do amor quebrou-se contra a vida cotidiana. Estou quite com a vida. É inútil passar em revista as dores, os infortúnios e os erros recíprocos. Sejam felizes”.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Campanha Rio 2010



Cruzem os dedos!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Reorganizando o itinerário


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Enfim, agora só resta confirmar o pouso em Niterói.

Ia de ônibus, aproveitando a viagem para visitar amigos e conhecer lugares, mas ao final de contas vou e volto do Rio num avião.

Tive problemas para comprar a passagem pela internet. Daí fui até o aeroporto, onde acabei comprando a ida e a volta por R$60 a menos que o previsto, e em horários melhores que os previstos.

Assim, parto de Porto Alegre dia 13/12 às 6h30, e chego na capital gaúcha de novo às 22h do dia 21/12.

Contatos, de preferência por email ou SMS.

De resto, saiu um artigo meu no Jornal de Artes de Osório, que contou com a participação do Maico Silveira no processo de composição. Em breve publicaremos os meandros dessa parceria.

Estive com a Taise aqui em Porto Alegre... A saudade da família e da casa é enorme...

Mas tá valendo, tá valendo...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Itinerante

Amigos. Esse mês de novembro pouco pude colaborar no blog, e dezembro dificilmente terá uma atualização efetiva. Não que falte assunto, longe disso. Mas esse é mais um daqueles momentos decisivos em que temos que rever prioridades. Em breve saio daqui de casa, do aconchego do lar, e vou com uma mochila nas costas, muitas idéias na cabeça e sem uma câmera na mão, buscar opções para o ano que vem. Por um lado, com muita saudade da Taise e do Miguel; por outro, na expectativa dos amigos a rever e a conhecer. Tentarei, na medida do possível, estar acessando o e-mail e o blog. O telefone ainda não sei se o levarei. Se por acaso houver quem possa me conseguir pouso e carona, agradeço. Abraços!



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Saio de casa para um mês de errância...


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Essa, obrigatoriamente,vai ter que ser no dedão...


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Prova na UFRGS dia 01/12


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De Osório para Floripa...


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Prova didática na UFSC dias 07 e 08/dez


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Tomara que dê (verba) para visitar a Malu!


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Senão é ir direto para o Rio de Janeiro...


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Esse é o caminho direto da Rodoviária para a UFF...


Visualizar A UFF em Niterói em um mapa maior
UFF campus Gragoatá... lá eu me acho...


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

"Quem disse que a literatura não incomoda mais?" (3)

"Caim e Abel", c. 1620, atribuí­do a Simon Vouet e Pietro Novelli. Óleo sobre tela - 198 x 147 cm. Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma.

Feliz vai também caim, já a sonhar com um almoço no campo, entre verduras, fugidios carreirinhos de água e passarinhos a sinfonizar nas ramagens. À mão direita do caminho, além, vê-se uma fila de árvores de bom porte que promete a melhor das sombras e das sestas. Para lá tocou caim o jumento. O sítio parecia ter sido inventado de propósito para refrigério de viajantes fatigados e respectivas bestas de carga. Paralela às árvores havia uma fileira de arbustos tapando o carreiro estreito que subia em direcção ao teso da colina. Aliviado do peso dos alforges, o jumento tinha-se entregado às delícias da erva fresca e de alguma rústica flor tresmalhada, sabores estes que jamais lhe tinham passado pela goela. Caim escolheu tranquilamente a ementa e ali mesmo comeu, sentado no chão, rodeado de inocentes pássaros que debicavam as migalhas, enquanto as recordações dos bons momentos vividos nos braços de lilith voltavam a aquecer-lhe o sangue. Já as pálpebras tinham começado a pesar-lhe quando uma voz juvenil, de rapaz, o fez sobressaltar, Ó pai, chamou o moço, e logo uma outra voz, de adulto de certa idade, perguntou, Que queres tu, isaac, Levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o sacrifício, e o pai respondeu, O senhor há-de prover, o senhor há-de encontrar a vítima para o sacrifício. E continuaram a subir a encosta. Ora, enquanto sobem e não sobem, convém saber como isto começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar.
Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que signifi ca que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes.
Chegando assim ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac. Não, não era certo, caim não é nenhum anjo, anjo é este que acabou de pousar com um grande ruído de asas e que começou a declamar como um actor que tivesse ouvido finalmente a sua deixa, Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque eu o impedi.
O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor, Tarde, disse caim, Vale mais tarde que nunca, respondeu o anjo com prosápia, como se tivesse acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde, respondeu-lhe caim. O anjo resmungou, Mais um racionalista, e, como ainda não tinha terminado a missão de que havia sido encarregado, despejou o resto do recado, Eis o que mandou dizer o senhor, Já que foste capaz de fazer isto e não poupaste o teu próprio filho, juro pelo meu bom nome que te hei-de abençoar e hei-de dar-te uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu ou como as areias da praia e eles hão-de tomar posse das cidades dos seus inimigos, e mais, através dos teus descendentes se hão-de sentir abençoados todos os povos do mundo, porque tu obedeceste à minha ordem, palavra do senhor. Estas, para quem não o saiba ou finja ignorá-lo, são as contabilidades duplas do senhor, disse caim, onde uma ganhou, a outra não perdeu, fora isso não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque abraão obedeceu a uma ordem estúpida, A isso chamamos nós no céu obediência devida, disse o anjo.
Coxeando da asa direita, com um mau sabor de boca pelo fracasso da sua missão, a celestial criatura foi-se embora, abraão e o filho também já lá vão a caminho do lugar onde os esperam os criados, e agora, enquanto caim ajeita os alforges no lombo do jumento, imaginemos um diálogo entre o frustrado verdugo e a vítima salva in extremis. Perguntou isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou

TRATA-SE de um trecho divulgado pela Folha On-line de Caim, de José Saramago, recém lançado. Segundo informações dadas pelo próprio jornal, o livro questiona a tradição e valores bíblicos ao se por a narrar o período do Antigo Testamento que vai da criação ao dilúvio. Anos depois de publicar o “Evangelho segundo Jesus Cristo” e provocar indignações da ICAR, o prêmio Nobel de Literatura volta a abordar temas bíblicos e declara estar mudando mudar de postura: "As insolências reacionárias da Igreja Católica precisam ser combatidas com a insolência da inteligência viva, do bom senso, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só tem interesse no poder", afirmou. Na ocasião da publicação do “Evangelho”, Sousa Lara, na época subsecretário de estado da Cultura de Portugal, considerou o livro ofensivo para as tradições religiosas de seu povo e o fez retirar da lista para o prêmio europeu de Literatura. Eis o que o levou, talvez, a auto exilar-se de Portugal, buscando refúgio (o sossego para seu espírito literário), na ilha espanhola de Lanzarote (NPDiário.com).

Saramago tem dado afirmações um tanto polêmicas sobre a bíblia:
- "A bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana"
- "Sem a bíblia, um livro que teve muita influência em nossa cultura e até em nossa maneira de ser, os seres humanos seriam provavelmente melhores", completou.
- O romancista denunciou "um deus cruel, invejoso e insuportável, que existe apenas em nossas mentes", e afirmou que sua obra não causará problemas com a igreja católica "porque os católicos não lêem a bíblia".

Na mesma esteira, o escritor português dirige-se diretamente a Bento XVI: "Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas o [seu] absoluto cinismo intelectual". Ainda segundo Saramago, a igreja não se importa com o destino das almas e sempre buscou o controle de seus corpos.
A ICAR se manifestou: o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Marujão, chamou o livro de "operação publicitária": “Um escritor da dimensão de José Saramago deveria tomar um caminho mais sério. Pode fazer críticas, mas entrar em um gênero de ofensas não fica bem a ninguém, e muito menos a um Prêmio Nobel". A questão é determinar onde está esse limite entre a crítica e a ofensa para a ICAR, e qual a sua auto-avaliação quanto às “críticas”.

"Admito que o livro pode irritar os judeus, mas pouco me importa", afirma Saramago, ao supor que sua obra não causará problemas com a Igreja Católica "porque os católicos não lêem a Bíblia". Nesse sentido, manifesta-se também a comunidade judaica: "o mundo judeu não vai se escandalizar com os escritos de Saramago nem de ninguém", e "Saramago desconhece a Bíblia e sua exegese. Faz leituras superficiais da Bíblia", disse o rabino Elieze du Martino, representante da comunidade judaica de Lisboa. Talvez seja essa a melhor reação às provocações de Saramago, de quase indiferença.

A pior – mais exdrúxula – talvez tenha sido a reação no Parlamento Europeu. O deputado da bancada social-democrata Mário David, médico de formação, disse ter vergonha de Saramago e pediu a renúncia pelo escritor de sua cidadania portuguesa: "José Saramago, há uns anos, fez a ameaça de renunciar à cidadania portuguesa. Na altura, pensei quão ignóbil era esta atitude. Hoje, peço-lhe que a concretize... E depressa! Tenho vergonha de o ter como compatriota! Ou julga que, a coberto da liberdade de expressão, se lhe aceitam todas as imbecilidades e impropérios?". Ainda acusando Saramago de ter se deslumbrado com o Nobel, o deputado afirma que esse prêmio "não lhe confere a autoridade para vilipendiar povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece mas que definem as pessoas de bom carácter." Certamente para o nobre deputado, ateus devem ser automaticamente pessoas más. Sobre esse assunto, tem um ótimo vídeo do ateu Dráuzio Varella (médico da Globo), que dispensa qualquer devaneio meu nesse sentido:



SYLVIA COLOMBO faz aqui uma leitura no mínimo convidativa: José Saramago usa Caim para atacar Deus

Aqui, bate-rebate:
"Saramago, já chega" -
blog de Mário David
"Carta aberta ao eurodeputado Mário David" - Helder Sanchez, pelo Movimento ateísta português
"Mário David, já chega" - Blog Costa Rochosa
"Para fechar sobre Saramago" - blog de Mário David

Eis mais um trecho divulgado pela Folha, em que Saramago descreve a criação de Adão e Eva pelo Senhor, o desenvolvimento das "incomodidades do ser", a evolução dos hormônios do homem e da mulher e a geração dos seus filhos.


Quando o Senhor, também conhecido como Deus, se apercebeu de que a Adão e Eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do Éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canônica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e úmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o Senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no gênero amo-te, Eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objetivo do violento empurrão dado pelo Senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contato com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o Senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a Adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou Adão, teu primogênito, Senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou Eva, Senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o Senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, Adão disse para Eva, Vamos para a cama.
Set, o filho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gônadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver suficiente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o fiat foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, os hormônios são coisa muito complicada, não se produzem assim do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de Set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro Caim e depois Abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distrações, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do Senhor, e mesmo essas pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na floresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, Adão dizia a Eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão firme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um filho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconheça-se, já não é pequeno ganho. Quanto ao Senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se Adão e Eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste.

Informações e excertos foram retirados majoritariamente do jornal Folha de S.Paulo.

Poemas para serem relidos - Manuel Bandeira

Ainda hoje escrevi para um amigo palavras que me perturbaram. Eu dizia-lhe: "são nesses momentos de fragilidade do homem que nos perguntamos o que é a vida e qual o seu objetivo. Pela fragilidade do homem nos colocamos a pensar a nossa própria vida, como homens que somos, de trajetos incertos mas de destino único". Ainda acrescentei: "pessoas, lugares e momentos constituem a nossa história e nos fazem ser o que somos hoje: quando esses elementos que nos constituem faltam, é como se partes de nós mesmos tivessem se perdido para o sempre".
Na tentativa de expurgação de meus demônios interiores, resolvi postar esses poemas de Bandeira.
Por não querer vincular o amigo ao assunto, evitei referi-lo.
E a foto acima é de Carlos Orellana.

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Momento Num Café


Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta

(BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000).

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

“Realpolitik”



Em recente entrevista ao jornal Folha de São Paulo (10/2009), o presidente Lula fez uma afirmação de que o papel da imprensa é o de informar, não o de fiscalizar. Sua referência é aos próprios órgãos de fiscalização governamentais e, em outra instância, aos poderes legislativos e judiciários.

Ao passo que o poder político é dado pelo povo em sistema de representatividade (considerando a sua fragilidade), e as instâncias jurídicas e policiais passam pela admissão pública (que está em jogo o perfil de profissional que a res publica precisa), a imprensa está livre dessa legitimação pública, exceto pelo valor de mercado. Ou seja: ainda que possa haver distorções, em princípio no estado democrático os três poderes passam (direta ou indiretamente) por uma legitimação pública; o chamado quarto poder, a mídia, não. E ela está na nossa vida, nos ditando modelos e opiniões, ainda que não queiramos pagar por ela: basta ligar a televisão no horário do almoço ou do jantar.

E quem dá essa legitimação de poder à imprensa? Não me refiro aos espectadores, essa massa bovina e acrítica que somos levados a ser; mas a quem a financia. Lendo a ótima entrevista do delegado Protógenes Queirós à Carta Capital (dez/2008), ao se referir ao caso Daniel Dantas, ele cita Marx no seguinte comentário:

Daniel Dantas representa um poder ainda invisível. É visível à medida que começamos a aprofundar a investigação. Ou até num debate público, aí as pessoas começam a se revelar. Marx dizia “os quadros da sociedade começam a se revelar através de um processo público em que as pessoas se posicionam”. Alguns com um ideal, outros com outro ideal. Às vezes me dizem “estão criticando a Satiagraha, a verdade é que foi um sucesso, pautou-se pela lei, pelas regras do direito penal brasileiro, pela Lei de Crimes Contra o Sistema Financeiro Brasileiro. Tanto que vamos ter uma condenação em breve. Significa que o resultado das investigações foi legal.

Posicionamento: é ao se posicionar (ou não!) que se desvelam os jogos de interesse. Ideologia: não é restrita à posição explicitamente política, mas subordina o modo como que as pessoas vêem o mundo. Ou seja, nossa ideologia se revela perante nossa posição em relação ao mundo. Mas os interesses podem vir a ser reais ou manipulados (agora sim, me refiro aos espectadores, essa massa bovina e acrítica que somos levados a ser). Talvez esteja aí o real sentido da afirmação de que a religião, para Marx, é o ópio do povo. Talvez fosse no contexto e história européias; talvez, hoje, século XXI, o ópio do povo sejam os meios de comunicação, informação e entretenimento de massa. Será que não?

Acima, um vídeo no mínimo, interessante: um espaço de debate entre jornalistas globais. Ao invés de dar notícias com ares de imparcialidade, em que fica claro o desejo de passar por factual o que é de natureza opinativa, eles estão colocando as cartas na mesa, ou seja, revelando a sua posição. Ideológica.

sábado, 24 de outubro de 2009

Não se fume!

Sou levado a ser favorável à proposta de coibir o fumo em ambientes fechados. E não é uma coisa de opção do estabelecimento, oferta de alternativas ao fumante ou criação de espaços alternativos, como há hoje. Pois, ainda que haja a área de fumantes e de não-fumantes em um estabelecimento comercial, por exemplo, o trabalhador do local (imaginemos um garçom) transita por todas as áreas e não têm voz nesse debate.

Tenho visto um esforço em potilizar esse debate: primeiro, o fato de ter sido o governo tucano de São Paulo a ter proposto essa medida. Dessa forma, estaria em jogo uma falsa dicotomia entre a direita “saudável” e a esquerda “fumante”. As coisas não podem ser colocadas dessa forma, pois tornaria o debate muito raso. De outra forma, haveria uma “perseguição” ao fumante, como que criminalizando o ato de fumar. E, aproximando essa discussão à da legalização de drogas, estaria em debate a autonomia do sujeito sobre o próprio corpo.

É claro para mim que a restrição ao uso de drogas (ressalta-se: lícitas e ilícitas) passa pela liberdade individual e o conseqüente risco à saúde e vida de outras pessoas. E quem teria autoridade para intervir nesses tênues limites da liberdade individual é o estado. Se há os que querem a liberdade de fumar, há os que querem a liberdade de não fumar passivamente. E, reitero: não se trata de uma simples separação de espaços, pois há os que transitam entre os ambientes sem poder intervir.

Penso inclusive que o foco da lei está no fumante, ao passo que deveria estar no processo de fabricação dos cigarros. Afinal, o processo de plantio e colheita de fumo são altamente prejudiciais aos agricultores, sobretudo ao considerarmos que a origem dessas folhas são frequentemente da agricultura familiar; ou seja, está em jogo a exposição de crianças aos malefícios da produção do fumo.

Logicamente que se trata de questões delicadas a esse respeito. Se o estado tem esse poder para intervir nas escolhas do sujeito? Cabe considerar como outros países já trataram desse assunto e a que resultados chegaram. Em jogo deve estar o exercício da alteridade e da tolerância, para se conseguir um debate frutífero. Enquanto isso, confiram acima a campanha (supercriativa) que está sendo veiculada na ULBRA TV.