literatura, política, cultura e comportamento.
seja em santa maria, em alegrete, no rio de janeiro, em osório ou em liechtenstein.
na verdade, tanto faz.
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7 de setembro de 2011

Uma coisa que leva a outra e, por sua vez, a outra, e a outra...

A propósito, inicialmente, do vídeo intitulado EL EMPLEO:


A leitura do conto “O arquivo” [1], de Victor Giudice (indicado pelo André Cruz, realizada no vídeo pelo Antônio Abujamra) me remete (como não poderia deixar de ser) ao "Operário em Construção" [2], de Vinícius de Moraes, que, em contraposição ao protagonista de Giudice, disse NÃO. Baixar a cabeça - calar e, portanto, consentir - também é tema de "Casa tomada", de Cortázar [3] e de poemas de Maiakóvski [4] e de Brecht [5]. Quando a resignação do espírito - do operário - é aproximada das relações de trabalho, evidencia-se a lógica da produção e do capital, nada humanizadora. Assim, dizer não é contrapor-se a essa lógica, seja pela manutenção de direitos conquistados, seja no avanço para a construção de uma sociedade cada vez mais justa e igualitária. E, se a literatura propõe-se a construir universos paralelos a partir de situações hipotéticas, que nos permite uma identificação – embora com certo distanciamento – ao olharmos no espelho, o que percebemos, senão as nossas próprias contradições e as contradições da própria realidade que nos circunda?

[1]


[2]


[3]


[4]
Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada
. (Maiakóvski)

[5]
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo
. (Bertold Brecht)

30 de abril de 2011

"As revistas, as revoltas, as conquistas da juventude são heranças, são motivos pras mudanças de atitude"


Os meios de comunicação no Brasil propõem (ou impõem?) um certo modelo comportamental de jovens, em tese calcado no estereótipo Malhação, talvez por entenderem a juventude como "uma banda numa propaganda de refrigerantes", como canta Humberto Gessinger. O vídeo de Felipe Neto, que você vê aqui, rejuvenesce a discussão sobre os impostos no Brasil, mas por uma perspectiva já caduca, reducionista, limitada, ou seja, mais do mesmo. Embora ele não diga, ficamos com a impressão, ao final do vídeo, que ele poderia muito bem ter tirado a seguinte conclusão: "esse dinheiro que o governo dá pra pobre comer, que oferece para pobre se qualificar e poder mudar de vida, esse dinheiro poderia servir para eu ficar jogando videogame". Estou errado na minha leitura?

Diante disso, a reflexão do Marcelo Parreira é extremamente pertinente. Destaco a seguinte passagem: "O que prejudica a aplicação dos nossos impostos, tanto quanto os desvios que devem ser combatidos, são os problemas estruturais. Nossa legislação tributária consegue ser ao mesmo tempo redundante e falha, nossa fiscalização para evitar a sonegação só começou a melhorar recentemente, setores importantes são bitributados, entre outros problemas. Mesmo assim, a famosa reforma tributária nunca engrenou por um misto de miopia dos governos estaduais, preguiça do governo federal e desinteresse do Legislativo. Isso sim merecia uma revolta e protestos, mas quem quer se arriscar em um assunto complexo como esse quando você pode simplesmente maldizer os políticos e babar pelos cantos?"
http://oopinioso.wordpress.com/2011/04/28/porque-felipe-neto-esta-errado/

Em relação ao texto completo de Parreira, acrescentaria o seguinte ponto:
 

No começo do vídeo, Felipe Neto já sobe nas tamancas: "Tá na hora de mostrar para essa porra de governo que a gente voltou a ter força para lutar pelo que é justo. Tá na hora de definir de vez que quem manda nessa porra aqui é a gente. Preço justo nessa porra já! Desde a época da ditadura que a juventude brasileira se calou. Toda a porra de dia a gente ouve notícia e mais notícia sobre corrupção, sobre aumento de salário de político, sobre zona com o dinheiro público". Não quero dizer, ao criticá-lo, que não haja problemas no país, mas não podemos cair em reducionismos hipócritas e em equívocos. Só no trecho destacado, poderíamos lembrá-lo do Fora Collor (como se fosse um ato isolado pós-ditadura!) e atualizá-lo sobre o debate importante e necessário sobre a democratização da informação (e sua crítica aos interesses e qualidade das grandes empresas midiáticas).

Não vou me estender sobre a dimensão dos movimentos políticos estudantis no Brasil, sobretudo das forças (em constante embate) que compõem a UNE, a UBES e a ANPG, ou dos movimentos sociais, dos movimentos de jovens trabalhadores, dos centros de cultura, da organização em partidos, ONGs, igrejas... Gostaria de retomar, em relação a esse assunto, o movimento contra a ALCA entre final dos anos 90 e início dos 2000, protagonizado pelos estudantes, e que se baseava exatamente no oposto desse #precojusto, "fácil discursinho pequeno-burguês":

"A possível criação da Alca é motivo de preocupação tanto para os países subdesenvolvidos (a maioria) quanto para os desenvolvidos (Canadá e Estados Unidos). Esse bloco visa estabelecer uma zona de livre comércio no continente americano, onde as tarifas alfandegárias seriam, paulatinamente, eliminadas, proporcionando, assim, a livre circulação de mercadorias, capitais e serviços. Entretanto, a livre circulação de pessoas e trabalhadores entre os países integrantes não seria permitida, pois o idealizador da Alca (EUA) não pretende intensificar a entrada de latino-americanos em seu território."
http://www.brasilescola.com/geografia/alca.htm

Com a ALCA, teríamos o tal cenário em que os produtos importados dos Estados Unidos e do Canadá seriam praticamente livres de imposto sobre importação. Os países “ricos” dominariam o capital industrial, e os “pobres” da América Latina assumiriam de vez o papel de coadjuvantes, restritos à atividade primária (mas com produtos de marca e originais nas prateleiras “livres de impostos”). O grande problema nesse cenário seria a situação do Brasil, e provavelmente da Argentina e do México. Não se trata de fazer suposições evasivas, mas pesquisar o impacto que houve na economia mexicana a partir do NAFTA. Países de industrialização ascendente, sofreríamos (mais) com a procura das empresas estrangeiras pelo “baixo custo”, só que sem barreiras protecionistas que permitissem o fortalecimento da economia nacional. Em miúdos, a América Latina seria uma neocolônia norteamericana, presa pelos limites do Bloco Econômico; ao contrário da cooperação do MERCOSUL, que alavanca a expansão da nossa economia com a Europa, o Oriente Médio, a África, Rússia, China, Japão... O debate não seria sobre o imposto malvado que encarece o DVD do Harry Potter, mas ainda sobre questões de soberania nacional, dívida externa, arrocho salarial, desemprego, futuro... (tipo anos 90?).

-- -- --

E, ainda, sobre o protagonismo ATUAL da juventude, transcrevo um trecho que gosto muito, destacado de uma entrevista da Deputada Manuela D'Ávila (PCdoB/RS):

Sul21 – Tu comentaste há pouco sobre a tua trajetória no movimento estudantil. Como tu avalias o grau de politização do jovem brasileiro em geral, e do movimento estudantil em particular?

Manuela – Em primeiro lugar, eu acho que muitas vezes as pessoas caem no erro de avaliar as coisas sem levar em conta o momento histórico. Comparam os jovens de hoje com os jovens da ditadura militar… O Brasil é diferente, a vida é diferente. Os jovens que combateram a ditadura, como a Dilma (Rousseff, candidata do PT à presidência), lutaram para que a minha geração vivesse em liberdade. Temos que colocar as coisas dentro de seu período histórico. A população jovem hoje é muito maior, numericamente falando. Somos 55 milhões de jovens, e sobre nós incide de maneira mais cruel a desigualdade. Os jovens convivem com as oportunidades geradas pelo governo Lula, mas também com as desigualdades que ainda não superamos. Um cara que estuda consegue acessar a universidade, mas ele precisa trabalhar oito horas para pagar essa universidade. Então, é preciso entender quem é o jovem hoje. E também é preciso entender, na minha opinião, quais são as formas de participação da juventude. O movimento estudantil, hoje, é uma de várias formas de manifestação da juventude, como é o hip hop, como são os jovens universitários desenvolvendo pesquisas, como são os jovens que atuam no movimento de democratização da mídia… Vendo por esse lado, o movimento dos jovens é até maior hoje do que era na ditadura. Também é uma ilusão achar que todos os jovens estavam lutando pela liberdade, na época da ditadura. Acho que há uma tentativa de estereotipar nossa juventude como se ela fosse alienada, e ela não é.

Sul21 – E por que isso?

Manuela -
Porque a gente saiu de um processo muito longo de neoliberalismo, que vendia a ideia de que o indivíduo era superior ao coletivo. Para essa visão, é errado divulgar valores coletivos. Uma pessoa tem que encarar seus colegas de aula como adversários, porque eles serão adversários no mercado. A gente ainda vive em um mundo em que se difunde muito os valores individuais. E acreditar na juventude, em sua capacidade de mobilização, equivale a dizer que isso é mentira.

http://sul21.com.br/jornal/2010/10/manuela-%E2%80%9Ctenho-o-sonho-de-ser-prefeita-de-porto-alegre%E2%80%9D/






Post-scriptum: sugestões de leitura

@opinioso - Fazer a diferença (ou Porque Felipe Neto continua errado)

@opinioso - Da arte de se explicar sem se explicar (ou Porque o #preçojusto não pode ser defendido)

@Tsavkko (sugestão do @brizola_neto) - Preço Justo Já e a falta de crítica da classe média #PrecoJusto

19 de janeiro de 2011

Gláuber Rocha - A Eztetyka da Fome [1965]





















30 de outubro de 2010

O Alegrete que os alegretenses querem para o futuro

O que significa investir em educação? Creio que investir em educação é investir em melhoria de qualidade de vida, de emprego e de desenvolvimento a médio e longo prazo. É criar oportunidades para que as nossas crianças, adolescentes e jovens vejam um horizonte próspero em seu futuro... “É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê!” – cantam Los Hermanos.

Nessa minha estadia profissional pelo Alegrete, tenho ouvido de tudo. Adotei a postura cautelosa de mais ouvir do que falar, pois tudo pelo que passamos pode se converter em aprendizado e amadurecimento. Porém, nem tudo que ouvimos deve ser assimilado acriticamente: a coerência com o modo de concebermos o mundo e modificá-lo deve estar em constante tensão com o que lemos e ouvimos.

Numa dessas conversas, em Alegrete, ouvi dizer que não há oportunidade de formação profissional para o jovem alegretense. De fato, a juventude do Alegrete deve ter prioridade nas políticas públicas nas esferas estaduais e federais (contando com a eleição da Dilma), pois muitos jovens hoje não têm perspectivas de emprego e renda, e surgem como possibilidades, ou a saída para grandes centros industriais, ou o descambar para a criminalidade. Podemos ver que isso se dá pela pobreza da região, ao (ainda!) privilegiar um coronelianismo feudal de subserviência e a concentração de renda em torno de meia dúzia de famiglias. O próprio Alegrete não investe no Alegrete, não gera poder de consumo para que se possam desenvolver economicamente as cidades da região.

Por outro lado, afirmar que nada esteja acontecendo é ler a realidade empírica de forma fragmentada e, portanto, limitada. Voltemos aos anos 90, relembremos do Alegrete naquela época, e imaginaríamos uma cidade universitária? Com certeza isso seria motivo de chacota entre a juventude da época, para quem tinha apenas Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande e Pelotas como possibilidades de cursar uma universidade gratuita (pública e de qualidade!).

Mas o Alegrete está mudando. Hoje a cidade conta com CINCO UNIVERSIDADES, das quais, contribuindo para a interiorização e democratização da educação, TRÊS SÃO PÚBLICAS: a Unipampa, o Instituto Federal Farroupilha (que oferece cursos tecnológicos de níveis médio e superior e atende a uma demanda de licenciaturas e cursos de pós-graduação) e a UERGS (que tende a ter seus investimentos retomados com a eleição de Tarso Genro para o Rio Grande do Sul). Além disso, temos a URCAMP, por onde as pessoas podem ser financiadas por meio do PROUNI. Também há a UNOPAR, que tem contribuído com a formação de profissionais na região por meio do ensino a distância, estimulado pelo Governo Federal, como diminuição das fronteiras à informação e ao conhecimento.

Enquanto a população da cidade não assimila a importância histórica desses investimentos na cidade, nossos jovens não estarão enxergando essas instituições como possibilidades concretas. Nós, educadores, pais, gestores públicos, jornalistas – todos – temos a responsabilidade de divulgar e incentivar nossos jovens. O grande medo hoje na cidade é que ela forme pessoas, mas não gere mercado para que possam atuar na própria cidade e região. Ora, só é possível garantir que esses profissionais possam permanecer e colaborar com o desenvolvimento da cidade se houver a geração ampla de formação e empregos à juventude, por meio de incentivos concretos de emprego e renda nas mais diversas áreas.

O posicionamento estratégico da cidade, a meio caminho do Uruguai e da Argentina, faz com que a cidade seja promissora. Porém, o que parece é que a cidade espera um messias que virá e, com a sua graça e palavras mágicas, transformará a cidade em um reino dos céus. Parece não ser claro que a mudança só pode acontecer por meio de tensionamento político, envolvimento social e posicionamento frente aos projetos para a cidade. Que cidade o povo do Alegrete quer para o Alegrete? E o que é necessário fazer para o Alegrete corresponder às expectativas dos seus cidadãos? Como operar, como resolver os problemas que impedem o Alegrete de corresponder a essas expectativas? Precisamos parar de resmungar e, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperar o apocalipse chegar! Precisamos ser propositivos e objetivos para a cidade que se espera e se quer para o Alegrete!

24 de outubro de 2010

Por que me engajar?


Certos olhares não mentem. “O que ele quer, fazendo campanha política? Ainda mais de graça, para os outros, que nem sabem quem ele seja! Ele não precisa disso!” Ou, “como ele se deixa levar por essa politicagem?” Para começar a responder perguntas como essas, citaria um verso do maestro Jobim: “É impossível ser feliz sozinho!”.

Durante meu ensino médio em Osório, gostaria de ter me envolvido mais na política estudantil. Porém, a falta de acesso à informação limitava-me. Ainda assim, com alguns amigos, conseguimos tornar viável o plebiscito contra a ALCA no município em 2002!

A grande expectativa que criei pela atuação da política estudantil na universidade foi frustrada ao ter as minhas primeiras impressões na UFSM. Eu, com 17 anos, imaginava que a política estudantil poderia propor novos métodos de fazer política, e não apenas reproduzir o que já se fazia na política institucional. Possivelmente essa leitura que fiz nas minhas primeiras impressões tenha se dado por não haver outros movimentos estudantis expressivos e de esquerda que se contrapusessem às práticas do movimento hegemônico naquele momento. Deixem-me esclarecer: não me contrapunha, de modo geral, às pautas, mas às práticas políticas. De qualquer forma, mesmo não me engajando de fato, acompanhava e apoiava as pautas do movimento estudantil.

De qualquer modo, nas conversas com os amigos são apresentadas ideias, opções e saídas... A gente ouve tudo, assimila, mas certas coisas precisam de um amadurecimento lento...

Movimento promovido
pela UNE e UBES em 2007
Já estava no mestrado, e por ocasião de um evento, estava em São Paulo. Chovia desde cedo naquela manhã. Nisso, estava a uns 200m da prefeitura da capital, sobre um viaduto, próximo à marquise de uma grande loja, em que uns quantos mendigos – homens, mulheres, crianças e idosos – abrigavam-se da chuva. Pude ouvir o diálogo em que um policial informava a uma mulher que todos eles deveriam sair dali, para que a loja pudesse abrir. A mulher (com duas crianças em volta e uma no colo) então responde que eles não teriam problema algum em sair dali, e questionava: “mas para onde a gente vai?” Sobre o viaduto, dava para enxergar as telas recém colocadas pela prefeitura de São Paulo para impedir que mendigos se abrigassem ali.

“Mas para onde a gente vai?” – a pergunta me ressoava na cabeça. Já não era mais o mesmo depois dessa cena. E se fosse comigo? Essa era a segunda pergunta que ressoava na minha cabeça... Afinal, as oportunidades que tive e pude aproveitar foram, em grande parte, por sorte. De mesmo modo que eu pude nascer no seio de uma família que pode me oportunizar certas condições, há aqueles que nasceram sem acesso a um mínimo dessas oportunidades. E quando o meu filhote nasceu... Aí eu percebi mesmo que eu não poderia me contentar com as coisas do jeito que são. Que, se eu pudesse contribuir para que houvesse uma universalização de oportunidades, eu iria me engajar. Não apenas para oportunizar um futuro melhor para o meu filho, mas para que o mundo ofereça condições mais humanas para todos os nossos filhos.

Como ser feliz sozinho? Como ser feliz vendo miséria e descaso por todos os lados? Se, por algum acaso, não sou eu e minha família passando por necessidades, poderia (e poderá) por algum acaso ser eu ou algum dos meus necessitando da mão do Estado, como há tantas e tantas famílias que pelos mais variados motivos são postas à margem pelas leis do capital. Se eu puder colaborar para o fortalecimento de um Estado que contribua para a construção do socialismo e para o protagonismo popular, estarei me engajando por essa luta.


O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito,
vamos de mãos dadas... (Drummond)
 
Por isso pego as bandeiras e dou a “cara à tapa”. Porque me vejo como parte de um ideal maior, em nome de um projeto concreto que possa melhorar de fato a vida das pessoas que precisam, mesmo reconhecendo as contradições que possa haver. Como dizia o Raulzito, "Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só; mas sonho que se sonha junto é realidade"!

O processo democrático não termina com o voto. Pelo contrário, é pelo direito ao voto que o processo democrático começa, e é pelo dever ao voto que não podemos nos isentar das responsabilidades que existem através do processo democrático.

23 de outubro de 2010

O que restará afinal?


Uma professora que havia me visto em plena campanha no calçadão do Alegrete perguntou-me, numa outra oportunidade, a respeito da suposta violência contra o candidato Serra, no episódio do Rio de Janeiro. Na opinião dela, tanto o Serra errou, como o Lula errou ao desdenhar a violência. Como cobrar de nossos alunos que não joguem bolinhas de papel na sala de aula, quando há exemplos como esse na esfera política? Ensaiei uma contestação a fim de argumentar que houve sim fraude, mas, no momento, optei em não prolongar esse debate. Isso porque, utilizando a mesma comparação que ela já havia feito, creio que o que poderá restar são o conhecimento e os valores que pudermos oferecer aos nossos alunos, e não eventuais os problemas de indisciplina, como as bolinhas de papel. Ou seja, de mesmo modo, o que é importante para o futuro do nosso país, a propósito das eleições, não é se era uma bolinha de papel ou uma bobina de papel, mas as visões de mundo e de país que há nos distintos projetos de cada um dos candidatos.

9 de outubro de 2010

Osso duro de roer



Tropa de Elite 2 permite-se inicialmente a uma leitura superficial que aponta para a desmoralização ética do sistema de segurança pública e da política. Em outras palavras, todos estariam corrompidos, e agindo no poder público para benefício próprio com objetivos financeiros e eleitorais. Outra leitura superficial seria relacionar em imediato os acontecimentos da narrativa com o contexto eleitoral.

O fato de o filme ser lançado no contexto eleitoral permite uma comparação imediata com a realidade atualíssima, considerando-se a reeleição do governador e as políticas das unidades de polícia pacificadora. Ora, o filme vem sendo produzido desde o ano passado, e seria leviano considerá-lo como um reflexo da realidade (o filme não foi feito semana passada!).

Chamamos a atenção para a crítica sobre a esquerda que o Nascimento faz ao início do filme, que se modifica ao final, quando ele percebe que o deputado Fraga, na luta pelos direitos humanos, está do mesmo seu lado contra o sistema. Se o Fraga havia se utilizado do caso de Bangu I para se promover politicamente, outros haviam se utilizado da estrutura corrompida do sistema.  Há legitimidade do processo eleitoral, e não há o nivelamento político: pelo contrário, a narrativa do filme deixa claro que todos tomam partido, seja por valores humanitários, seja por interesses eleitoreiros e financeiros.

Ao fim do filme, é lançada toda a responsabilidade em nós, eleitores, tanto no que se refere à ação e financiamento das milícias, quanto de quem elege políticos comprometidos com o sistema que favorece as milícias. O filme é muito bom, e merece uma conclusão crítica pautada nos detalhes dos movimentos do enredo.

4 de outubro de 2010

Um diálogo quase fictício

E no meio do papo...

- Meu colega aqui votou Marina.


- Proteção ambiental aos tucanos! Tudo bem, votou, agora já era...


- Mas no segundo turno a onda verde vira vermelha – diz ele. Ele é um daqueles que são
revoltados com a corrupção...

- A questão é: se ele achou que no momento histórico atual era importante o voto na Marina, que agora analise friamente as proposições para o futuro do Brasil que estão em jogo.


- Ele disse que não é louco de votar em Serra... Não rasga dinheiro – foi o que disse.


- Sério... o problema real não é um governo ter focos de corrupção, pois as pessoas são corruptíveis, e qualquer governo pode ser suscetível a isso, independente do partido ou das lideranças que lá estejam. A questão é se há a valorização das instituições públicas que reprimam e coíbam a prática da corrupção.


- Sim, o que as pessoas não entendem é que a última coisa que a mídia quer ao promover os escândalos midiáticos denuncistas é resolver o problema da corrupção. As críticas da mídia se tornam vazias pois não são propositivas. Elas seriam muito mais efetivas se tomassem partido formalmente e defendessem reformas estruturais na política. Bem se vê que para os "barões da mídia" é conveniente o modo como as coisas estão...

18 de agosto de 2010

Eleições 2010: políticas públicas para portadores de necessidades especiais no centro do debate

Foi na Bandeirantes que os portadores de necessidades especiais tornaram-se tema de debate nas eleições presidenciais. O tucano José Serra insistia que o amparo governamental a essa parcela da população havia regredido durante os oito anos de governo Lula. Apenas nos dias seguintes ao debate se teve acesso aos fatos e números reais, que no momento acabam se perdendo.

Dias depois, repassei
o seguinte texto para alguns amigos que, por um motivo ou outro, têm interesse no tema:

Apaes: “Serra distorceu informações, tirou proveito das angústias de pais e reforçou preconceitos”, por Conceição Lemes: http://www.viomundo.com.br/denuncias/apaes-%E2%80%9Cserra-distorceu-informacoes-tirou-proveito-das-angustias-de-pais-e-reforcou-preconceitos%E2%80%9D.html

Essa iniciativa propôs que pudéssemos debater, em determinado círculo de amigos, as diferentes posições que delineiam as políticas públicas para os portadores de necessidades especiais.

Por exemplo: uma amiga, que já me declarou, de antemão, seu apoio ao Serra, respondeu-me o seguinte:

Li o link que você me mandou, e tenho que admitir que ali há coisas com as quais eu concordo. Mas também existem coisas que sou contra. Para quem olha de fora é diferente de quem está lá dentro (eu estou no meio), por isso entendi o que foi colocado de ambas as partes; o problema é que no papel é uma coisa, no real é outra...

Ao início do horário de propaganda política, José Serra volta ao tema. Veja aqui.

Eis que o meu amigo Luciano, do blog Reflexões, e acadêmico do curso de Educação Especial, puxa a conversa...

Luciano:
Você viu o horário político, bruxo? Viu a declaração do Serra?

Blog do Berned:
Qual delas?

Luciano:
A que ele promete fazer um centro de tratamentos para as pessoas deficientes.

Blog do Berned
Sim.

Luciano:
Como se a deficiência fosse uma doença que pode ser curada!

Blog do Berned:
Pelo que já conversamos, isso é tratar como área de saúde o que é da área da educação! Ou seja, totalmente oposto às políticas de inclusão.

Luciano:
Sim! Mas é uma visão em que ele vai perder muitos votos por causa disso. Porque a cabeça dos pais, hoje em dia, está em aceitar a deficiência dos filhos e fazê-los levar a vida mais normal possível, e com os professores é a mesma coisa. Pelo menos essa é a minha visão. Talvez eu esteja sendo utópico, mas estamos caminhando para esse lado.

13 de agosto de 2010

Eleições 2010: para que votar?

Ante as próximas eleições, frente às tomadas de posicionamentos e aos debates políticos, é possível que muitos façam a seguinte pergunta: para que votar?

A nossa jovem democracia tem conquistado grandes avanços desde o final da ditadura militar, embora possa amadurecer ainda mais. Através da democracia representativa, delegamos alguém a tomar posições por nós nas instâncias legislativas e executivas do poder com o nosso voto. Entre as pessoas próximas, costumo dizer que o voto é uma procuração que concedemos a uma outra pessoa, para que tome decisões por nós. Ou seja, você conhece os seus candidatos? Sabe que ideias têm, que valores têm, que posicionamentos tomam? Você daria uma procuração para essa pessoa a quem você direciona o seu voto? Ora, não se trata também de negar veementemente as questões acima e anular o voto. Trata-se de conhecer, sobretudo, que projeto de sociedade tais candidatos representam, e conferir se equivale às suas expectativas. Também sempre defendi o voto em classes: ou seja, romper, de fato, aquela posição de subserviência em votar no dotô. Fazer valer, principalmente, nos cargos para o legislativo: votar em líderes comunitários ou em representantes sindicais, que representem os interesses de cada posição social. E que o dotô receba votos apenas dos dotores...

Alguns poderão dizer que o poder corrompe. Que o voto em classe – pobre votando em pobre, por exemplo – apenas possibilitaria ao candidato eleito fazer aquilo tudo que antes criticasse. Refuto essa lógica perversa pois acredito que as pessoas podem, cada vez mais, tomar para si essas responsabilidades que são hoje delegadas a um outro: ou seja, que se possa articular mudanças no sistema social a fim de que possamos ter uma democracia de fato. Democracia vem do do grego, “governo do povo”, embora ainda na Grécia fosse elitista esse regime, haja vista que a porcentagem de “cidadãos” era mínima, já que excluía mulheres, escravos e estrangeiros. À democracia contrapõe-se a monarquia, em que o poder é de uma linhagem familiar legitimada pela unção divina. Porém, ao invés de uma democracia plena, por muito tempo estivemos na mão de oligarquias – “governo de poucos”. Os poucos que detinham o poder político e econômico governavam. Nos anos 60, quando o trabalhismo ameaçava o status quo, as oligarquias, que apoiaram o golpe revelaram-se justamente enquanto ditadura – “governo na mão de uma pessoa, um grupo ou uma classe”. O Brasil ainda possui seus oligarcas na política, sejam eles candidatos ou financiados por eles. Por isso é tão importante a defesa de uma reforma política no Brasil, que entre outras coisas defenda o financiamento público exclusivo de campanha: para que os candidatos sejam eleitos pelos projetos que defendem, e não pelas doações que recebam. Defendemos uma reforma política que leve ao pé da letra a etmologia de democracia!

Para “quais os critérios para o voto?”, eu reformularia a pergunta: qual é o papel de um governo? Entre diferentes candidatos, diferentes partidos, diferentes coligações, há diferentes projetos que concebem diferentes modelos de sociedade, de governo e de país. Qual é o projeto político que defendemos para o Brasil? Qual é o papel de um governo? Não sei se diferentes projetos políticos responderiam de mesma forma essa pergunta. Eu acredito que um governo, nas condições atuais, sirva para, efetivamente, melhorar as condições de vida das pessoas, universalizando o acesso aos bens públicos que são de direito de todos. Outros podem achar que a vida do povo é supérflua nesse embate político, apesar de isso não ser admitido... O que não se deve fazer, de modo algum, é cair no debate despolitizado, atacando candidatos com críticas pessoais e não políticas. Devemos escolher um projeto político para o país, portanto não faz sentido escolher “A” ou “B” como se escolhe um time de futebol para torcer...

Por aí também podem alegar o descrédito das instituições políticas, sobretudo dos partidos. No Brasil, diferente de outros países, é necessário estar vinculado a algum partido político para ser candidato. Acontece que as legendas, enquanto tivessem mais ou menos uma unidade programática, mais coerentes seriam. Porém, na maioria das vezes, as pessoas vinculam-se a partidos não para a defesa de um projeto específico, mas porque encontram mais facilidades em se candidatar, ou para conseguir um eventual trabalho em algum órgão público. Isso acaba por descaracterizar certas bandeiras partidárias: tanto faz estar em um lado ou outro das disputas eleitorais. No entanto, simplesmente concluir isso é desconsiderar que há partidos que se estruturam de modo diferente entre si. Há partidos que têm correntes internas, a fim de forçar debates internamente; há partidos que têm mais ou menos pré-definidas as suas diretrizes ideológicas; e há o que chamamos de “legendas de aluguel”, entre outros nuances que poderíamos considerar. Com a legalidade do financiamento privado de campanha, o sujeito pode ver a sua própria candidatura como um investimento: ele não está para defender uma ideia conjunta, em que qualquer candidato de seu partido levará consigo. Há conflitos intrapartidários em virtude justamente dessa lógica absurda em que o candidato precisa se eleger em nome de um personalismo que, na verdade, é a busca pelo retorno do capital investido/perdido. Todavia, não creio que se possa generalizar essa afirmação.

Eis a responsabilidade que temos ao delegar essa procuração, não em nosso nome, mas em nome de nossa comunidade, de nossa cidade, de nosso futuro. Certas posturas, circunstâncias, opções, poderão modificar diretamente a vida de milhares de pessoas, positivamente ou negativamente. Percebe a responsabilidade? E ainda falam em voto facultativo! Para mim, abrir mão do voto, seja branco ou seja nulo (legalmente têm o mesmo propósito), ou ainda, desejar o voto facultativo, é apenas uma desculpa para não assumirmos a nossa responsabilidade frente às nossas escolhas.

Sugiro ainda a leitura do ótimo texto no blog Igor de Fato: Histórias de um novo Brasil.

29 de junho de 2010

Patriotismo de copa do mundo

Foto: Fifa.com, via Flickr/Y!

Muita gente critica esse fenômeno em terras tupiniquins, o nosso patriotismo que se alterna entre copas do mundo de futebol e olimpíadas de verão. Tais críticos, suponho, têm em vista um patriotismo constante ao longo do ano, e que teria seu apogeu no sete de setembro, no quinze de novembro, e talvez no 22 de abril. Seu modelo é, supostamente, as comemorações do 4 de julho nos Estados Unidos e do 14 de julho na França.

Se considerarmos o motivo de comemoração em relação ao julho estadunidense e ao francês, verificaremos que remete a momentos profundamente significativos, de rompimento com uma ordem vigente e surgimento de outra ordem, com intenso apoio e participação popular. É destacado o orgulho nacional de se ter participado de uma grande vitória para o seu país, a sua nação e o seu território.

E no Brasil, por que é diferente? De fato, com os acontecimentos que precederam e atingiram o seu ponto alto no sete de setembro em São Paulo, a independência do Brasil representou uma independência de fato? Ora, as elites mantiveram-se as mesmas, o sistema escravagista e monárquico permaneceu o mesmo, e a dependência política de Portugal, econômica da Inglaterra e cultural da França mantiveram o Brasil agindo como uma colônia. A própria proclamação da república, com mais de cinquenta anos de atraso, apenas exprimiu o esgotamento de um sistema em si mesmo, não modificando substancialmente em nada a política e a economia nacional.

Em termos políticos e econômicos, as grandes mudanças iniciaram com o governo de Getúlio Vargas. O caudilho gaúcho, que garantiu inúmeros avanços nas áreas trabalhista e industrial, ainda representava os interesses de sua classe social, embora confrontasse o eixo São Paulo – Minas Gerais. Sua Revolução de 30, que dá início aos 15 anos ininterruptos de presidência, é sim um marco de resistência e luta, ainda que da incipiente classe burguesa.

Quando o processo político do Brasil apontava para mudanças consistentes e significativas pelas eleições democráticas, sobretudo após os anos JK, de efervescência cultural e de grandes construções, os militares, apoiados pela UDN, reprimem os indicativos da mudança por vir e garantem no poder a mesma elite de sempre. Resumindo: na história do Brasil não há vitória de contestadores e revolucionários. As mudanças são tênues, vindas de regimes democráticos ou pelo próprio peso da história.

Que orgulho nacional pode advir dessa história oficial?

De fato, no Rio Grande do Sul, o orgulho gaúcho é muito mais intenso do que o de ser brasileiro, em que a Revolução Farroupilha é o grande motivo. E ainda, aos que possam condenar essa comemoração como uma batalha de interesses de oligarcas, no mesmo estado temos a figura de Leonel Brizola como referência pela Legalidade, a última grande resistência do poder civil ao golpe militar que a precederia. Poderemos admitir que efeito semelhante há em Minas Gerais em relação à Inconfidência e em Pernambuco em relação à Confederação do Equador.

O que torna o nosso país motivo de orgulho? Que ações humanas tornam o nosso especial e destacado em relação a outros? O que nos coloca na ponta de grandes países? Até pouco tempo, que atividade cumpria essa necessidade de auto-afirmação, senão o esporte, e mais especificamente o futebol?

Possivelmente apenas no século XXI começamos a abandonar o complexo de vira-latas e ter orgulho de nosso país, pela via democrática e coalizão política em torno de um projeto nacional de desenvolvimento e distribuição de renda. Apesar de sua imprensa e parte da população não terem assimilado que a mudança veio pra ficar, cada um de nós tem responsabilidade pela construção do país e grande nação que todos queremos que seja. Ter orgulho é ter amor-próprio, e amor-próprio se conquista pela satisfação em colaborar.

20 de abril de 2010

A Veja vende o seu pato

"Eu me preparei a vida toda para ser presidente", diz o presidenciável tucano José Serra na capa do caduco folhetim semanal. E não vai ser, assim como o Maluf (outro que está há tempos esperando a sua vez...).

Leia aqui, no Conversa Afiada, a denúncia dessa que é mais uma peça apelativa pró-Serra.

Sem falar no fotoshop forçado, em que o dito candidato aparece sem as olheiras habituais e as salientes gengivas que lhe são naturais:

Veja mais "fotoshopagens" equivocadas, aqui.

28 de janeiro de 2010

Deu no Vermelho: Osório cria núcleo da UJS

Copiado de: http://www.vermelho.org.br/rs/noticia.php?id_noticia=123089&id_secao=113 . 24 jan 2010.

Desde o dia 16 de janeiro, Osório já possui a UJS – União da Juventude Socialista. A reunião que criou a UJS contou com a presença do Vereador de Cidreira, Matheus Junges (PCdoB), do Presidentes Estadual da UJS, Mateus Fiorentini (Xuxa), do Secretário Adjunto de Juventude, Esporte e Lazer, Binho Silveira e do Presidente do PCdoB Osório, Jessé Leites.

ujs osorio

Jessé, Mateus (Xuxa), Douglas, Matheus Junges, Binho e Vagner
















Na reunião ficaram a acertadas as atividades da UJS para 2010, bem como a campanha Te Liga 16 que vai conscientizar os jovens entre 16 e 18 anos a votarem nas próximas eleições. A direção provisória formada pelos estudantes universitários Douglas e Vagner trabalhará para realizar o Congresso Municipal entre março e abril.

Para o Vereador Matheus, a criação da UJS não é apenas a constituição de um grupo de jovens. “A UJS lutou pela democracia, conseguiu o voto aos 16 anos, dirigi a UNE, a UBES e tem figuras que fazem história, como por exemplo, Aldo Rebelo, Manuela d’Ávila e o Ministro Orlando”.

Já Binho acredita que Osório tem muito a ganhar com a UJS. “Acredito que agora teremos uma juventude aguerrida e corajosa, disposta a contribuir para as lutas do povo de Osório e do Litoral”.

O Presidente Estadual, Mateus (Xuxa), lançou a ideia de todo o Litoral possuir direções da UJS a partir do núcleo criado em Osório. “A UJS precisa estar em todas as 23 cidades da região. A partir de hoje tenho certeza que os bons ventos de Osório soprarão também na renovação da política do Litoral”.

Conheça o Portal Vermelho: http://www.vermelho.org.br/

6 de novembro de 2009

"Quem disse que a literatura não incomoda mais?" (3)

"Caim e Abel", c. 1620, atribuí­do a Simon Vouet e Pietro Novelli. Óleo sobre tela - 198 x 147 cm. Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma.

Feliz vai também caim, já a sonhar com um almoço no campo, entre verduras, fugidios carreirinhos de água e passarinhos a sinfonizar nas ramagens. À mão direita do caminho, além, vê-se uma fila de árvores de bom porte que promete a melhor das sombras e das sestas. Para lá tocou caim o jumento. O sítio parecia ter sido inventado de propósito para refrigério de viajantes fatigados e respectivas bestas de carga. Paralela às árvores havia uma fileira de arbustos tapando o carreiro estreito que subia em direcção ao teso da colina. Aliviado do peso dos alforges, o jumento tinha-se entregado às delícias da erva fresca e de alguma rústica flor tresmalhada, sabores estes que jamais lhe tinham passado pela goela. Caim escolheu tranquilamente a ementa e ali mesmo comeu, sentado no chão, rodeado de inocentes pássaros que debicavam as migalhas, enquanto as recordações dos bons momentos vividos nos braços de lilith voltavam a aquecer-lhe o sangue. Já as pálpebras tinham começado a pesar-lhe quando uma voz juvenil, de rapaz, o fez sobressaltar, Ó pai, chamou o moço, e logo uma outra voz, de adulto de certa idade, perguntou, Que queres tu, isaac, Levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o sacrifício, e o pai respondeu, O senhor há-de prover, o senhor há-de encontrar a vítima para o sacrifício. E continuaram a subir a encosta. Ora, enquanto sobem e não sobem, convém saber como isto começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar.
Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que signifi ca que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes.
Chegando assim ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac. Não, não era certo, caim não é nenhum anjo, anjo é este que acabou de pousar com um grande ruído de asas e que começou a declamar como um actor que tivesse ouvido finalmente a sua deixa, Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque eu o impedi.
O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor, Tarde, disse caim, Vale mais tarde que nunca, respondeu o anjo com prosápia, como se tivesse acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde, respondeu-lhe caim. O anjo resmungou, Mais um racionalista, e, como ainda não tinha terminado a missão de que havia sido encarregado, despejou o resto do recado, Eis o que mandou dizer o senhor, Já que foste capaz de fazer isto e não poupaste o teu próprio filho, juro pelo meu bom nome que te hei-de abençoar e hei-de dar-te uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu ou como as areias da praia e eles hão-de tomar posse das cidades dos seus inimigos, e mais, através dos teus descendentes se hão-de sentir abençoados todos os povos do mundo, porque tu obedeceste à minha ordem, palavra do senhor. Estas, para quem não o saiba ou finja ignorá-lo, são as contabilidades duplas do senhor, disse caim, onde uma ganhou, a outra não perdeu, fora isso não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque abraão obedeceu a uma ordem estúpida, A isso chamamos nós no céu obediência devida, disse o anjo.
Coxeando da asa direita, com um mau sabor de boca pelo fracasso da sua missão, a celestial criatura foi-se embora, abraão e o filho também já lá vão a caminho do lugar onde os esperam os criados, e agora, enquanto caim ajeita os alforges no lombo do jumento, imaginemos um diálogo entre o frustrado verdugo e a vítima salva in extremis. Perguntou isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou

TRATA-SE de um trecho divulgado pela Folha On-line de Caim, de José Saramago, recém lançado. Segundo informações dadas pelo próprio jornal, o livro questiona a tradição e valores bíblicos ao se por a narrar o período do Antigo Testamento que vai da criação ao dilúvio. Anos depois de publicar o “Evangelho segundo Jesus Cristo” e provocar indignações da ICAR, o prêmio Nobel de Literatura volta a abordar temas bíblicos e declara estar mudando mudar de postura: "As insolências reacionárias da Igreja Católica precisam ser combatidas com a insolência da inteligência viva, do bom senso, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só tem interesse no poder", afirmou. Na ocasião da publicação do “Evangelho”, Sousa Lara, na época subsecretário de estado da Cultura de Portugal, considerou o livro ofensivo para as tradições religiosas de seu povo e o fez retirar da lista para o prêmio europeu de Literatura. Eis o que o levou, talvez, a auto exilar-se de Portugal, buscando refúgio (o sossego para seu espírito literário), na ilha espanhola de Lanzarote (NPDiário.com).

Saramago tem dado afirmações um tanto polêmicas sobre a bíblia:
- "A bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana"
- "Sem a bíblia, um livro que teve muita influência em nossa cultura e até em nossa maneira de ser, os seres humanos seriam provavelmente melhores", completou.
- O romancista denunciou "um deus cruel, invejoso e insuportável, que existe apenas em nossas mentes", e afirmou que sua obra não causará problemas com a igreja católica "porque os católicos não lêem a bíblia".

Na mesma esteira, o escritor português dirige-se diretamente a Bento XVI: "Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas o [seu] absoluto cinismo intelectual". Ainda segundo Saramago, a igreja não se importa com o destino das almas e sempre buscou o controle de seus corpos.
A ICAR se manifestou: o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Marujão, chamou o livro de "operação publicitária": “Um escritor da dimensão de José Saramago deveria tomar um caminho mais sério. Pode fazer críticas, mas entrar em um gênero de ofensas não fica bem a ninguém, e muito menos a um Prêmio Nobel". A questão é determinar onde está esse limite entre a crítica e a ofensa para a ICAR, e qual a sua auto-avaliação quanto às “críticas”.

"Admito que o livro pode irritar os judeus, mas pouco me importa", afirma Saramago, ao supor que sua obra não causará problemas com a Igreja Católica "porque os católicos não lêem a Bíblia". Nesse sentido, manifesta-se também a comunidade judaica: "o mundo judeu não vai se escandalizar com os escritos de Saramago nem de ninguém", e "Saramago desconhece a Bíblia e sua exegese. Faz leituras superficiais da Bíblia", disse o rabino Elieze du Martino, representante da comunidade judaica de Lisboa. Talvez seja essa a melhor reação às provocações de Saramago, de quase indiferença.

A pior – mais exdrúxula – talvez tenha sido a reação no Parlamento Europeu. O deputado da bancada social-democrata Mário David, médico de formação, disse ter vergonha de Saramago e pediu a renúncia pelo escritor de sua cidadania portuguesa: "José Saramago, há uns anos, fez a ameaça de renunciar à cidadania portuguesa. Na altura, pensei quão ignóbil era esta atitude. Hoje, peço-lhe que a concretize... E depressa! Tenho vergonha de o ter como compatriota! Ou julga que, a coberto da liberdade de expressão, se lhe aceitam todas as imbecilidades e impropérios?". Ainda acusando Saramago de ter se deslumbrado com o Nobel, o deputado afirma que esse prêmio "não lhe confere a autoridade para vilipendiar povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece mas que definem as pessoas de bom carácter." Certamente para o nobre deputado, ateus devem ser automaticamente pessoas más. Sobre esse assunto, tem um ótimo vídeo do ateu Dráuzio Varella (médico da Globo), que dispensa qualquer devaneio meu nesse sentido:



SYLVIA COLOMBO faz aqui uma leitura no mínimo convidativa: José Saramago usa Caim para atacar Deus

Aqui, bate-rebate:
"Saramago, já chega" -
blog de Mário David
"Carta aberta ao eurodeputado Mário David" - Helder Sanchez, pelo Movimento ateísta português
"Mário David, já chega" - Blog Costa Rochosa
"Para fechar sobre Saramago" - blog de Mário David

Eis mais um trecho divulgado pela Folha, em que Saramago descreve a criação de Adão e Eva pelo Senhor, o desenvolvimento das "incomodidades do ser", a evolução dos hormônios do homem e da mulher e a geração dos seus filhos.


Quando o Senhor, também conhecido como Deus, se apercebeu de que a Adão e Eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do Éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canônica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e úmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o Senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no gênero amo-te, Eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objetivo do violento empurrão dado pelo Senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contato com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o Senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a Adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou Adão, teu primogênito, Senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou Eva, Senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o Senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, Adão disse para Eva, Vamos para a cama.
Set, o filho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gônadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver suficiente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o fiat foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, os hormônios são coisa muito complicada, não se produzem assim do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de Set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro Caim e depois Abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distrações, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do Senhor, e mesmo essas pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na floresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, Adão dizia a Eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão firme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um filho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconheça-se, já não é pequeno ganho. Quanto ao Senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se Adão e Eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste.

Informações e excertos foram retirados majoritariamente do jornal Folha de S.Paulo.

26 de outubro de 2009

“Realpolitik”



Em recente entrevista ao jornal Folha de São Paulo (10/2009), o presidente Lula fez uma afirmação de que o papel da imprensa é o de informar, não o de fiscalizar. Sua referência é aos próprios órgãos de fiscalização governamentais e, em outra instância, aos poderes legislativos e judiciários.

Ao passo que o poder político é dado pelo povo em sistema de representatividade (considerando a sua fragilidade), e as instâncias jurídicas e policiais passam pela admissão pública (que está em jogo o perfil de profissional que a res publica precisa), a imprensa está livre dessa legitimação pública, exceto pelo valor de mercado. Ou seja: ainda que possa haver distorções, em princípio no estado democrático os três poderes passam (direta ou indiretamente) por uma legitimação pública; o chamado quarto poder, a mídia, não. E ela está na nossa vida, nos ditando modelos e opiniões, ainda que não queiramos pagar por ela: basta ligar a televisão no horário do almoço ou do jantar.

E quem dá essa legitimação de poder à imprensa? Não me refiro aos espectadores, essa massa bovina e acrítica que somos levados a ser; mas a quem a financia. Lendo a ótima entrevista do delegado Protógenes Queirós à Carta Capital (dez/2008), ao se referir ao caso Daniel Dantas, ele cita Marx no seguinte comentário:

Daniel Dantas representa um poder ainda invisível. É visível à medida que começamos a aprofundar a investigação. Ou até num debate público, aí as pessoas começam a se revelar. Marx dizia “os quadros da sociedade começam a se revelar através de um processo público em que as pessoas se posicionam”. Alguns com um ideal, outros com outro ideal. Às vezes me dizem “estão criticando a Satiagraha, a verdade é que foi um sucesso, pautou-se pela lei, pelas regras do direito penal brasileiro, pela Lei de Crimes Contra o Sistema Financeiro Brasileiro. Tanto que vamos ter uma condenação em breve. Significa que o resultado das investigações foi legal.

Posicionamento: é ao se posicionar (ou não!) que se desvelam os jogos de interesse. Ideologia: não é restrita à posição explicitamente política, mas subordina o modo como que as pessoas vêem o mundo. Ou seja, nossa ideologia se revela perante nossa posição em relação ao mundo. Mas os interesses podem vir a ser reais ou manipulados (agora sim, me refiro aos espectadores, essa massa bovina e acrítica que somos levados a ser). Talvez esteja aí o real sentido da afirmação de que a religião, para Marx, é o ópio do povo. Talvez fosse no contexto e história européias; talvez, hoje, século XXI, o ópio do povo sejam os meios de comunicação, informação e entretenimento de massa. Será que não?

Acima, um vídeo no mínimo, interessante: um espaço de debate entre jornalistas globais. Ao invés de dar notícias com ares de imparcialidade, em que fica claro o desejo de passar por factual o que é de natureza opinativa, eles estão colocando as cartas na mesa, ou seja, revelando a sua posição. Ideológica.

24 de outubro de 2009

Não se fume!

Sou levado a ser favorável à proposta de coibir o fumo em ambientes fechados. E não é uma coisa de opção do estabelecimento, oferta de alternativas ao fumante ou criação de espaços alternativos, como há hoje. Pois, ainda que haja a área de fumantes e de não-fumantes em um estabelecimento comercial, por exemplo, o trabalhador do local (imaginemos um garçom) transita por todas as áreas e não têm voz nesse debate.

Tenho visto um esforço em potilizar esse debate: primeiro, o fato de ter sido o governo tucano de São Paulo a ter proposto essa medida. Dessa forma, estaria em jogo uma falsa dicotomia entre a direita “saudável” e a esquerda “fumante”. As coisas não podem ser colocadas dessa forma, pois tornaria o debate muito raso. De outra forma, haveria uma “perseguição” ao fumante, como que criminalizando o ato de fumar. E, aproximando essa discussão à da legalização de drogas, estaria em debate a autonomia do sujeito sobre o próprio corpo.

É claro para mim que a restrição ao uso de drogas (ressalta-se: lícitas e ilícitas) passa pela liberdade individual e o conseqüente risco à saúde e vida de outras pessoas. E quem teria autoridade para intervir nesses tênues limites da liberdade individual é o estado. Se há os que querem a liberdade de fumar, há os que querem a liberdade de não fumar passivamente. E, reitero: não se trata de uma simples separação de espaços, pois há os que transitam entre os ambientes sem poder intervir.

Penso inclusive que o foco da lei está no fumante, ao passo que deveria estar no processo de fabricação dos cigarros. Afinal, o processo de plantio e colheita de fumo são altamente prejudiciais aos agricultores, sobretudo ao considerarmos que a origem dessas folhas são frequentemente da agricultura familiar; ou seja, está em jogo a exposição de crianças aos malefícios da produção do fumo.

Logicamente que se trata de questões delicadas a esse respeito. Se o estado tem esse poder para intervir nas escolhas do sujeito? Cabe considerar como outros países já trataram desse assunto e a que resultados chegaram. Em jogo deve estar o exercício da alteridade e da tolerância, para se conseguir um debate frutífero. Enquanto isso, confiram acima a campanha (supercriativa) que está sendo veiculada na ULBRA TV.

22 de outubro de 2009

Simon, ¿por qué no te callas?

Essa imagem e texto são parte da capa do jornal O Sul, data de hoje. Nela, está estampada a tentativa de azedar as relações entre PT e PMDB. Que o PMDB representa muito da política retrógrada do país e do nosso estado, isso é fato. Porém, o PMDB não se reduz a isso: hoje o PMDB é o maior partido do Brasil porque é um enorme saco de gatos, ou seja, tem de tudo. Além do mais, o PMDB tem sempre jogado com quem está ganhando, fruto de um projeto de nação frágil, que não permite com que se tenha consolidada uma unidade partidária nacional.

No entanto, a parceria PMDB e PT tem funcionado nos altos escalões do governo. A dimensão do PMDB tem dado a governabilidade que o PT precisa. Porém, em virtude da heterogeneidade ideológica (ou de
interésses?) do PMDB, não há consonância entre a direção nacional e a thurma do Simon e do Quércia. O país está no rumo certo, embora haja muito ainda por fazer. E, de opções consideráveis a serem a continuidade do Governo Lula e o impedimento do retorno tucano, a união entre PT e a direção nacional do PMDB está se mostrando válida. Porque agourar esse casamento à la William Blake, senador Simon? ¿Por qué no te callas?

E o senador se calou. Não lá no âmbito nacional, onde ele insiste em posar de paladino da ética e faz o joguinho da mídia que lhe convém. Ele se calou a respeito do apoio do PMDB gaúcho, que apóia o governo Yeda. Ele se calou a respeito da própria Yeda, que vem cada vez mais se afundando em sua própria incapacidade de transparência. Tenho pavor da mediocridade a que chega um colunista como o Paulo Sant'Anna, mas tive que concordar com o seu raciocínio de ontem, que reconhece que o processo de impeachment de Yeda não teria continuidade por provas, indícios ou insuficiência delas, mas pelo número de deputados que estão na base aliada. Apesar de fazer uma infeliz comparação com Lula, Sant'Anna explicita a total falta de compromisso dos deputados da situação em querer tornar transparente a crise política do estado.

O PMDB gaúcho está no centro disso: aliás, como o ilustre deputado Alceu Moreira poderia votar contra os interesses da governadora, se foi justamente ele o responsável pelo projeto de aumento de 143% do salário da governadora?


Enfim: vejo com bons olhos a candidatura de Ciro Gomes à Presidência. Para a esquerda que não se sentisse bem em votar no PMDB de vice da Dilma, o voto no bloquinho (PSB, PDT e PCdoB) seria uma alternativa no campo da situação. Apesar de ser uma figura controversa, uma canditadura de Ciro seria em termos simbólicos (como foi a eleição do ex-sindicalista Lula) uma chance ímpar de um partido Socialista chegar ao governo (ao menos, o partido de intitula assim!).

De mais a mais, conversando com o seu Ruben por esses dias, entre idéias e idéias, ele deixou uma pergunta no ar, que retomo agora: se há limites para reeleição de cargos executivos, porque não se limita também a reeleição de senadores, deputados e vereadores?