literatura, política, cultura e comportamento.
seja em santa maria, em alegrete, no rio de janeiro, em osório ou em liechtenstein.
na verdade, tanto faz.
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18 de agosto de 2011

Diga não em Porto Alegre!

Ainda este mês vocês podem conferir, em Porto Alegre, o espetáculo teatral "O Dia em que Aprendi a Dizer Não", sob atuação do ator e meu amigo Maico Silveira (do blog "Maico sem n"). Pelas palavras do "Casa XV", "o cerne do trabalho consiste em agregar elementos plásticos do trabalho do ator, baseado essencialmente na utilização de técnicas oriundas do mimo corporal e do futebol como estilo livre, a uma temática e estética que reflitam as inquietudes de nossas vidas cotidianas". Ou ainda, conforme a divulgação no Brasília Agenda, é "um espetáculo humorado, irônico e sem concessões às peculiaridades do homem na atualidade, de sua contemporaneidade e de seu embate com os conceitos, preconceitos e dogmas da sociedade". Se estiver pela capital gaúcha, não deixe de comparecer para conferir; ou recomende para quem estiver por lá!


peça: O dia em que aprendi a dizer NÃO
site: http://odiadonao.blogspot.com/

direção: Camila Bauer
atuação: Maico Silveira
texto: Pablo Berned e Maico Silveira
Trilha sonora original: Leonardo Dias
Produção: Colectivo El Sótano [http://colectivoelsotano.blogspot.com/]

local: IAB - Instituto de Arquitetos do Brasil (General Canabarro, 363, esquina com Riachuelo - Centro, Porto Alegre)
horário: TERÇAS, QUARTAS E QUINTAS, 20h.
ingressos: R$ 20 e R$ 10
Somente até 25 de agosto.

9 de junho de 2011

Como é possível manter a individualidade num mundo pleno de exigências, convenções e incertezas?


Estreia, neste final de semana em Brasília, o espetáculo teatral "O Dia em que Aprendi a Dizer Não", sob atuação do ator e meu amigo Maico Silveira (do blog "Maico sem n"). Pelas palavras do "Casa XV", "o cerne do trabalho consiste em agregar elementos plásticos do trabalho do ator, baseado essencialmente na utilização de técnicas oriundas do mimo corporal e do futebol como estilo livre, a uma temática e estética que reflitam as inquietudes de nossas vidas cotidianas". Ou ainda, conforme a divulgação no Brasília Agenda, é "um espetáculo humorado, irônico e sem concessões às peculiaridades do homem na atualidade, de sua contemporaneidade e de seu embate com os conceitos, preconceitos e dogmas da sociedade". Se estiver por Brasília, não deixe de comparecer para conferir; ou recomende para quem estiver por lá!


peça: O dia em que aprendi a dizer NÃO
site: http://odiadonao.blogspot.com/

direção: Camila Bauer
atuação: Maico Silveira
texto: Pablo Berned e Maico Silveira
Trilha sonora original: Leonardo Dias
Produção: Colectivo El Sótano [http://colectivoelsotano.blogspot.com/]

local: Espaço Cultural 508 Sul - Sala Parangolé - Brasília - DF
horário: sexta e sábado às 21 e domingo às 20h
ingressos: R$ 20 e R$ 10

2 de abril de 2011

Conjecturas nada estáveis I



"[O materialista histórico] extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos" (BENJAMIN, 1987, p.231).

Para que se possa compreender uma determinada época, ao invés de se adotar uma perspectiva “historicista”, de fundamento positivista, convém ser mais adequada uma postura que privilegie as manifestações ideológicas de cada momento histórico, compreendendo as suas oposições, intersecções e contradições. As próprias manifestações ideológicas não são estanques, pois são ressignificadas às variáveis de tempo, espaço, condição socioeconômica, cultural, racial, de gênero, etc.

A soma de tais variáveis é o que permite o exercício do materialista histórico em compreender uma determinada realidade e as perspectivas ideológicas que estejam em jogo. Não esquecendo que ele próprio – o sujeito que se propõe a realizar o exercício de análise – a realiza sob uma perspectiva ideológica, seja consciente ou não, e que essa perspectiva não é harmônica, mas está em tensão com outras perspectivas ideológicas, hegemônicas ou emergentes em determinados campos sociais.

Tenho em vista, por exemplo, que, ao me propor a analisar a dimensão ideológica dos últimos textos de Marguerite Duras, publicados nos anos 90, devo considerar os posicionamentos que a sua escrita carrega – não diretamente, mas possivelmente como palimpsestos – frente a momentos históricos e vivências pessoais, como as políticas do império francês frente à colônia no oriente e o modo como tal circunstância histórica foi compreendida pela escritora a partir da sua vivência na infância, a sua participação na resistência francesa ao nazismo durante a segunda guerra e como essa experiência foi assimilada na sua escrita, bem como o engajamento e a decepção com o PCF, entre outras circunstâncias tematizadas diretamente ou tangencialmente pelo conjunto de sua obra.

Mas também devo ter em vista – embora não esteja entre os objetivos da pesquisa – as circunstâncias que fazem com que um jovem pesquisador em seus vinte e poucos anos, oriundo do sul do Brasil, através de várias experiências pessoais que fazem com que eu me constitua como sujeito de uma época e ao mesmo tempo singular, me interesse pelos textos de Marguerite Duras, e que sentidos são produzidos ao se ressignificar (pelo simples ato de leitura) uma obra produzida em diferentes circunstâncias históricas, geográficas, culturais, etc. Ou seja: devo ter em vista que o próprio discurso sobre outro discurso também traz consigo perspectivas ideológicas, seja em embate ou confluência entre si, ao mesmo tempo em que devo considerar que, inevitavelmente, todo o discurso se funda sob outros discursos.

5 de novembro de 2010

Quem disse que a literatura não incomoda mais? (4)



Em um de meus momentos de lapso – assistindo ao Jornal Nacional – sou informado sobre o pedido para que “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, não seja distribuído em escolas, pelo motivo de possuir em seu texto elementos de preconceito racial. Será que o caminho é mesmo o de retirar esse livro de circulação?

Duas verdades estão em jogo: uma, de que Monteiro Lobato é um dos escritores de literatura infanto-juvenil mais importantes de nosso país, pela qualidade de sua obra. Da mesma forma que, pelo conjunto da obra de Monteiro Lobato, compreendemos que ele era sim preconceituoso, com os mesmos argumentos deterministas e positivistas que regeram o nosso naturalismo – veja como o preconceito social e racial é construído em “O Cortiço”, do Azevedo – e que, na Europa, justificaram a Questão Dreyfus, a perseguição a minorias pelos nazistas e o trato dos franceses para com os argelinos.

As posições pessoais do autor influenciam a qualidade da sua obra? Mesmo impressas no texto, essas ideias pessoais do autor afetam a compreensão de sua obra? Sabemos que José de Alencar, em nenhum momento, questiona a escravidão no Brasil. O próprio Machado de Assis, através de leituras controversas sobre sua obra, nos dá a impressão de, vez ou outra, ser cruel com a condição – e contradição – do negro nas circunstâncias da abolição da escravidão. Outro caso mais recente poderia ser citado, como a obra poética de Ferreira Gullar e suas atuais posições políticas, e o recente premio Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas Llosa.

Acredito ser pertinente sim o debate proposta pelo Conselho Nacional de Educação. Porém, não seria o caso de vetar a circulação do livro em meios escolares. Não por uma posição medíocre e hipócrita de ser contra a qualquer forma de censura! Deveríamos permitir essa circulação com as devidas ressalvas. A nossa história é constituída por processos positivos e negativos ao longo de sua formação... Não podemos simplesmente apagar o que não nos convenha! Pelo contrário: como profissionais da educação, essa é uma ótima oportunidade de recuperarmos e refletirmos com nossos alunos as condições históricas, culturais e ideológicas dos diferentes momentos da história do nosso país.

12 de setembro de 2010

"Provas", de Ruben Pereira



Canção "PROVAS"
Ruben de Oliveira Pereira
Autor (1995) e intérprete (2010)

Produção do Blog do Berned

31 de agosto de 2010

"Há metafísica bastante em não pensar em nada"

É do Ruben a ótima sugestão de leitura do seguinte poema de Alberto Caieiro, heterônimo do grande poeta português Fernando Pessoa. Curtam:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.


O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.


Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).


O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?


"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.


Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.


O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.


Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!


(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)


Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

(poema V de O criador de Rebanhos, 1925)

28 de julho de 2010

Jornal de Artes: igual a um sobre o nourrau

O seguinte texto foi publicado originalmente na edição de dezembro de 2009 no Jornal de Artes, organizado pelos amigos Clauveci Muruci e seu filho, Maurício. Passado um tempo, resolvi divulgá-lo também no blog.

A posição social do ator é única: é um gesto de alteridade. A ele, e mais a nenhum outro papel social, cabe colocar-se no lugar do outro. Estamos falando de representação, mas, sobre tudo, um gesto de despersonalização em nome de outrem. Pelo próprio corpo e pela própria voz o ator conduz esse outro com o seu próprio eu.

Ao falar de representação, talvez pudéssemos estender o gesto de alteridade ao artista de modo geral. Afinal, desde Platão a representação é tomada como assumir a voz de alguém que lhe é diferente. Assim, o poeta, o ficcionista e o pintor também estariam sendo levados pelo gesto de despersonalização para dar voz ao outro. No entanto, o artista de modo geral pode “representar”, ainda que não abra mão de si próprio. O pintor pode pintar o que lhe convier e do modo que lhe convier, de forma que possamos identificar sua postura em relação à arte e à sociedade através de suas escolhas para a composição final; assim também sucede ao escritor, em que não é necessário abrir mão de seu orgulho, de seu amor próprio, conquanto que a escrita lhe seja um meio de ascensão e não um gesto de amor, de apagamento de si próprio. O processo de escrita pode se tornar um gesto de amor, mas de modo geral: o escritor se apaga em prol da materialização da escrita como um monumento, que se emancipa do próprio escritor e sobrevive a ele, e fica à disposição de quem se interessar. Correndo o risco de ser como uma velha estátua de praça pública, quando ignoramos quem seja o homenageado; pode-se não ter interesse.

Não que o ator não passe pelo mesmo processo. As suas opções passam pela seleção do tema e do texto – ainda que possamos não ter falas ou ter atuações sob improviso, ainda há ao menos um texto anterior e mínimo que dê coerência a um roteiro – além do próprio modo de conceber a representação cênica e materializá-la no seu desempenho de uma personagem: o seu modo de conceber a arte e a sociedade está em jogo. A relação do teatro com o público é, antes de tudo, necessária pois é imediata: sem público não há espetáculo e não há ator. Já dizia Peter Brook, que no momento que colocamos uma pessoa a caminhar e outra a observá-la, já estamos tocando a base do teatro, ou seja, o contato do artista com o público. O escritor, o pintor e o cineasta podem vir a materializar um objeto artístico alheios a um público, podendo ser reconhecidos anos após a morte, ou nunca. Mas o objeto – o livro, a tela, a escultura, o filme – estão lá, ao alcance de quem queira apreciar. O ator precisa do reconhecimento na efemeridade da sua existência para ter público, para ter espetáculo, para ser ator.

No entanto, a posição social que a representação do ator exerce se diferencia de outros artistas: o exercício de alteridade não é uma opção, é da própria essência do ator. É inerente à sua arte colocar-se no lugar de um outro, assumir-lhe o modo de ver o mundo e seus anseios, e transmiti-lo a um público. Ser um outro, no período de um espetáculo: viver na pele, deixar ser tomado por uma outra existência que não a sua. O glamour que a profissão possui hoje se torna uma força contrária à própria essência do ator: pois a necessidade de ter um nome reconhecido como celebridade pode sobrepujar justamente a sua despersonalização. É direcionar o seu próprio trabalho para que, antes de o público ver a personagem, veja o sujeito que a interpreta. Mas apenas o reconhecimento não faz o artista; se a essência da dramaturgia consiste em materializar no aqui e agora uma existência que nos é alheia, não há arte, mas há puro produto comercial, se não somos levados a ignorar – ainda que pelo momento da peça – a existência pessoal do profissional que atua em detrimento do universo ficcional que justifica o espetáculo.

O que aprende o ator com sua personagem? O que tem de diferente e semelhante a si? Perguntinhas banalizadas em programas de entrevista, mas importantes de serem tomadas de forma mais ampla. É necessário tomarmos para nós a relação que existe entre o ator e o outro, sua personagem. Através do diferente, não se trata de apenas marcar a diferença, mas equilibrar as semelhanças para que o público possa identificar-se e ser tomado pela proposta da peça. Ainda que seja um universo exótico ou fantasioso, estão em jogo as relações e as reações humanas. Por isso é necessário tolerar e conviver com a diferença, enxergando-nos como parte de um mesmo corpo social, e parte da mesma humanidade.

É tão difícil fechar os olhos aos nossos interesses, ainda que por instantes, para compreender a posição do outro... A despersonalização é um gesto de amor: o que ama está disposto a sacrificar a sua própria constituição enquanto sujeito pelo ser amado, como as relações entre pais e filhos, companheiros conjugais e amigos nos ensinam isso. Abrir mão de si próprio: o próprio cristianismo nos ensina isso, mas embora nossa sociedade ocidental tenha sido modelada por sua religiosidade, são-nos apagados - a partir de interesses históricos - certos valores como a alteridade. Amamo-nos aos outros como a nós mesmos? Somos capazes de um amor pleno e universal para com o outro? A arte, de forma geral, é e precisa reconhecer que sua essência precisa ser e é, sobretudo, um gesto de amor ao próximo.


Post-Scriptum: Agradeço a colaboração do amigo e ator Maico Silveira para a composição dessas reflexões.

9 de outubro de 2009

Da materialidade da Literatura


A prática de ensino de Literatura, tanto na universidade quanto em outros níveis do ensino, tem apontado o nosso distanciamento do objeto livro. The book isn’t else on the table. A facilidade e praticidade das fotocópias ou montagens que contém fragmentos de obras ou textos curtos servem a fins didáticos; mas, se a literatura se faz de livros publicados (e cabe aqui o questionamento), quanto o laboratório de distingue da realidade? Que implicações há em negar o suporte próprio da Literatura no processo de leitura?

Entre essas e outras perguntas, propus em uma aula no Pré-Vestibular Popular Alternativa uma atividade que priorizasse o contato com livros. Afim de esclarecimentos: esse projeto que comemora 10 anos é um dos espaços de inclusão da universidade voltado para a comunidade santa-mariense que não tem condições econômicas de arcar com a preparação para o vestibular. A coordenação do projeto e as aulas são por conta e organização de alunos voluntários das universidades da cidade, com o suporte institucional e financeiro da Pró-Reitoria de Extensão da UFSM.

Desde 2004 tenho a oportunidade de trabalhar no Alternativa ministrando aulas, sobretudo de Literatura Brasileira. Depois de uma pausa de dois anos em virtude da dedicação ao mestrado, retornei à sala de aula, inicialmente em parceria com a Profª Priscila do Prado. Para esse ano, delineamos a disciplina privilegiando em um primeiro momento a poesia para, só depois, dedicarmo-nos à prosa.

(As leituras indicadas para a prova de Literatura Brasileira
do vestibular 2010 da UFSM podem ser encontradas
aqui)


Enfim: em meio às reflexões propiciadas pela abordagem à poesia moderna brasileira, principalmente no questionamento aos limites da “arte” e sua aproximação com a “vida”, propus uma atividade que estimulasse o contato com os livros. Mas, longe de levar autores consagrados em re-re-reedições atualizadas revisitadas remasterizadas, levei-lhes alguns livros de poemas que tinha em casa, de poetas de diferentes gerações e mais ou menos conhecidos em seus sub-sistemas literários.

Dei a oportunidade que escolhessem, em duplas ou trios, um livro a julgar pela capa, textura, bitola e título. E assim eles teriam que verificar informações no livro sobre o autor e suas obras, ler alguns poemas e destacar elementos que lhes pudessem chamar atenção. Considerando-se a variável de interesse, a atividade de uma forma geral foi muito satisfatória: mãos manipulavam livros e liam com os dedos, redescobrindo os poemas em uma unidade produtora de sentido, ao lado de outros poemas e de cores e imagens e formatos.

* * *

Alguns livros foram mais bem aceitos do que outros. Obviamente destacarei os que tiveram destaque positivo.

O poeta que assume uma relação intensa e ambígua com Brasília, Nicolas Behr, teve uma ótima receptividade. Vinde a mim as palavrinhas (2005) é uma compilação de textos publicados mimeografados pelo autor, à margem do mercado editorial, que visualmente destaca-se pelas fontes que remetem às máquinas de escrever. Assim também é Braxília Revisitada (2005), cujos poemas-piada retomam a lírica de Oswald de Andrade, os alunos estimularam-se pela leitura e seus jogos de linguagem e de sentido:

DAS DUAS UMA

ou tiro sai
pela culatra
ou sai
pela nuca
de grão em grão
a galinha
enche o papo
de palavra em palavra de palavra
em palavra de palavra em palavra
de palavra em palavra de palavra
em palavra de palavra em palavra
de palavra em palavra de palavra
este poema enche o saco


(Nicolas Behr, Vinde a mim as palavrinhas)

alô? eu queria falar com
a substituta da assistente da
secretária da coordenadoria

da secretaria da assessoria
da chefia da procuradoria da
defensoria da corregedoria
da ouvidoria da dona maria
que está na portaria.
ah, saiu? não volta mais hoje...

no princípio era a lama
a lama virou cama
a cama virou câmara

onde eles legislam
deitam e rolam

(Nicolas Behr, Braxília revisitada vol.1)

Outro poeta que despertou o interesse dos alunos foi Delalves Costa, a partir de Coisas que faltam em mim (2006) e Considerações pre-maturas & outras ausências (2008). Alunos surpreenderam-se com a informação de que há jovens poetas gaúchos publicando atualmente, o que propiciou um debate acerca
das instituições legitimadoras da Literatura. Afinal, cada vez mais temos mais leitores e, por outro lado, mais escritores disputando um lugar ao sol: como professor, formador de opinião, não nego (e nem devo negar) o meu papel como (uma) instância legitimadora. Com essa atividade amplio o conhecimento dos alunos em relação à textos e escritores (até então ignorados pelos alunos), o que me concede estender, pouco a pouco, os limites da Literatura.

Em Coisas que faltam em mim, os sentidos dos poemas estarão em jogo com o próprio formato inusitado do livro: a capa é um envelope, no qual temos as páginas dos poemas soltas, como cartões da sorte para serem lidos aleatóriamente. A unidade e a linearidade do livro faltam, o que dilacera a posição do sujeito-lírico à procura de si, das ausências e do indizível. É preciso portanto descobrir-se e redescobrir a própria poesia no instante ou na temática surpreendente, como acontece também em Considerações Pre-Maturas & Outras Ausências. O cotidiano apresenta a sua poesia pelo olhar do poeta em busca do que lhe é ausente ou indizível:

O TÁXI

E assim... de malas prontas
me olhava como se escrevesse
uma carla a la canhoto
(ainda que minha, palpitasse!)...
Com o olhar pequeno
à procura de voz
à procura de nós
à procura de fantasmas
para levá-la ao táxi!...
De um homem deveras gentil
que lhe abrisse a porta,
de um romântico
que lhe desse o beijo!
Enfim!... De última hora
à espera de alguém
para desfazer suas malas
apenas com um "não se vá!"...
Mas o táxi sinalizou à direita
e logo à esquerda
me levando... me levando...
te levando e se foi!...

(Delalves Costa, Considerações Pre-Maturas & Outras Ausências)


COISAS QUE FALTAM EM MIM

Faltam ruas, sobro em disfarces.
Eu sei. São infindáveis
Os caminhos a seguir.

Mas vou disfarçando sem pressa
Para não sentir em minhas ausências
As coisas que faltam em mim.

(Delalves Costa, Coisas que faltam em mim)

Por fim, destaco ainda


* * *

a

[postagem inconclusa]

4 de outubro de 2009

Intermezzo II



Si Se Calla El Cantor
Mercedes Sosa
Composição: Horacio Guarany

Si se calla el cantor calla la vida
porque la vida, la vida misma es todo un canto
si se calla el cantor, muere de espanto
la esperanza, la luz y la alegría.

Si se calla el cantor se quedan solos
los humildes gorriones de los diarios,
los obreros del puerto se persignan
quién habrá de luchar por su salario.

'Que ha de ser de la vida si el que canta
no levanta su voz en las tribunas
por el que sufre, por el que no hay
ninguna razón que lo condene a andar sin manta'

Si se calla el cantor muere la rosa
de que sirve la rosa sin el canto
debe el canto ser luz sobre los campos
iluminando siempre a los de abajo.

Que no calle el cantor porque el silencio
cobarde apaña la maldad que oprime,
no saben los cantores de agachadas
no callarán jamás de frente al crimén.

'Que se levanten todas las banderas
cuando el cantor se plante con su grito
que mil guitarras desangren en la noche
una inmortal canción al infinito'.

Si se calla el cantor . . . calla la vida.

11 de junho de 2009

"Quem disse que a literatura não incomoda mais?" (1)




(ao lado: imagem de meninos cheirando cola, retirada do filme Última Parada 174, de Bruno Barreto)


"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico."
(Nelson Rodrigues)

O caso dos livros didáticos em São Paulo

Recentemente, cartilhas escolares do estado de São Paulo foram distribuídas à rede pública com um mapa peculiar: para o governo tucano de José Serra, o mapa da América do Sul contém dois Paraguais, sendo que o Paraguai (do Norte?) está fundido com a Bolívia; ao mesmo tempo em que não há vestígios nem do Equador, tampouco do Uruguai (ou, de acordo com a cartilha, trata-se de um Paraguai mais ao sul). Depois disso, livros contendo expressões como "chupa rola", "cu" e "chupava ela todinha" foram distribuídos pela Secretaria Estadual da Educação de São Paulo como material de apoio a alunos da terceira série do ensino fundamental”, ou seja, para crianças com média de 9 anos de idade.

Não bastasse isso, ainda houve a polêmica com livros de poesia: em um dos casos, uma mãe de aluno procurou a imprensa denunciando que um livro de Manoel de Barros (Memórias inventadas), contendo supostas passagens eróticas, foi distribuído a crianças da 6ª série. O outro caso se refere ao livro "Poesia do Dia -Poetas de Hoje para Leitores de Agora", distribuído às crianças da 3ª série. Entre poemas de diversos autores, encontra-se o tão criticado poema de Joca Reiners Terron. Não que o poema mereça críticas pejorativas – ou, pelo menos nesse caso, não é essa a questão –, mas a sua leitura é tida como inapropriada para crianças:

Manual de auto-ajuda para supervilões

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica. É melhor não deixar testemunhas.
Não vá se entusiasmar e matar sua mãe. Até mesmo supervilões precisam ter mães.
Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.
Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.
Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira, assim sua técnica evoluirá. Não se preocupe. Patos abundam por aí.
Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo. Ou Malcolm.
Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.
Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não podem mais abrir a boca.
Odeie. Assim, por esporte. E torça por time nenhum.
Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia. Principalmente brincar de dama.
Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração, pedra no rim em vez de alma.
Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.
Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.
Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.
Nunca ame ninguém. Estupre.
Execre o amável. Zele pelo abominável.
Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.

[In: SARMATZ, Leandro (org.) Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora. São Paulo: Ática, 2008]


A questão não deve ser direcionada no poeta, mas a quem permitiu que fosse distribuído (institucionalmente) às crianças. Antes de tudo, deve-se ressaltar o posicionamento do organizador do livro, o próprio Leandro Sarmatz:

“em todas as matérias sobre o caso, quem foi devidamente crucificado, teve o nome citado à exaustão, foi obrigado a se “explicar” como um daqueles criminosos furrecas em programa mundo-cão da TV às 18h? O desastrado funcionário público? O secretário de educação? O governador do Estado? Não. Coube ao autor de um poema a tarefa aziaga de tentar desfazer o nó que sequer foi amarrado por ele. E que está aí muito antes dele ter pensado e concebido o poema”.

De qualquer jeito, o debate foi parar na imprensa. E jornalistas e aventureiros no jornalismo resolvem desfiar suas críticas e suas “críticas”. Presenciamos por intermédio desses acontecimentos que a poesia é indissociável da sociedade e, portanto, não é simplesmente desinteressada. Não quero jogar tudo nas costas do Joca Terron não: mas a dimensão da institucionalização de seu poema (específico) marcou a politização (nos sentidos amplo e corrente) das leituras.

Abaixo segue uma seleção (aleatória) de alguns comentários sobre a questão e o poema. Sim, deve-se estabelecer essa distinção: uma coisa são opiniões sobre o fato, ou seja, a distribuição de livros para crianças indicados para adolescentes; e outra coisa é o poema e sua temática.

Livro para adolescentes é entregue a crianças em SP
da Folha Online
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u572983.shtml

Isso nunca foi pornografia!
por Leandro Sarmatz (Portal Luis Nassif)
http://blogln.ning.com/profiles/blogs/isso-nunca-foi-pornografia

Um moralismo rançoso e hipócrita

por Kleber Pereira dos Santos
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=540DAC006

Poesia para crianças
por Luciano Martins Costa
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/oinoradio.asp?id={E69124DF-B805-4060-B5E2-256E4EB27A4B}

O estado da Poesia no Estado de São Paulo: apologia a Joca Reiners Terron!
por C. Guilherme A. Salla
http://guisalla.wordpress.com/2009/05/29/o-estado-da-poesia-no-estado-de-sao-paulo-apologia-a-joca-reiners-terron/

21. Livro para adolescentes é entregue a crianças em SP
por Fábio Takahashi (Folha de SP)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63746

Autor diz que texto não é para crianças
por Gilberto Yoshinaga (Agora)
http://www.agora.uol.com.br/saopaulo/ult10103u572848.shtml

Poesia para crianças da rede pública fala em droga, sexo e estupro
por Milton Jung
http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/miltonjung/2009/05/27/poesia-para-criancas-da-rede-publica-fala-em-droga-sexo-e-estupro/

Minha mãe não vem mesmo!
por Toni C.
http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=57865

O jornalista Luciano Martins Costa, por exemplo, atem-se a depreciar o “suposto poema”, como ele mesmo se refere:

"O texto distribuído para crianças de nove anos e que, segundo aceita o jornal, seria apropriado para adolescentes de treze, diz mais ou menos o seguinte, retirados trechos também impróprios para leitura em público:
'Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica'.
Só nessa primeira frase a obra mereceria algum reparo antes de ser selecionada, pois o autor confunde umbigo com o cordão umbilical".

Seus argumentos pífios ignoram, por exemplo, como no trecho selecionado, o uso de metonímia. “E talvez nem possa ser considerado um poema”, enfatiza esse jornalista. Pergunto: porquê? Metonímia e ironia não seriam de uso pertinente em poemas? E além do mais: é possível ignorar toda uma tradição da literatura e o mal? Embora não seja esse o caso: acredito que o referido jornalista tenha superado a fase da puberdade e tenha discernimento em reconhecer uma ironia. Embora eu tenha as minhas dúvidas. Lembra-me o “causo” supostamente ocorrido na ditadura de Pinochet, em que soldados iam atrás de livros subversivos e queimavam “Chapeuzinho Vermelho” mas ignoravam o “Capital” de Marx. Aliás, o que esperar de um jornalista que, aproveitando o gancho, publica ainda no mesmo texto:

"Sem resvalar para o trauma da censura, que a sociedade brasileira tem ojeriza de enfrentar desde o processo de redemocratização, talvez fosse conveniente também avaliar as histórias em quadrinhos e outros conteúdos que são oferecidos nesses suplementos inseridos nos diários".

“Sem resvalar”, mas poderíamos ler nas entrelinhas “já resvalando...”. Olhem só, se não fosse a democratização, a moral e os bons costumes estariam resguardados. Desculpem-me os incrédulos, mas é isso que eu estou lendo nessas linhas do renomado jornalista. E como um ponto de vista sobre a poesia pode denunciar a visão do mundo do sujeito, pois ainda leio nessas linhas: hoje em dia é toda essa roubalheira, essa barbaridade... No tempo dos milicos não era essa promiscuidade... Reitero as desculpas. É isso que eu estou lendo.

Na Folha de São Paulo, Fábio Takahashi faz uma leitura, digamos, mais sóbria dos fatos. Traz a voz do próprio Terron sobre os fatos ("Não é para crianças de nove anos. São várias ironias, que elas não entendem" e “Espero que o Serra [governador José Serra] não ache o texto um horror, como ele disse do outro livro. Horror é quem escolhe essas obras para crianças"), além de opiniões, em princípio respeitando a contradição. É justamente nesse ponto que, após lermos a posição do Professor Vitor Paro, da Faculdade de Educação da USP, que atribui a escolha do livro para crianças como incompetência e ignorância do governo por avaliar o livro apenas depois da imprensa noticiar, lemos a seguinte pérola:

"A coordenadora do curso de pedagogia da Unicamp, Angela Soligo, classifica como 'um horror' o poema. 'Tem uma ironia que talvez só o adulto entenda. É totalmente desnecessário para uma escola'. 'Já é o segundo caso. Os professores ficam inseguros com o material', disse ela".

Isso me lembra outro caso: o de professores do ensino básico aqui de Santa Maria da Boca do Monte que se recusavam a trabalhar em sala de aula o Vôo da Madrugada, livro de contos de Sérgio Sant’Anna, que na ocasião constava como uma das leituras obrigatórias do vestibular da UFSM. Por quê? Por que contém uma série de palavrões? Pelo menos a professora Angela supõe que “talvez” só um adulto entenda. O jornalista Luciano Martins Costa não entendeu, ou se fez que não entendeu.

Talvez a melhor resposta a esse tipo de “opinião” seja o texto de Guilherme Salla, da qual extraio o seguinte trecho:

"Aliás, é mesmo uma vergonha expor nossas crianças de nove anos ao sexo e às palavras chulas da poesia e artes contemporâneas dentro do ambiente escolar… é melhor que elas tenham estas experiências sozinhas, por si próprias nas ruas e em suas casas para que, aos doze ou treze engravidem e possam ir cuidar de suas próprias vidinhas…"

Uma síntese? HIPOCRISIA. Talvez o Salla exagere para o outro extremo, talvez não. Mas banir o poema do Terron do estado zé-serrado, duvidando de sua poesia (ao menos por essa via duvidosa de leitura) e não reconhecendo a recomendação para adolescentes é por pura hipocrisia. É um horror ler o poema do Terron, mas Vinícius de Morais, Manuel Bandeira ou Carlos Drummond é permitido. E Jorge Amado, imagina se algum estudante ler? De Alexandre Dumas a Dostoiévski, um perigo! Sem falar que o décimo canto dos Lusíadas e O Cortiço existem em qualquer biblioteca pública e estão disponíveis no portal de Domínio Público.

Uma leitura ponderada? Recomendo a Kléber Pereira dos Santos faz. E o que ele diz? O que me parece óbvio: trata-se apenas de uma reclassificação etária. Palavrões, pornografias e demais manifestações tidas como politicamente incorretas: que criança está isenta delas?

“Qualquer pelada entre moleques descalços é uma sinfonia de palavrões maior do que existe em todas as páginas da HQ criticada e imagens pornográficas são distribuídas às nossas castas meninas usuárias de calças hiper-justas por toda cidade nas lonas improvisadas dos vendedores de DVDs piratas (sem classificação etária, até apelidam os pornôs de "educativos"... não deixam de ser, de certo modo). Um moleque, mesmo o da faixa etária que realmente não deveria ter os ditos livros em mãos, se mora na Cidade Tiradentes sabe muito bem o que é o PCC. Uma menina de 13 anos hoje não só sabe palavrões escabrosos e detalhes minuciosos sobre o ato sexual como convive com amigas barrigudinhas, e não por causa de muitos Mclanches felizes ou de livros "obscenos" – talvez por causa da falta deles, para as fazerem ter um mínimo de juízo antes de iniciarem a vida sexual”.

Por fim: “E aí? Vamos queimar a obra de Platão em praça pública ou banir os poetas da república?”, como nos pergunta C. Guilherme A. Salla.

15 de abril de 2009

Efabulações a respeito do segundo volume da Poética de Aristóteles


Uma cena que acho engraçada pertence ao filme “Eu, eu mesmo e Irene”. Em determinado momento do filme, a personagem é tomada por um acesso de fúria ao ver um carro ser estacionado na vaga reservada para deficientes. No que o motorista entra rapidamente na vaga e, logo em seguida, no estabelecimento comercial, a nossa personagem resolve agir violentamente contra o carro. Eis que, a tomada seguinte mostra o motorista devolvendo o carro a um senhor, digamos “todo emparafusado”, ou seja, o dono do carro. Outra tomada, o carro está completamente demolido, e nosso protagonista urina sobre os destroços do carro. Vejamos: o nosso riso não se dá necessariamente em função de personagem A ou B. Fora de contexto, haveria um cara nervoso, um cara apressado e um deficiente físico; nenhum deles motiva-nos a rir em função de suas características.

O riso se manifesta através de um “reconhecimento”: o foco no protagonista, o carro que estaciona, o enfoque à vaga para deficientes, a fúria do protagonista (em que recuperamos o enredo do filme), e a violência dirigida à destruição do carro são ações que preparam a tomada do deficiente saindo da porta acompanhado do motorista. É esse o momento do riso, pois reconhecemos a peripécia: uma desmedida decorre do impulso do herói que age movido pelo senso de justiça, tornando-se patético pelo “acaso”. Na verdade, ao recorrer a essa cena cômica, me move imaginar os conceitos que Aristóteles teria levantado na segunda parte da Poética.

De fato, ao final da parte VI, o filósofo grego promete retomar na sequencia questões sobre a comédia, o que não se concretiza. Embora a busca pelo volume II da Poética tenha suscitado múltiplas hipóteses (e em O nome da Rosa, de Umberto Eco, teríamos talvez a mais famosa), não há a prova de que Aristóteles teria escrito tal tratado. O que não invalida, de forma alguma, que tracemos hipóteses da suposta segunda parte da Poética. Quaisquer que sejam as incursões no campo hipotético acerca do volume dois da Poética de Aristóteles, acredito que não se deve distanciar-se das postulações à tragédia e à epopéia, bem como curtas referências à própria comédia que há no texto aristotélico que temos em mãos.

As partes qualitativas da tragédia de Aristóteles, em ordem de importância, são a) a fábula, b) as personagens, e c) as falas, que correspondem ao objeto da mímese. Na mesma sequencia, d) as idéias e e) os cantos, correspondente aos meios da mímese. E, por fim, f) a encenação, modo da mímese. Assim posto, o elemento central da tragédia é a fábula, ou talvez melhor, o enredo, a disposição dos fatos. “Mais importante: a disposição das ações. Tragédia é a imitação de ações da vida, da felicidade e da desventura. A finalidade da tragédia é uma ação, não uma qualidade. A felicidade e a desventura estão na ação. O caráter determina como as personagens são, mas é de acordo com a ação que elas são felizes ou não”. Ou seja, a tragédia não se exprimiria em função da construção das personagens, suas características, mas em virtude de suas ações.

Se adotássemos o mesmo princípio para a comédia? Ou seja, a valorização do riso estaria no desenrolar das ações, e não nas personagens. Como assim? Bom, apesar da história poder fornecer inúmeros exemplos, a nossa era do cinema e televisão é rica o suficiente para buscarmos esses exemplos. Afinal, no mass media não nos confrontamos seguidamente com programas de humor que exploram estereótipos que não se enquadram em padrões pré-determinados de comportamento e beleza? Os gordos comilões, os novos ricos, as velhas taradas, os homossexuais, os homens e mulheres feios e burros, ou a mulher bonita mas idiota, e mais tantos outros que nos bombardeiam; tratam-se de arquétipos que não exigem uma fábula necessariamente, visto que os apelos escatológicos, sexuais e alimentares exploram exageros sempre ligados ao baixo ventre. Desse jeito, a própria personagem já é motivo de um riso fácil; fácil, como soltar um pum para um público.

Quando comecei fazendo referência a determinada cena de “Eu, eu mesmo e Irene”, imaginei um exemplo em que a disposição dos fatos sobrepusesse a importância das personagens. Um outro exemplo? “Adeus, Lênin”, outra comédia divertida e que não explora estereótipos alheios aos padrões sociais.

Aristóteles diferencia a tragédia da comédia através do objeto de imitação: homens melhores que nós são objetos comuns às tragédias, ao passo que homens piores que nós são objetos da comédia. Ou seja, a ética assume um papel preponderante na separação entre um e outro gênero. Ora, será mesmo que não poderíamos imaginar que Aristóteles inverteria a ordem de importância no caso da comédia, privilegiando assim as personagens? Os vícios que caracterizariam as personagens como inferiores a nós não estariam presentes em “comédias de enredo”? Levanto esse questionamento pensando justamente nos exemplos gregos, referentes à Comédia Antiga, cujo expoente temos cá sendo Aristófanes, e à Comédia Nova, cujo representante seria Menandro. Ao passo que o primeiro abusa dos vícios e exageros em suas personagens, no segundo parece termos personagens mais “reais”, mais palpáveis. É como se pudéssemos assinalar, ainda que correndo o risco do equívoco, que o primeiro privilegiaria mais a comicidade das personagens que o segundo. Por esse viés, a intriga seria o enfoque de Menandro (não imagino que seja por acaso que O Misantropo muito me lembrou as peças de Martins Pena). Será mesmo possível essa classificação?

Vícios e virtudes separariam os extremos da representação entre os homens: aos virtuosos, sua representação na tragédia; aos débeis, na comédia. No entanto, nesse entremeio, estamos nós, seres reais, tão virtuosos quanto débeis. Ao passo que a tragédia se apóie por vezes em nomes de pessoas que existiram, partindo-se da premissa de que “o que aconteceu é crível”, me parece que a comédia não recorreria tão seguidamente às pessoas reais, a não ser em casos de sátira – embora a sátira me sugira uma referência mais “presente” do que “histórica”. As personagens trágicas têm uma superioridade e, por seguinte, uma gravidade maior, por terem responsabilidades sobre cidades e povos: geralmente, os heróis trágicos são nobres, cujas ações e decisões recaem e propagam-se sobre muitas pessoas. De forma contrária, em geral, as personagens da comédia tendem a ser leves de responsabilidades, cujas ações e decisões recaem e propagam-se sobre elas mesmas ou sobre poucas pessoas.

Retorno à pergunta já feita antes: Será mesmo que não poderíamos imaginar que Aristóteles inverteria a ordem de importância no caso da comédia, privilegiando assim as personagens? Os vícios que caracterizariam as personagens como inferiores a nós não estariam presentes em “comédias de enredo”? Apesar de concordar que seja possível verificar padrões de intensidade quanto ao uso de vulgaridades constitutivas à construção de personagens para a comédia, prefiro supor que Aristóteles continuaria a valorizar a fábula nesse caso. As personagens de “comédias de enredo”, por mais que estejam próximas de nós (homens reais tidos como medida do padrão ético regido pela “aurea mediocritas”), ainda são vítimas da sua própria desmedida, seus vícios e fraquezas. A catarse trágica encontraria seu correspondente na gargalhada? E rir, na mais saudável das hipóteses, não seria decorrente de reconhecer nos exageros, vícios e tolices das personagens as nossas próprias fraquezas?

25 de março de 2009

Meu mundo caiu...


Vocês sabiam? Ou seja, apenas eu não sabia? Espero poder compartilhar com vocês esse breve momento de perplexidade.

Apesar de todo mundo conhecer a música que está no vídeo acima, The Wonders é uma banda fictícia. Ela foi amplamente divulgada no Brasil através das incontáveis repetições do filme The Wonders - O sonho não acabou (1996) na Sessão da Tarde. Mas eu pensava que era um filme sobre uma banda, como (sei lá!?) 2 Filhos de Francisco... Lêdo engano... Mas engana direitinho, pois até o ambiente do filme é dos anos 60... Dá uma idéia de veracidade que se contrapõe ao ano de lançamento do filme... "Ah, meus pais devem ter conhecido, deve ser tipo Baba Cósmica para Mamonas Assassinas... Co-existiam com bandas de sucesso, estavam na mesma onda... Até teriam conquistado algumas semanas entre as músicas mais pedidas nos EUA além das fronteiras de Erie...". Para quem não viu (existe alguém que não viu?) é a já batida história de adolescentes que encontram um empresário e transforma os guris do interior em uma superbanda pop... (A versão feminina que eu conheci era sertaneja e foi encontrada pelo Silveirinha...) Aí, no final do filme, eles têm o mesmo sucesso e reconhecimento como os Virgulóides já tiveram, e suas músicas são cantadas pelas meninas assim como elas já conheceram as músicas do Soweto... Mas, realmente, como diria Maysa, "meu mundo caiu", contrariando os próprios The Wonders, para quem "o sonho não acabou"... Descobri essa fraude a ler um blog que os colocava ao lado de bandas tiradas de O guia do mochileiro das Galáxias, Lost, Harry Potter, O Mundo da Lua e Doug. Só faltava citar as bandas que volta e meia surgem em Malhação...

E o pior de tudo, caímos na lábia de um Forrest Gump...

Wikipédia: That Thing You Do!
The Wonders - O sonho não acabou (BR)
Estados Unidos da América

1996 ı cor ı 108 min

Direção Tom Hanks
Elenco Tom Everett Scott
Liv Tyler
Tom Hanks
Roteiro/Guião Tom Hanks

Idioma Inglês

13 de março de 2009

Intermezzo I



DESAFINADO

João Gilberto
Composição:
Tom Jobim e Newton Mendonça

Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é bossa-nova, isto é muito natural
O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração

Fotografei você na minha Roleiflex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados
Também bate um coração

17 de janeiro de 2009

Moral de "A Favorita"





















A proposta foi da Fernanda Pacini, na comunidade da Carina Ninow : chegado o fim da novela, qual a moral da história? Eu e a Taise nos empolgamos e elencamos algumas das "morais" que pudemos perceber.


-- Duplas sertanejas só trazem desgraça;

-- Vá muito pouco para a faculdade e será encontrará um grande amor rico;

-- Você pode não ser filho de quem você pensa (em geral);

-- Mordomos nunca são confiáveis (em geral);

-- Se não fosse a Flora, o Tarcísio Meira não ficaria com a Glória Menezes;

-- Carmo de la Vecchia tem Complexo de Édipo (vide Engraçadinha);

-- A socialização dos bens de produção é a melhor saída pra crise;

-- Quem é o pai da Úrsula? (acho que minha aposta ficou implícita...);

-- (do Daniel Colin) Se tu for um péssimo ator, tu pode casar com a Cláudia Ohana;

-- Não se vanglorie de sua pretensa virilidade em público: ela pode não funcionar no momento certo (que bom!);

--Todo adúltero morre no final;

-- Quem engravida prostituta pega a mocinha;

-- Quem for gay pega a prostituta;

Mais contribuições serão muito benvindas...

16 de dezembro de 2008

Arte e Cultura - Produções culturais também geram riqueza para o país, diz Mamberti



Além de contribuírem para o desenvolvimento da identidade do Brasil e retratarem a cultura de um povo, as produções culturais são importantes também para a economia do país, podendo representar até 8% do Produto Interno Bruto (PIB). A análise é do presidente da Fundação Nacional das Artes (Funarte), Sérgio Mamberti.

"Está na hora de pensarmos também na gestão cultural e nos darmos conta que cultura também é uma questão de economia. As produções culturais também geram riqueza para o país", disse Mamberti durante a abertura do seminário para discutir o Plano Nacional de Cultura, em São Paulo.

O seminário, que começou ontem (3), é o último da série para debater as diretrizes do plano, para, em 2009, apresentar um texto final ao Congresso Nacional.

Segundo Mamberti, a cultura é um fator de desenvolvimento para o país. "Precisamos pensar na capacitação dos servidores e gestores da área e estudar parcerias", disse.

Para ele, esta é a primeira ocasião que a cultura está sendo valorizada e entrando na agenda do país. "Finalmente a cultura está sendo tirada do papel, temos que aproveitar a chance para trabalhar para sociedade", afirmou.

Uma das discussões, segundo Mamberti, é encontrar outras formas de financiamento à cultura. "A Lei Rouanet não pode ser a única fonte de renda para a cultura. Este é o momento para se pensar em outras possibilidades de financiamento para nossa produção", opiniou.

Para o presidente da Funarte, outro ponto a ser discutido é o acesso à cultura. "Não cabe ao governo somente financiar e sim garantir o acesso às produções por ele financiadas. Isso é a democratização da cultura".

Sérgio Mamberti acredita que os seminários são importantes para encontrar soluções para estas e outras questões do setor como a meia-entrada para estudantes. "A preocupação das produtoras é pertinente, mas é preciso que exista o diálogo para chegar a um consenso", falou. Segundo ele, desde 2001 há "uma total ausência de controle das carteirinhas". "Devemos procurar um equilíbrio", afirmou.

Mamberti também argumenta que o Plano Nacional de Cultura não deve ser o único no país para promover a cultura. "Os planos estaduais e muncipais são fundamentais, são um complemento ao nacional", ressaltou.

Fonte: Agência Brasil (4 de Dezembro de 2008)