literatura, política, cultura e comportamento.
seja em santa maria, em alegrete, no rio de janeiro, em osório ou em liechtenstein.
na verdade, tanto faz.
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4 de novembro de 2011

Minha redação enquanto secundarista

Em meio às arrumações da mudança, achei o seguinte diálogo, escrito em alguma aula de português do meu primeiro ano na Escola Rural de Osório. Apesar dos (poucos) poréns que eu (hoje) teria com o texto, acho-o engraçado ao poder considerá-lo como uma forma de olhar para mim mesmo naquela época da vida, dos meus 15 anos, da ameaça da ALCA, das crises do neoliberalismo que o país sofria... Hesitei um pouquinho, mas ainda assim resolvi dividi-lo com os amigos! 




Além do mais, é com certo carinho que enxergo, entre outras coisas, aquele "ultilíssimo" da terceira página...

14 de março de 2011

Ato 2

Daqui vejo as pessoas lá embaixo, como formiguinhas andando de um lado para outro, sem propósito algum. Ir para onde? Para quê? Qual a finalidade de tudo isso? Poderia descrever qualquer uma daquelas pessoas: há engravatados, mendigos, obesos, carecas... Há algumas pessoas bonitas, outras nem tão apresentáveis... Aonde vão? Eu não sei, talvez pudesse ir junto...

Um carrega flores: será que vai vendê-las? Será que vai levar para a namorada? Ou será que vai a um velório? Daqui não dá para saber, não dá para penetrar na complexidade que é a existência do outro. O que ele me diria? Talvez estivesse tentando mentir para mim enganando a si mesmo. Talvez fosse sincero, mas não fosse convincente. Talvez simplesmente não me dissesse nada.

De onde saíram tantas pessoas? De onde vieram? O que estavam fazendo antes de passarem por aqui? Qual é a religião, a opção sexual, a formação escolar e profissional dessas pessoas? Será que olham TV? Por que veem TV? Será que têm opinião política mais ou menos definida? O que elas querem para si, pro Brasil e pro mundo? Igualdade social, índice de desenvolvimento humano, produto interno bruto, fator previdenciário, créditos de carbono, cotas nas universidades: qual é o caminho? Há apenas um caminho?

Daqui é fácil julgar: construções irregulares em áreas urbanizadas, monocultura no campo, políticas desenvolvimentistas, crítica superficial, debate sobre ética, o politicamente correto, a opressão social à mulher, ao negro, ao homossexual (a tudo o que seja rotulado como diferente, mas que é apenas mais do mesmo). Aborto: quantas moças se arriscam, enquanto eu – impassível – me dou o direito de julgá-las e de condená-las? Isso vai impedi-las de continuarem abortando? Ao mesmo tempo, julgo se o governo deve dar dinheiro para famílias sem fonte de renda ou se não deve dar dinheiro para “vagabundo que só vai querer fazer filho”. Contudo, eu permaneço aqui, na minha janela, com a boca escancarada e cheia de dentes esperando um milagre divino ou o investimento de um bondoso empresário norueguês que resolva todos os problemas que me cercam (ou a morte chegar!).

Cai uma garoa, e mendigos – homens, mulheres; idosos e crianças – se abrigam sob a marquise de uma grande loja. Um policial se dirige a uma mulher com duas crianças em volta e com outra no colo e diz: “Vocês vão ter que sair daí!” Ela diz: “Tudo bem, moço. Mas para onde a gente vai?” Aquelas palavras ecoaram pelo meu coração. Percebo que até o espaço embaixo dos viadutos foi fechado. “Para onde a gente vai?” E se fosse eu no lugar daquela mulher? O que eu faria? Eu poderia fazer alguma coisa? E, não estando no lugar daquela mulher, ainda assim eu posso fazer alguma coisa por ela e pelos seus filhos? Para onde aquela gente vai? Para onde a gente vai? Por algum motivo – seja deus, oxalá, o destino, o estado brasileiro, o yin e o yang, ou a favorável umidade relativa do ar – tive a sorte de nascer em uma determinada família, de determinada condição social, em coordenadas específicas de espaço e de tempo, em condições ideais de temperatura e pressão, que me tornaram apto a aproveitar as oportunidades com a sorte aliada ao esforço para que eu esteja assim, aqui e agora. E como aproveitar essa conjunção de fatores e de variáveis para ajudar as pessoas, de modo que todos possam ter a chance de aproveitar as mesmas oportunidades? Para onde a gente vai? Para onde a gente quer ir? O que é preciso fazer para se chegar a algum lugar?

24 de janeiro de 2011

Paquera

- Você gostaria de namorar, gata?
- Hummm... depende... Quem?
- Que tal comigo?
- Não.
- Ué, por que não?
- Porque "namorar" é transitivo direto, portanto não admite preposição.
- ?
- A preposição "com", nesse caso, indica companhia. Imagina o verbo "visitar", que também é transitivo direto. Se eu digo que vou visitar a vovozinha com o lobo mau, "vovozinha" é o objeto direto, e lobo mau é um adjunto adverbial que indica quem me acompanha nessa visita.
- ???
- Não faça essa cara de desentendido, seu pervertido! Eu sei qual é o seu plano. Você quer que eu namore alguém com você! Mas eu não me presto para um ménage à trois!
- Gata, não entendi o que tu disse, e acho que há um mal-entendido... 
- Mal-entendido nada! Você acha que eu não percebo as coisas? Olha, eu sou estudante de letras! Por enquanto eu estou apenas no mercado informal revisando textos e dando aulas particulares esporádicas, mas em breve eu estarei dando aulas de português. Tá certo, eu preferiria dar aulas de literatura, mas mal vejo perspectiva de vir a ser paga para isso. O professor de literatura parece estar em vias de extinção, assim como o datilógrafo, o relojoeiro, o sapateiro, o alfaiate, o sineiro, o lanterninha ou o fotógrafo lambe-lambe...
- Lambe-lambe?


19 de janeiro de 2011

Reescrita e colagem


Ontem, no ônibus, aconteceu algo inusitado: um bichinho subiu na minha mão. Era um desses cascudinhos amarelos que ficam em volta das lâmpadas. Meu primeiro impulso ao sentir seus passos foi mirar e jogá-lo para longe, como se fosse uma bolinha de gude ou coisa parecida. Mas, freei a ação segundos antes de fazê-lo e temi pelo destino do bichinho: estávamos enclausurados em um ônibus, uma caixinha de metal – como outras tantas caixinhas de metal pelas quais as pessoas habituaram-se a se locomover desde o último século – a uns 70 km/h com 46 poltronas, respirando o mesmo ar de outras 45 pessoas, o mesmo ar que saía quente pela ventoinha e retornava frio, diminuindo a umidade do ar e provocando ressecamento das vias aéreas, o que provoca irritação no nariz e na garganta, e proliferando os fungos, ácaros e bactérias por todo o ambiente, como se fossem as argolinhas de um aquaplay. (Ora, quem não se lembra o que é um “aquaplay” que procure na Wikipédia: “Aquaplay é um brinquedo que foi popular na década de 1980. Ele consiste de um pequeno recipiente, em plástico transparente, enchido com água e vedado. Um ou dois botões na base, de acordo com o modelo, acionava um mecanismo, a fim de realizar a tarefa do jogo. As tarefas variavam de acordo com o modelo. Por exemplo, um golfinho que deveria encaixar todas as argolas em um espeto; ou ainda, uma bola de basquetebol que deveria passar dentro da cesta. Este artigo sobre Jogos é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o”). O fato é que estávamos fechados no ônibus, o cascudinho amarelo e eu, seu cúmplice, sem saber como ele tinha entrado ali, e sem saber como ele iria sair. Eu não tinha condições de jogá-lo pela janela, aliviando minha consciência por tê-lo devolvido à natureza, ainda que sabendo que ele estaria no asfalto sujeito a qualquer pneu desavisado. E, se eu o jogasse pelo ônibus, como se fosse uma bolinha de gude ou coisa parecida, ele iria correr sérios riscos de vida, como ser pisado sem querer por alguém que pusesse fim àquela forma de existência. Ou, vir a parar na cabeça de alguém que não tivesse a complacência por um insetinho como ele e o esmagasse. Alguém o esmagaria como tantos que por aí são violentados, esmagados, privados de sua dignidade e condenados ao esquecimento e ao descaso das pessoas. A não ser que apareçam na TV, em algum programa que explore de forma patética o drama de algumas famílias entre comerciais de carros, xampus, sabonetes, sabões em pó, cosméticos, calçados, cursinhos de inglês, bancos, lojas de roupas e programas do próprio canal. Será que somos mais atingidos pelas tragédias e pelos engarrafamentos que aparecem na televisão e pelo câncer dos atores da novela e pelos cantores sertanejos do que pela realidade dos jovens do nosso bairro que procuram nas drogas e na violência uma forma de se verem como seres viventes, já que de outra forma eles não conseguem se fazer ouvidos pelo resto da sociedade? É mais fácil as pessoas ignorarem que há grandes bolsões de pobreza em volta das cidades, discriminarem e criminalizarem as pessoas que não conseguem espaço digno entre as pessoas “ditas de bem”? É bonito dizer que “não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar”: o problema é que, ao mesmo tempo em que se está aprendendo a pescar, a pessoa precisa ter o seu peixe para comer! Isso é um problema deles – lá –, do governo, ou é um problema meu e de responsabilidade minha também? Não há civilização humana que tenha se formado sem religião. E qual a importância e o papel das religiões, senão promover o amor, o respeito e o senso de coletividade? Não quero parecer autossuficiente – pois sei que não sou – mas para ajudar as pessoas, compreender o próximo, moldar o meu caráter e ser uma pessoa razoavelmente boa eu não preciso de religião. Talvez haja quem precise, e eu daria todo o apoio nesse caso. Certa vez eu vi aquelas senhoras que estavam trabalhando na igreja: estavam lá porque realmente têm fé e rezam para que seu deus implacável tenha piedade de nós todos, filhos dele? Ou elas estão fazendo um “sacrifício” indo à missa para acumular bônus que lhas garantam um lugarzinho especial no reino dos céus? Ou, simplesmente, estão seguindo conveniências sociais sem um mínimo de profundidade espiritual? Uma vez li no fórum de uma comunidade do Orkut uma frase de Gandhi onde ele diz que acredita profundamente na verdade de todas as religiões e na importância das mesmas para os povos aos quais foi revelada. Acho isso maravilhoso porque é o princípio da tolerância. Independente da minha espiritualidade, acredito mesmo que todas elas têm um papel fundamental na sociedade. O problema é o que cada homem, cada um de nós faz com elas. Já é batido "refletir" sobre a degradação e perda de valores na "sociedade contemporânea". Mas se eu olho o mundo ao redor e comparo com o passado, eu chego mesmo a essa conclusão? Afinal, afirmações a respeito de "perda" e "degradação" implicam que haja no passado um momento em que esses valores tenham sido respeitados e hoje eles estariam invertidos. Desde quando os valores ocidentais judaico-cristãos que nós assumimos como nossos foram realmente os corretos? E para quem esses valores foram "corretos"? E o suposto respeito a esses bons valores tornava os homens e a sociedade melhor? Será que atribuir essa "inversão" de valores à ascensão do capitalismo não é apenas simplificar as coisas também? Será que hoje não somos apenas menos hipócritas, a partir do momento em que as relações pessoais estão organizadas em torno do acúmulo de dinheiro, essa coisa virtual que se transformou na única medida de valor? E a capacidade de amar dos seres humanos, sua generosidade, inteligência, afeto, doçura, desejo? Tudo isso ficou subordinado ao poder aquisitivo do indivíduo. E não estou nem falando de consumismo, porque isso já é outra coisa. Falo de algo mais básico como sobrevivência. Numa sala de bate-papo, eu conversava com uma amiga eslovaca sobre a experiência comunista do século passado. Ela me escreveu que, para o pai dela, o fracasso do comunismo é o fracasso da humanidade. E ele tem razão. O comunismo parte do princípio de que, se a gente consegue algo, vai dividir com os demais. Mas as pessoas não pensam assim: se a gente consegue algo, aquilo vira posse, é só meu. Dividir o pão ou dar migalhas? Quem realmente divide o pão? Se tiver pouco pega pra si, se tiver muito vende. E, se quer ajudar alguém, digite a tag de uma determinada empresa no tuíter! Se quer se manifestar reivindicando atenção das autoridades, eleger um candidato ou fazer a revolução, promova as tags até aparecerem nos trends topics do tuíter. E depois eu posso continuar levando a minha vida normalmente, pois já exerci a minha cidadania em 140 caracteres, sendo levado pela opinião pública para repetir uma ideia qualquer motivada por pensamentos rápidos e não testados. É um absurdo o aumento do salário dos deputados? É sim, porque tem um monte de gente que passa fome ou que ganha menos. Mas, e se não tivermos o aumento, isso muda? E se colocarmos especificamente esse aumento numa verba específica para a educação, saúde, cultura, transportes, isso vai de fato mudar a realidade? Como eu, daqui do meu cubo de concreto, posso mudar a realidade? Eu posso fazer algo sozinho? Então, como nós mudamos a realidade? Resolvi, portanto, que ia manter o cascudinho amarelo caminhando entre meus dedos. O que não é fácil, porque esse tipo de inseto nunca pára, e é sua mão que precisa movimentar-se para que ele continue, enfim, caminhando em círculos sem saber, até quando eu o deixaria em uma árvore, assim que acabasse aquela viagem. E se eu também sou como aquele insetinho que se deixa levar andando em círculos sem o saber? Acho que me identifico com ele, por isso tenho essa ansiedade em protegê-lo. Cascudinho hipócrita, meu semelhante, meu irmão! Protegê-lo passou a ser meu objetivo naquele instante, e a mulher que se sentou ao meu lado algumas paradas depois deve ter estranhado muito minha relação com meu novo amiginho casca-dura. Era uma ação meio autista: um cara sentado mexendo a mão enquanto um inseto caminha por ela. Mas isso não importava naquele momento, o que importava era o objetivo maior: deixá-lo a salvo quando descesse do ônibus. E foi o que fiz, por mais difícil que fosse se levantar com o ônibus em movimento e segurar-se sem esmagar o bichinho que estava perto da minha palma, ao mesmo tempo em que ia ajeitando minha mochila e pedindo licença à moça aquela que estava do meu lado. Desci, coloquei-o numa árvore. Missão cumprida. Então, enquanto ia para casa, começou a viagem: e se depois de tanto cuidado, ainda sentado no meu lugar no ônibus, eu perdesse o bichinho de vista? Sei lá, se ele entrasse pela manga da minha camiseta, como eu o tiraria de lá sem esmagá-lo, ou o esmagasse por instinto? “Como todo o ser humano”, o cascudinho também precisaria ser protegido e cuidado com respeito e compaixão. Ao invés disso tudo ter acontecido com um cascudinho, isso poderia ter sido com uma joaninha. Seria mais bonitinho, mas também seria mais apelativo. E ninguém tem pena de um simples cascudinho amarelo da luz.

Texto plagiado a pedido, recortado de muitas vozes e colado aqui, com cola bastão.
Agradecimentos especiais a quem quer que tenha colaborado na sua costura, conscientemente ou não.

12 de janeiro de 2011

Oportunidades

Ir ou não ir? O calor insuportável de Santa Maria tinha sido interrompido por uma chuva forte ao final da tarde. Deveríamos ir, eu e Miguel, para aquela chuva, brincar na calçada? O primeiro impulso – como “adulto” – é o de não ir. Como assim, sair para tomar banho de chuva? Não que me importe com o que os outros pudessem pensar: de fato, não me importo com isso. Ou melhor, não quero me importar, esforço-me para não me importar com o que os outros pensem de mim, das minhas coisas, do que eu faço ou deixo de fazer. A dúvida em ir não durou mais do que cinco segundos, mas é como se o tempo tivesse parado a fim de que eu pudesse refletir sobre se deveria ir ou não ir. A prudência recomendaria que não fôssemos, se considerarmos todas as recomendações de nossos médicos, noticiários, mães, avós, policiais e benzedeiras. Tomar banho de chuva pode dar um resfriado, talvez até uma tuberculose! Um "resbalo" e uma queda de mau jeito poderiam trazer problemas sérios! Ora, como os seres humanos são frágeis! Já é um milagre a minha existência, se pensarmos em toda a trajetória da carga genética que trago em mim, que constitui o que sou, e que veio dos meus pais e dos meus avós, de Adão e de Eva, dos primórdios da humanidade, dos ancestrais primatas e do primeiro ser vivo: um ser unicelular, com membrana, material genético e um monte de composto orgânico que formava o seu metabolismo. Meu ancestral não morreu – não ao menos antes de passar a carga genética que nos une – nem na Segunda Guerra Mundial, nem na Guerra dos 100 anos, nem durante a Peste Negra ou durante a caça às Bruxas, nem no incêndio de Roma por Nero ou na destruição de Sodoma e Gomorra por Deus, nem foi pisoteado por um mamute, nem comido por um dinossauro ou morrido junto com eles pela queda de um gigante meteoro. Se a minha carga genética sobreviveu às Eras Glaciais e ao Dilúvio, qual o risco em tomar o banho de chuva? O que eu sei é que minha mãe sempre me diz que faz bem à saúde tomar um copo de água todo dia logo após acordar. Mas li, outro dia, na internet, que bom mesmo é tomar uma colher de azeite em jejum. Afinal, devemos tomar água ou azeite ao acordar para manter a boa saúde? Ou não tomar nada e ir logo escovar os dentes? Espreguiçar-se, estalar os dedos, bocejar, coluna ereta, remédios, lentes de contato, sabonete, fio dental, creme para o cabelo, desodorante, xixi, cocô. Cotonetes: usá-los ou não usá-los? Que dilema mortal! Sempre usei cotonetes, mas de uma hora para outra viraram os vilões dos ouvidos. Menos mal que as recentes pesquisas nos Estados Unidos liberaram os ovos! Agora podemos comer ovos todos os dias sem nos preocuparmos com o colesterol! Ou não, já que não há nada mais impreciso, superficial e inconstante do que as pesquisas idiotas recém divulgadas nos EUA, e que são repassadas para nós – pessoas comuns – pelo jornal Hoje e pelas páginas de emails. E então, tomar água ou azeite de cozinha? Pode ser óleo de soja, ou tem que ser de girassol ou de oliva? Não tomar nada? Misturar os dois? Ah, não, água e óleo não se misturam. Uma solução é às segundas, quartas e sextas tomar água ao acordar, e às terças, quintas e sábados tomar óleo: no domingo eu vou dormir até o meio-dia, e não vou me preocupar com isso. Além do mais, tenho que me matricular na natação, na ioga, no pilates, no aikido, no inglês, na academia... Porém, devo procurar a sensação de paz e de felicidade pagando por ela? Conta, boleto, promoção, cheque, cartão de crédito, dívida no banco, cartão telefônico, sedex, empréstimo, parcela a partir de 24 vezes sem juros, imposto de renda, matrícula, taxa disso, taxa daquilo, desconto, pedágio, mensalidade,  folheto promocional, propaganda, telemarketing, contracheque, SPC, SERASA, IPTU, IPVA, ICMS, consumismo, imperialismo, anarquismo, nacionalismo, barbarismo, catecismo, futurismo, dadaísmo, capitalismo, eufemismo, bairrismo, provincianismo, chauvinismo: eis a vida do Homo sapiens sapiens moderno, pósmoderno, contemporâneo, de vanguarda, sedentário para agir e para pensar sua vida, constante e chata. Talvez eu caminhe, talvez eu corra. Talvez eu faça aeróbica na frente do computador, através de vídeos do youtube. E para que fazer tudo isso? Todas essas atividades de uma rotina saudável vão me trazer a felicidade? Talvez eu libere adrenalina, que me dará sensação de bem estar. Mas a adrenalina é o mesmo hormônio que as pessoas liberam quando têm a sensação de medo, para estimular a luta ou a fuga. Devo lutar ou fugir? Devo procurar a felicidade no Google e respondendo a todos os emails, scraps e powerpoints repassados ou procurar os meus familiares e os meus amigos para abraçá-los e dizer a eles o quanto eu gosto deles e o quanto eu sinto saudades deles? Eu deveria também era procurar fazer novos amigos, aproveitando a oportunidade de oferecer um sorriso a cada estranho, vendo-o como um amigo em potencial. O que será que passa pela cabeça do outro, daquele vizinho, daquele sujeito que passou por mim na calçada? Como as crianças têm facilidade em fazer novas amizades! É possível ver o outro como um amigo e não como um concorrente, um inimigo ou simplesmente com indiferença? Ainda devo preocupar-me com o que os outros pensam? Quem não vai, quem não se joga, quem não tenta aproveitar essas pequenas oportunidades de buscar a felicidade, faz o quê? Espera o que da vida, tentando julgar os outros da proteção de seu próprio cubo de concreto? Eu e o Miguel tomamos o banho de chuva, e, de mãos dadas, para que ele não caísse, corríamos pela calçada, colocávamos nossas cabeças em baixo da calha com água fria, pulávamos nas poças e éramos tomados por uma sensação de completude. Um momento único entre pai e filho: eu acompanhava e protegia o meu filho, o meu descendente, aquele que carrega os meus genes para além da minha existência, ao mesmo tempo em que partilhávamos daquela alegria na chuva, daquela felicidade, fator importante para que se tenha uma vida saudável e longa. Tomar banho de chuva, dessa forma, converte-se em um ato político, um signo de liberdade e de felicidade.

Vídeo: Letra e voz de Igor de Fato (2011)

3 de dezembro de 2010

epitáfio (coro de vozes e classes gramaticais)


nasceu,
cresceu,
amou,
viveu:
fodeu,
foi fodido,
fodeu-se
tanto
tanto
tanto.

15 de março de 2010

Ato 1

Quatro paredes. Com o piso e o teto, um cubo de concreto. Nesse cubo de concreto atravesso dias do resto da minha existência. Nesse cubo eu durmo, eu acordo, eu como, eu estudo. Em outros cubos iguais a esse eu almoço, eu trabalho, faço amor e pago contas. Vivo num universo de cubos de concreto em constante queda e reconstrução, nos quais as pessoas – nós – eliminam lentamente cada feixe de vida que nos resta até a nossa promessa de morte. Eis a lembrança da nossa morte: certeza única que nos dá uma segurança de futuro (ou falta dele). Através da lembrança que estamos condenados a morrer, podemos nos impulsionar a fazer algo mais do que dormir, comer e cagar. Ou usufruir esse dom ou bênção que é dormir, comer e cagar: sinais de vida. E, se possível, usufruir também de outros dons que a existência permite que nos aventuremos, seja através do prazer ou da dor. Mas para além do interior do cubo de concreto. Ou será possível encontrar a famigerada felicidade dentro de um cubo com cama, geladeira e fogão? A luz elétrica e a água encanada podem vir a ser os sinais de que há um mundo exterior que nos espera mas que nos ameaça pela incerteza. O telefone, a televisão, o rádio e a internet são sinais mais nítidos dessa presença externa: que há mais pessoas lá fora, dormindo, comendo, cagando e disputando poder e dinheiro. Um jornal afirma em sua versão digital que os Estados Unidos ampliam para 20 mil o número total de soldados atuando no Haiti, depois do terremoto de 12 de janeiro (2010). Mídias alternativas noticiam que Cuba mandou 400 jovens médicos para atuarem no Haiti. E a gordinha do youtube manda seu apoio ao povo azul de Pandora. Guns n’Roses cancelam um show por causa da chuva, Lady Gaga tem seu novo clip divulgado na rede e metade dos franceses estão se lixando para quem estará na composição do seu parlamento. Na segurança do meu cubo de concreto estou apático à autorização que o governo de Israel deu para que se construam novas colônias judaicas em áreas árabes, que dificulta as negociações de paz no Oriente Médio. Ou, ainda que eu esteja acompanhando essas negociações de paz, estou seguro pelo cubo e pela distância. Fico chocado com a matança de golfinhos no Japão e com o desmatamento da Amazônia, ao passo que a Europa já devastou a sua floresta. Os governos de países desenvolvidos fazem jogo duplo no que se refere aos países do terceiro mundo: ao mesmo tempo em que financiam ONGs para direitos humanos e proteção ambiental, financiam empresas para explorarem mão-de-obra barata e recursos naturais. Até que ponto esses são problemas que devo considerar como meus? A crise econômica grega pode me afetar? E se fosse aqui? Na segurança do meu cubo consigo me manter alheio às questões de soberania nacional, segurança alimentar, engarrafamentos e reforma agrária. Consigo? Nos Estados Unidos, a população economicamente ativa na agricultura é de apenas 2 a 3%, e Beckram tem rompimento total do tendão de Aquiles, o que impossibilita sua ida à Copa do Mundo. Ignoro a existência de micróbios, suponho a existência de extraterrestres e não tenho certeza sobre a existência de Deus, mas adoro sorvete, cheeseburger e pizza. Afinal, o que não mata na hora, mata aos poucos. Guerras, desastres naturais e pressão alta, coisas tão distante da minha realidade. Até que ponto? Até que ponto a morte e destruição no Chile não vão garantir o aquecimento da economia em outras partes do globo, incluindo talvez o meu emprego? Ou as guerras entre cristãos e muçulmanos na Nigéria? E as guerras no Iraque e no Afeganistão, que garantem o suprimento de combustível para empresas norte-americanas, mas que no Brasil reclamamos do preço da gasolina ao passo que a temos a Petrobrás como uma das maiores empresas petrolíferas no mundo, sem necessidade de conflito armado para extração de petróleo e gás? E se eu separo o lixo em casa ou evito comer carne, estou fazendo a minha parte para a Pax Mundi? O exterior me ameaça. Fecho as janelas e ligo o ar condicionado. Tenho colchão, calçado, vaso sanitário e computador: e quem não tem? Quantas pessoas hoje no mundo não têm o que tenho agora ao meu alcance? E é problema meu? O que eu poderia fazer? Eu posso fazer algo? Eu quero me expor à ameaça externa e fazer mesmo alguma coisa?

6 de fevereiro de 2010

sem título, sem data

Esse poeminha realmente é das antigas. Não está datado, e inclusive está sem título. Mas eu lembrava dele e, limpando a casa, achei-o. A "Tereza" é, obviamente, uma referência a poemas do Manuel Bandeira. Talvez merecesse retoques, mas por ora fica como algum dia escrevi-o:


Tereza, eu te vi uma vez, te beijei, te abracei, conversei contigo, ri, falamos de literatura, falamos em francês, me falaste de ti, falei de mim, debochamo-nos, separamo-nos numa festa, não ouvi teu nome, e para poder sonhar contigo inventei um nome pra ti.


Bonitinho, não?

25 de maio de 2009

METATEXTUALIDADE

Quando certo dia o jovem Werther acordou de sonhos sofríveis, e encontrou-se metamorfoseado numa mosca, foi-se espiar o que fazia Charlotte àquela hora da manhã.

2004


6 de maio de 2009

"CONTRA"


Ela tinha pressa de deixar o escritório, afinal, era aniversário do marido. O fim da tarde enfumaçava-se com o frio que despontava, um frio que prometia ser rigoroso essa noite, como ela conferiu na previsão do tempo pela TV de manhã antes de sair de casa. Era necessário ela estar informada sobre tudo, pois para essa noite ela tinha planejado todos os detalhes para a festinha familiar. Apenas ela, o marido e o filho, mas seria uma festinha perfeita para a família perfeita, pensava ela. A empregada tinha sido orientada para caprichar na arrumação da casa e deixar a comida e os doces prontos e, assim que tudo estivesse pronto, ela poderia ir para casa. À noite, conforme planejado por ela, seriam apenas os três, a família perfeita. Ela demorou muito para conseguir se desvencilhar do escritório onde trabalhava; ainda restava buscar o filho na escolinha, e tentar chegar antes que o marido em casa. Teria que se apressar.

Um rapaz estava para atravessar a rua, levando em seus braços seu filho. O rapaz tentava proteger o bebê do frio, preocupado que estava em chegar logo em casa. Tanto pela saúde do filho, daquela forma exposto ao frio, quanto pelo cansaço do pai, depois de um dia de trabalho pesado em obras. Próximo à faixa de pedestres, o pai falava para o bebê que logo chegariam em casa, ao mesmo tempo que tornava a arrumar os agasalhos que protegiam o bebê. Nesse trajeto entre o trabalho, a creche e a casa, o rapaz acostumara-se a pensar sobre as contas da casa, sobre como ele e a esposa venceriam mais um mês; também pensava que, se pudesse, trabalharia menos para passar mais tempo com a familia. Ora, divagava ele, se trabalhasse menos e passasse mais tempo em casa, não precisaria mais deixar seu bebê até tão tarde na creche. Mas ele sabia que esse cálculo não dava certo no final; era preciso trabalhar, e cada vez mais, para poder sonhar com dias melhores. Ele na verdade não se queixava, sua pequena família era feliz ao seu modo, embora sempre tivessem vontade de aproveitar os momentos juntos cada vez mais. Estava frio, esfriando cada vez mais. Logo, logo estariam junto à esposa e mãe, que os esperava, como de costume.

Eis que o automóvel está em alta velocidade, e sua motorista está muito atrasada; ela tem que buscar o filho na escolinha e, ainda assim, tentar chegar em casa antes do marido para lhe preparar a surpresa, afinal, se a família está bem ou não, ela encara como sendo responsabilidade sua a harmonia da casa; é preciso chegar a tempo em casa, antes do marido, para que a surpresa planejada por ela ocorra nos conformes. Seria ótimo se ainda conseguisse chegar em casa antes da saída da empregada, apesar de que, pelo avançado da hora, dificilmente chegaria a tempo de encontrá-la; seria melhor confirmar com a empregada se não houve problemas com a arrumação da casa ou com a comida, para que não haja imprevistos; ligar ou não para a empregada, pedir para ela esperar ou não?, ela interroga-se, ao mesmo tempo que prevê perder tempo ao ligar, visto que o marido estará prestes a chegar em casa, possivelmente antes dela e do filho caso ela não se apresse. É preciso que saia tudo perfeito, tudo foi meticulosamente planejado para ser uma festinha perfeita de uma família perfeita, portanto, ela não pode se demorar mais...

Ela cogita ligar para a empregada e procura o telefone. De soslaio ela procura o telefone sobre o banco e tateia a bolsa. Afinal, ela está com pressa, e em alta velocidade. Nessa procura, a direção escapa por um segundo – um mísero segundo! – e, ao recuperar o controle, o carro vai em direção a um homem, com... com uma criança no colo. No auge das possibilidades, ela consegue pensar na possibilidade de frear e desviar, o que provavelmente chocaria o carro contra um muro ou um poste, inviabilizando os seus planos. Mas ela não pode. A noite tem que ser perfeita, ela pensa, ao mesmo tempo em que acelera; mais. Pela manobra operada, ela desvia seu automóvel branco o mínimo possível do homem e seu filho, embora não o suficiente para que o carro venha a encostar-se em ambos. E, dada a velocidade do automóvel, bastaria esse toque para ouvir-se um estouro que os arremessou para longe. Ela não olhou para trás. Tampouco se preocupou em prestar ajuda. Nos dias seguintes também não procuraria em jornais referência alguma sobre o ocorrido. Era necessário pegar o filho na creche e chegar antes que o marido em casa. Ela corta as ruas tomadas pela névoa branca, ela não podia se atrasar mais, ela tinha planejado uma festinha perfeita.
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