literatura, política, cultura e comportamento.
seja em santa maria, em alegrete, no rio de janeiro, em osório ou em liechtenstein.
na verdade, tanto faz.
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2 de abril de 2011

Conjecturas nada estáveis I



"[O materialista histórico] extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos" (BENJAMIN, 1987, p.231).

Para que se possa compreender uma determinada época, ao invés de se adotar uma perspectiva “historicista”, de fundamento positivista, convém ser mais adequada uma postura que privilegie as manifestações ideológicas de cada momento histórico, compreendendo as suas oposições, intersecções e contradições. As próprias manifestações ideológicas não são estanques, pois são ressignificadas às variáveis de tempo, espaço, condição socioeconômica, cultural, racial, de gênero, etc.

A soma de tais variáveis é o que permite o exercício do materialista histórico em compreender uma determinada realidade e as perspectivas ideológicas que estejam em jogo. Não esquecendo que ele próprio – o sujeito que se propõe a realizar o exercício de análise – a realiza sob uma perspectiva ideológica, seja consciente ou não, e que essa perspectiva não é harmônica, mas está em tensão com outras perspectivas ideológicas, hegemônicas ou emergentes em determinados campos sociais.

Tenho em vista, por exemplo, que, ao me propor a analisar a dimensão ideológica dos últimos textos de Marguerite Duras, publicados nos anos 90, devo considerar os posicionamentos que a sua escrita carrega – não diretamente, mas possivelmente como palimpsestos – frente a momentos históricos e vivências pessoais, como as políticas do império francês frente à colônia no oriente e o modo como tal circunstância histórica foi compreendida pela escritora a partir da sua vivência na infância, a sua participação na resistência francesa ao nazismo durante a segunda guerra e como essa experiência foi assimilada na sua escrita, bem como o engajamento e a decepção com o PCF, entre outras circunstâncias tematizadas diretamente ou tangencialmente pelo conjunto de sua obra.

Mas também devo ter em vista – embora não esteja entre os objetivos da pesquisa – as circunstâncias que fazem com que um jovem pesquisador em seus vinte e poucos anos, oriundo do sul do Brasil, através de várias experiências pessoais que fazem com que eu me constitua como sujeito de uma época e ao mesmo tempo singular, me interesse pelos textos de Marguerite Duras, e que sentidos são produzidos ao se ressignificar (pelo simples ato de leitura) uma obra produzida em diferentes circunstâncias históricas, geográficas, culturais, etc. Ou seja: devo ter em vista que o próprio discurso sobre outro discurso também traz consigo perspectivas ideológicas, seja em embate ou confluência entre si, ao mesmo tempo em que devo considerar que, inevitavelmente, todo o discurso se funda sob outros discursos.

19 de janeiro de 2011

Gláuber Rocha - A Eztetyka da Fome [1965]





















9 de outubro de 2010

Osso duro de roer



Tropa de Elite 2 permite-se inicialmente a uma leitura superficial que aponta para a desmoralização ética do sistema de segurança pública e da política. Em outras palavras, todos estariam corrompidos, e agindo no poder público para benefício próprio com objetivos financeiros e eleitorais. Outra leitura superficial seria relacionar em imediato os acontecimentos da narrativa com o contexto eleitoral.

O fato de o filme ser lançado no contexto eleitoral permite uma comparação imediata com a realidade atualíssima, considerando-se a reeleição do governador e as políticas das unidades de polícia pacificadora. Ora, o filme vem sendo produzido desde o ano passado, e seria leviano considerá-lo como um reflexo da realidade (o filme não foi feito semana passada!).

Chamamos a atenção para a crítica sobre a esquerda que o Nascimento faz ao início do filme, que se modifica ao final, quando ele percebe que o deputado Fraga, na luta pelos direitos humanos, está do mesmo seu lado contra o sistema. Se o Fraga havia se utilizado do caso de Bangu I para se promover politicamente, outros haviam se utilizado da estrutura corrompida do sistema.  Há legitimidade do processo eleitoral, e não há o nivelamento político: pelo contrário, a narrativa do filme deixa claro que todos tomam partido, seja por valores humanitários, seja por interesses eleitoreiros e financeiros.

Ao fim do filme, é lançada toda a responsabilidade em nós, eleitores, tanto no que se refere à ação e financiamento das milícias, quanto de quem elege políticos comprometidos com o sistema que favorece as milícias. O filme é muito bom, e merece uma conclusão crítica pautada nos detalhes dos movimentos do enredo.

28 de julho de 2010

Jornal de Artes: igual a um sobre o nourrau

O seguinte texto foi publicado originalmente na edição de dezembro de 2009 no Jornal de Artes, organizado pelos amigos Clauveci Muruci e seu filho, Maurício. Passado um tempo, resolvi divulgá-lo também no blog.

A posição social do ator é única: é um gesto de alteridade. A ele, e mais a nenhum outro papel social, cabe colocar-se no lugar do outro. Estamos falando de representação, mas, sobre tudo, um gesto de despersonalização em nome de outrem. Pelo próprio corpo e pela própria voz o ator conduz esse outro com o seu próprio eu.

Ao falar de representação, talvez pudéssemos estender o gesto de alteridade ao artista de modo geral. Afinal, desde Platão a representação é tomada como assumir a voz de alguém que lhe é diferente. Assim, o poeta, o ficcionista e o pintor também estariam sendo levados pelo gesto de despersonalização para dar voz ao outro. No entanto, o artista de modo geral pode “representar”, ainda que não abra mão de si próprio. O pintor pode pintar o que lhe convier e do modo que lhe convier, de forma que possamos identificar sua postura em relação à arte e à sociedade através de suas escolhas para a composição final; assim também sucede ao escritor, em que não é necessário abrir mão de seu orgulho, de seu amor próprio, conquanto que a escrita lhe seja um meio de ascensão e não um gesto de amor, de apagamento de si próprio. O processo de escrita pode se tornar um gesto de amor, mas de modo geral: o escritor se apaga em prol da materialização da escrita como um monumento, que se emancipa do próprio escritor e sobrevive a ele, e fica à disposição de quem se interessar. Correndo o risco de ser como uma velha estátua de praça pública, quando ignoramos quem seja o homenageado; pode-se não ter interesse.

Não que o ator não passe pelo mesmo processo. As suas opções passam pela seleção do tema e do texto – ainda que possamos não ter falas ou ter atuações sob improviso, ainda há ao menos um texto anterior e mínimo que dê coerência a um roteiro – além do próprio modo de conceber a representação cênica e materializá-la no seu desempenho de uma personagem: o seu modo de conceber a arte e a sociedade está em jogo. A relação do teatro com o público é, antes de tudo, necessária pois é imediata: sem público não há espetáculo e não há ator. Já dizia Peter Brook, que no momento que colocamos uma pessoa a caminhar e outra a observá-la, já estamos tocando a base do teatro, ou seja, o contato do artista com o público. O escritor, o pintor e o cineasta podem vir a materializar um objeto artístico alheios a um público, podendo ser reconhecidos anos após a morte, ou nunca. Mas o objeto – o livro, a tela, a escultura, o filme – estão lá, ao alcance de quem queira apreciar. O ator precisa do reconhecimento na efemeridade da sua existência para ter público, para ter espetáculo, para ser ator.

No entanto, a posição social que a representação do ator exerce se diferencia de outros artistas: o exercício de alteridade não é uma opção, é da própria essência do ator. É inerente à sua arte colocar-se no lugar de um outro, assumir-lhe o modo de ver o mundo e seus anseios, e transmiti-lo a um público. Ser um outro, no período de um espetáculo: viver na pele, deixar ser tomado por uma outra existência que não a sua. O glamour que a profissão possui hoje se torna uma força contrária à própria essência do ator: pois a necessidade de ter um nome reconhecido como celebridade pode sobrepujar justamente a sua despersonalização. É direcionar o seu próprio trabalho para que, antes de o público ver a personagem, veja o sujeito que a interpreta. Mas apenas o reconhecimento não faz o artista; se a essência da dramaturgia consiste em materializar no aqui e agora uma existência que nos é alheia, não há arte, mas há puro produto comercial, se não somos levados a ignorar – ainda que pelo momento da peça – a existência pessoal do profissional que atua em detrimento do universo ficcional que justifica o espetáculo.

O que aprende o ator com sua personagem? O que tem de diferente e semelhante a si? Perguntinhas banalizadas em programas de entrevista, mas importantes de serem tomadas de forma mais ampla. É necessário tomarmos para nós a relação que existe entre o ator e o outro, sua personagem. Através do diferente, não se trata de apenas marcar a diferença, mas equilibrar as semelhanças para que o público possa identificar-se e ser tomado pela proposta da peça. Ainda que seja um universo exótico ou fantasioso, estão em jogo as relações e as reações humanas. Por isso é necessário tolerar e conviver com a diferença, enxergando-nos como parte de um mesmo corpo social, e parte da mesma humanidade.

É tão difícil fechar os olhos aos nossos interesses, ainda que por instantes, para compreender a posição do outro... A despersonalização é um gesto de amor: o que ama está disposto a sacrificar a sua própria constituição enquanto sujeito pelo ser amado, como as relações entre pais e filhos, companheiros conjugais e amigos nos ensinam isso. Abrir mão de si próprio: o próprio cristianismo nos ensina isso, mas embora nossa sociedade ocidental tenha sido modelada por sua religiosidade, são-nos apagados - a partir de interesses históricos - certos valores como a alteridade. Amamo-nos aos outros como a nós mesmos? Somos capazes de um amor pleno e universal para com o outro? A arte, de forma geral, é e precisa reconhecer que sua essência precisa ser e é, sobretudo, um gesto de amor ao próximo.


Post-Scriptum: Agradeço a colaboração do amigo e ator Maico Silveira para a composição dessas reflexões.

6 de novembro de 2009

Poemas para serem relidos - Manuel Bandeira

Ainda hoje escrevi para um amigo palavras que me perturbaram. Eu dizia-lhe: "são nesses momentos de fragilidade do homem que nos perguntamos o que é a vida e qual o seu objetivo. Pela fragilidade do homem nos colocamos a pensar a nossa própria vida, como homens que somos, de trajetos incertos mas de destino único". Ainda acrescentei: "pessoas, lugares e momentos constituem a nossa história e nos fazem ser o que somos hoje: quando esses elementos que nos constituem faltam, é como se partes de nós mesmos tivessem se perdido para o sempre".
Na tentativa de expurgação de meus demônios interiores, resolvi postar esses poemas de Bandeira.
Por não querer vincular o amigo ao assunto, evitei referi-lo.
E a foto acima é de Carlos Orellana.

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Momento Num Café


Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta

(BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000).

19 de outubro de 2009

Além do que se vê


Esse ano de 2009 a União da Juventude Socialista - UJS - comemora os seus 25 anos de lutas e conquistas. Embora eu não seja filiado, sou próximo e simpático à UJS.

Esse lema que intitula a postagem embalou, pela musica de Los Hermanos, o congresso de 2006 da UJS, ano da reeleição do Presidente Lula. Pois ao passo que defende o socialismo, a entidade compreende justamente que "a estrada está além do que se vê": a sociedade que desejamos não virá de forma fácil ou imediata, mas como fruto do engajamento e da luta social. E o apoio ao governo Lula se mostrou como uma compreensão da conjuntura política que, embora possa reconheça seus problemas e limites, ainda assim analisa dialeticamente o panorama político e histórico, e considera mais importante os avanços que os oito anos de governo do PT representam.


Em meio às comemorações de 25 anos da UJS e a eleição da Diretoria Estadual, o nosso amigo Igor de Fato ofereceu um texto intitulado "Uma Moça com a cara do Novo Brasil", encontrado aqui. Entre conversas de botequim, ele me questionou sobre o fato de terem se referido ao seu texto como uma poesia. Afinal, uma poesia é apresentada, de modo geral, pela sua constituição em versos
(o que de fato não corresponde ao seu texto). Ora, deixemos os aspectos formais por ora em suspenso (para os quais se adequariam melhor a expressão "poema"), e consideremos a poesia como arte do encantamento do espírito por intermédio do uso da palavra. Não se trata de uma forma de esgotar um conceito (longe disso), mas de adequá-lo (ainda que de forma não aprofundada) ao seu uso corrente. Assim, à metáfora da moça, pelo seu uso através da busca de um efeito de sensibilidade, poderemos sim vê-la como uma expressão poética: por que não?

Resolvido o problema acerca da poesia? Não, assim como o caminho até o socialismo. Não desanimemos, pois o trajeto é longo. E a estrada? Ah, essa vai além do que se vê...

Além do que se vê - Los Hermanos

12 de outubro de 2009

Intermezzo III

Show antológico gravado em 18 de outubro de 1978 em Milão, na Itália, com o maestro Tom Jobim e o poeta Vinícius de Moraes, acompanhados pelo violão de Toquinho e pela voz de Miúcha.































9 de outubro de 2009

Da materialidade da Literatura


A prática de ensino de Literatura, tanto na universidade quanto em outros níveis do ensino, tem apontado o nosso distanciamento do objeto livro. The book isn’t else on the table. A facilidade e praticidade das fotocópias ou montagens que contém fragmentos de obras ou textos curtos servem a fins didáticos; mas, se a literatura se faz de livros publicados (e cabe aqui o questionamento), quanto o laboratório de distingue da realidade? Que implicações há em negar o suporte próprio da Literatura no processo de leitura?

Entre essas e outras perguntas, propus em uma aula no Pré-Vestibular Popular Alternativa uma atividade que priorizasse o contato com livros. Afim de esclarecimentos: esse projeto que comemora 10 anos é um dos espaços de inclusão da universidade voltado para a comunidade santa-mariense que não tem condições econômicas de arcar com a preparação para o vestibular. A coordenação do projeto e as aulas são por conta e organização de alunos voluntários das universidades da cidade, com o suporte institucional e financeiro da Pró-Reitoria de Extensão da UFSM.

Desde 2004 tenho a oportunidade de trabalhar no Alternativa ministrando aulas, sobretudo de Literatura Brasileira. Depois de uma pausa de dois anos em virtude da dedicação ao mestrado, retornei à sala de aula, inicialmente em parceria com a Profª Priscila do Prado. Para esse ano, delineamos a disciplina privilegiando em um primeiro momento a poesia para, só depois, dedicarmo-nos à prosa.

(As leituras indicadas para a prova de Literatura Brasileira
do vestibular 2010 da UFSM podem ser encontradas
aqui)


Enfim: em meio às reflexões propiciadas pela abordagem à poesia moderna brasileira, principalmente no questionamento aos limites da “arte” e sua aproximação com a “vida”, propus uma atividade que estimulasse o contato com os livros. Mas, longe de levar autores consagrados em re-re-reedições atualizadas revisitadas remasterizadas, levei-lhes alguns livros de poemas que tinha em casa, de poetas de diferentes gerações e mais ou menos conhecidos em seus sub-sistemas literários.

Dei a oportunidade que escolhessem, em duplas ou trios, um livro a julgar pela capa, textura, bitola e título. E assim eles teriam que verificar informações no livro sobre o autor e suas obras, ler alguns poemas e destacar elementos que lhes pudessem chamar atenção. Considerando-se a variável de interesse, a atividade de uma forma geral foi muito satisfatória: mãos manipulavam livros e liam com os dedos, redescobrindo os poemas em uma unidade produtora de sentido, ao lado de outros poemas e de cores e imagens e formatos.

* * *

Alguns livros foram mais bem aceitos do que outros. Obviamente destacarei os que tiveram destaque positivo.

O poeta que assume uma relação intensa e ambígua com Brasília, Nicolas Behr, teve uma ótima receptividade. Vinde a mim as palavrinhas (2005) é uma compilação de textos publicados mimeografados pelo autor, à margem do mercado editorial, que visualmente destaca-se pelas fontes que remetem às máquinas de escrever. Assim também é Braxília Revisitada (2005), cujos poemas-piada retomam a lírica de Oswald de Andrade, os alunos estimularam-se pela leitura e seus jogos de linguagem e de sentido:

DAS DUAS UMA

ou tiro sai
pela culatra
ou sai
pela nuca
de grão em grão
a galinha
enche o papo
de palavra em palavra de palavra
em palavra de palavra em palavra
de palavra em palavra de palavra
em palavra de palavra em palavra
de palavra em palavra de palavra
este poema enche o saco


(Nicolas Behr, Vinde a mim as palavrinhas)

alô? eu queria falar com
a substituta da assistente da
secretária da coordenadoria

da secretaria da assessoria
da chefia da procuradoria da
defensoria da corregedoria
da ouvidoria da dona maria
que está na portaria.
ah, saiu? não volta mais hoje...

no princípio era a lama
a lama virou cama
a cama virou câmara

onde eles legislam
deitam e rolam

(Nicolas Behr, Braxília revisitada vol.1)

Outro poeta que despertou o interesse dos alunos foi Delalves Costa, a partir de Coisas que faltam em mim (2006) e Considerações pre-maturas & outras ausências (2008). Alunos surpreenderam-se com a informação de que há jovens poetas gaúchos publicando atualmente, o que propiciou um debate acerca
das instituições legitimadoras da Literatura. Afinal, cada vez mais temos mais leitores e, por outro lado, mais escritores disputando um lugar ao sol: como professor, formador de opinião, não nego (e nem devo negar) o meu papel como (uma) instância legitimadora. Com essa atividade amplio o conhecimento dos alunos em relação à textos e escritores (até então ignorados pelos alunos), o que me concede estender, pouco a pouco, os limites da Literatura.

Em Coisas que faltam em mim, os sentidos dos poemas estarão em jogo com o próprio formato inusitado do livro: a capa é um envelope, no qual temos as páginas dos poemas soltas, como cartões da sorte para serem lidos aleatóriamente. A unidade e a linearidade do livro faltam, o que dilacera a posição do sujeito-lírico à procura de si, das ausências e do indizível. É preciso portanto descobrir-se e redescobrir a própria poesia no instante ou na temática surpreendente, como acontece também em Considerações Pre-Maturas & Outras Ausências. O cotidiano apresenta a sua poesia pelo olhar do poeta em busca do que lhe é ausente ou indizível:

O TÁXI

E assim... de malas prontas
me olhava como se escrevesse
uma carla a la canhoto
(ainda que minha, palpitasse!)...
Com o olhar pequeno
à procura de voz
à procura de nós
à procura de fantasmas
para levá-la ao táxi!...
De um homem deveras gentil
que lhe abrisse a porta,
de um romântico
que lhe desse o beijo!
Enfim!... De última hora
à espera de alguém
para desfazer suas malas
apenas com um "não se vá!"...
Mas o táxi sinalizou à direita
e logo à esquerda
me levando... me levando...
te levando e se foi!...

(Delalves Costa, Considerações Pre-Maturas & Outras Ausências)


COISAS QUE FALTAM EM MIM

Faltam ruas, sobro em disfarces.
Eu sei. São infindáveis
Os caminhos a seguir.

Mas vou disfarçando sem pressa
Para não sentir em minhas ausências
As coisas que faltam em mim.

(Delalves Costa, Coisas que faltam em mim)

Por fim, destaco ainda


* * *

a

[postagem inconclusa]

4 de outubro de 2009

Intermezzo II



Si Se Calla El Cantor
Mercedes Sosa
Composição: Horacio Guarany

Si se calla el cantor calla la vida
porque la vida, la vida misma es todo un canto
si se calla el cantor, muere de espanto
la esperanza, la luz y la alegría.

Si se calla el cantor se quedan solos
los humildes gorriones de los diarios,
los obreros del puerto se persignan
quién habrá de luchar por su salario.

'Que ha de ser de la vida si el que canta
no levanta su voz en las tribunas
por el que sufre, por el que no hay
ninguna razón que lo condene a andar sin manta'

Si se calla el cantor muere la rosa
de que sirve la rosa sin el canto
debe el canto ser luz sobre los campos
iluminando siempre a los de abajo.

Que no calle el cantor porque el silencio
cobarde apaña la maldad que oprime,
no saben los cantores de agachadas
no callarán jamás de frente al crimén.

'Que se levanten todas las banderas
cuando el cantor se plante con su grito
que mil guitarras desangren en la noche
una inmortal canción al infinito'.

Si se calla el cantor . . . calla la vida.

29 de setembro de 2009

Religiosidade

"São Miguel Arcanjo," 1615, por Luis Juarez, México. Óleo em madeira - 67-3⁄4 x 60-1⁄4, Museu Nacional de Arte/INBA, Cidade do México.

Estava hoje pela manhã levando o Miguelzinho para a creche, caminhando de mãos dadas sob o sol, quando ao nosso lado uma senhora surgiu tecendo elogios ao menino, comparando-o a um anjinho. Ao responder qual era o nome dele, essa senhora perguntou se ele fazia aniversário, pois é dia de São Miguel Arcanjo. Revelei que ele não era aniversariante, e confessei que não sabia da data do santo anjo. E assim ela começou a falar da hierarquia entre anjos e arcanjos, e da importância de Miguel, Gabriel e Rafael para o projeto divino. Como também conheço as passagens bíblicas, complementava a conversa.

(Pausa para falar da minha posição a respeito da religião: Não me considero um ateu, embora cada vez mais me seja difícil a crença no sistema cristão, que reproduz no além o modelo de sociedade terrena. Pois bem: o ateu (generalizando) desdenha a religião justificando-se no acaso e apegando-se à ciência. Ora, isso tende a transformar o Acaso em entidade demiúrgica, e o discurso científico em dogma. Ou seja, me é insuficiente. O fato de não me apegar à idéia da existência de deus não quer dizer que também duvide da sua existência. O mundo não se resumiria apenas ao que é visível, ou se uma forma geral, perceptível aos sentidos: haverá uma parte visível e outra invisível, uma concreta e passível de racionalização, e outra para qual predomina o mistério. E, sendo mistério, me é impossível seguir adiante e tentar revelá-lo. O inexplicável deve manter-se inexplicável, não como alienação, mas como forma de fugir das tentativas de explicar o que é inexplicável, sob o perigo de cair em representações frágeis, insinceras e manipuláveis. Se confuso? Confesso que estas não são posições estanques e de modo algum definitivas, e por vezes contraditórias. E lógico que a minha formação católica por vezes fala mais alto. Como fruto desses valores, que revelam quem sou, apagar a minha formação seria apagar parte de mim próprio e de minha história).

Assim, essa senhora falava da importância de Gabriel como arcanjo anunciador, Rafael como arcanjo responsável pela cura (sempre gostei do livro de Tobias) e Miguel como o arcanjo guerreiro. Assim, como é próprio do discurso místico-religioso, ela trazia esses significados em torno do homônimo de meu filho para o seu futuro. Por mais que se acredite ou não nessas abordagens, deve-se considerar sobretudo que elas revelam um tal grau de simpatia, que é capaz de transmitir afeição gratuita a desconhecidos. Gosto disso.

Até que, próximo à esquina em que seguiríamos caminhos diferentes (a encruzilhada, sempre significativa) ela reiterou que o nome do Miguel não era gratuito. E a ele estaria previsto o papel de instrumento de paz nesse mundo no qual se está perdendo valores. Nesse momento minha resposta foi o mais sincera possível; não que não eu tivesse sido sincero antes, mas a minha busca maior sobre perguntas do que sobre respostas me encabula diante de tamanhas convicções religiosas. Respondi-lhe que sim, que ele haveria de ser um instrumento de paz, como cada um de nós é: todos nós temos responsabilidades sobre o mundo que moldamos. Ela concordou. E eu deixei marcada com isso a minha posição política.

18 de agosto de 2009

"Quem disse que a literatura não incomoda mais?" (2)

Começo essa postagem considerando um desafio que meu cunhado me propôs: conhecer livros de José Sarney. E terminarei propondo um outro desafio a nós todos.

Sarney (PMDB-AP) não é senador pelo Maranhão. No Amapá ele consegue eleger-se senador com 152.486 votos, o que representa 53,87% dos votos válidos. A título de comparação, Passo Fundo – RS tem 183.300 habitantes (2007). Além de ser tudo isso que há mais de 50 anos todo mundo sabe que ele é (mas só agora o tucanato e demos descobriram, depois de apoiar a sua eleição para a presidência do senado, derrotando o candidato Tião Vianna do PT-AC. E quem é o suplente da vaga de Sarney na presidência, hein? Hein?), é o atual membro mais antigo da Academia Brasileira de Letras. José Sarney ingressou no universo literário com um livro de poemas em 1952. Também é autor de contos, crônicas, e romances, e foi eleito para a ABL em 1980.

Você já leu algum livro de Sarney? Eu confesso que ainda não. Mas lerei, respondendo ao desafio do meu cunhado e à minha curiosidade. Afinal, temos muitos nomes importantes na ABL hoje. Essa instituição apresenta-se, no artigo primeiro de seu estatuto como: "Art. 1º - A Academia Brasileira de Letras, com sede no Rio de Janeiro, tem por fim a cultura da língua e da literatura nacional, e funcionará de acordo com as normas estabelecidas em seu Regimento Interno" (ou será pôr fim?). Espero que, em caso de extinção da Academia (como previsto no artigo 9º) ainda possamos ter acesso a cultura de língua e literatura do Brasil. Porém, me chama mais atenção a respeito da ABL não são os Highlanders que por lá passaram (por favor, ninguém tente cortar a cabeça do Paulo Coelho!), mas justamente os que não passaram: ou é possível falar em Literatura Brasileira e não ter como referências à história da nossa cultura da língua e da literatura escritores como Lima Barreto, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Clarisse Lispector, Érico Veríssimo, Vinícius de Morais ou Mário Quintana? Que critérios afinal são esses para (como diria Olavo Bilac), separar os latoeiros dos ourives? Afinal: para que serve a Academia Brasileira de Letras? Para tomar chá?

Comecei o texto fazendo referência ao desafio do cunhado. Pois bem: entre divagações literárias, encontramo-nos julgando uma obra que não tínhamos lido. De fato, eu já havia despertado certa curiosidade pela literatura “sarneydiana”, mas ainda não tomei iniciativa alguma em ler os livros.

Mas, considerando a última novidade, como poderei (e poderão) culpar-me em divagar sobre livros que não li?

A novidade? Fernando Collor de Mello, ex-governador das Alagoas, ex-presidente da República e escorraçado do Planalto, atual senador pelas Alagoas (na vaga deixada por Heloísa
Helena – Psol) e empresário da Organização Arnon de Mello (um dos maiores complexos na área das comunicações do Norte-Nordeste do Brasil, composta por Rádios, Emissora de TV, Jornal, instituto de pesquisa, entre outros. [...] As suas rádios são as mais ouvidas no estado, a sua Emissora Televisiva foi a primeira a transmitir em cores para Alagoas e seu jornal é o mais lido) é pleiteado a ingressar na Academia Alagoana de Letras. Sem concorrentes. E sem algum livro publicado.

A Academia Alagoana de Letras existe desde 1919. Assim como a ABL, tem 40 cadeiras, que homenageiam ilustres alagoanos falecidos. No site da AAL senti falta de alguma
lista que fizesse referência aos que são e já pertenceram a essa Academia. Obriguei-me a recorrer à Wikipédia, para descobrir que nomes ilustres a comporem a história da AAL passam por Lêdo Ivo e Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira. Mas não consegui dados suficientes para saber se Jorge de Lima, Graciliano Ramos, Djavan ou Zagallo também fizeram parte da Academia Alagoana. E agora querem que Collor entre para a nata dos ourives das letras alagoanas. Sem concorrentes. E sem algum livro publicado.

Não sei se o estatuto da AAL segue o modelo da ABL. Mas, no estatuto da Academia Brasileira encontramos o seguinte artigo: "Art. 2º - Só podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário. As mesmas condições, menos a de nacionalidade, exigem-se para os membros correspondentes." As questões de valor literário e reconhecido mérito devem ser deixadas, ao menos por enquanto, de lado. Mas e a publicação de "qualquer dos gêneros da literatura"? Lógico que cabe a pergunta cabal: o que é literatura? E que conceito as Academias Brasileira e Alagoana de Letras utilizam?

Por exemplo: Getúlio Vargas foi membro da Academia tendo publicado apenas discursos. A bibliografia de Santos Dumont nem consta no site da ABL. Roberto Marinho publicou "Uma trajetória liberal" em 1992, e foi empossado na ABL em 1993. Se a regra é não ter regra, nenhum problema em Fernando Collor ingressar na AAL.

Diz Ivan Barros - escritor, jornalista e imortal - ao Tribuna do Sertão: “Ele [Collor] pode ter concorrente, alguns colegas acadêmicos podem receber pressões, mas a verdade é que tem dotes intelectuais de grande valia. Sua pretensão é modesta: apenas conviver mais intensamente com os amigos acadêmicos, razão pela qual não hesitarei em dar o meu voto e apoio. Depois a Academia Alagoana de Letras, que tem como presidente Fernando Iório (grande amigo de Collor), não pode privar-se de um homem de grande valor. Depois disso, Collor está ligado a Academia Alagoana pelo coração e pelo espírito. Seu pai, Arnon pertenceu aos quadros da Academia”.
Segundo a IstoÉ, também o poeta Lêdo Ivo, membro da Academia Brasileira de Letras, (ABL) defende a imortalidade de Collor: "Ele preenche as condições. É autor de vários discursos, vai lançar um livro. Espero que entre, depois, para a ABL", disse.

Para se candidatar à almejada vaga de imortal da AAL, Fernando Collor teria apresentado uma coletânea dos seus discursos e artigos sobre os mais
variados temas, e a pretensão de publicar "A crônica de um golpe", que retratará a sua visão sobre o processo de impeachtment. Pois é. Se ao menos esperassem ele publicar o tal livro. Nem precisariam ler, haja vista a situação; mas não seria tão escrachado. Fica agora o desafio que proponho: lermos a famigerada literatura do imortal Fernando Collor.

Agradecimento Post-Scriptum: para essa postagem tive a colaboração do amigo Crazy Water do Interior.

19 de julho de 2009

Músicas Anos 70

Estava procurando músicas dos anos 70 para ouvir... Eu que montei essa seleção; o que você acha que faltou? Opine...


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Vamos não falar de futebol hoje...

7 de julho de 2009

De volta para o futuro...


Os anos 70/80 são marcados por visões futurísticas. Inconfundíveis os figurinos de ABBA em Waterloo, do desenho dos X-Man, de Michael Jackson em Thriller e do Xou da Xuxa. São texturas plásticas, de apelo espacial, sintéticas. No caso dos cantores, lembro de certos figurinos como o de Elvis e de Freddy Mercury, assim como os de ABBA e MJ: são, sobretudo, figurinos, roupas para shows, influenciadas talvez pelo conjunto corrida espacial / cinema / sci-fi. Os desenhos e programas parecem ter sido diretamente influenciado pela constante pergunta: o que nos aguarda nos anos 2000?

Celulares, Internet, MP4, câmeras digitais... O que mais é comum hoje, mas era inimaginável no tempo da vovó?

Na verdade, essas questões me foram suscitadas ao ver os clipes abaixo.
O que é a imaginação e o fascínio que os computadores já despertavam?

Heheheheh... Com vocês, Kid Abelha e Cazuza. Divirtam-se!

"Como Eu Quero", do álbum "Seu espião", de 1984


Cazuza deixa o Barão Vermelho e lança carreira solo, em 1985


Atenção para o computador de tela verde com super efeitos... Ich... Pior é que eu cheguei a trabalhar com essas máquinas, em pleno ano 2000...

27 de junho de 2009

Hipercorreção

Quem me conhece sabe que não tenho implicância alguma com erros ortográficos. No entanto, no caso de pessoas públicas, que têm uma imagem a preservar, o caso é diferente. Apesar da maioria de nós brasileiros (é uma hipótese!) seguidamente nos depararmos com uma dúvida ou outra na hora de escrever, temos o triste hábito de menosprezar os equívocos linguísticos alheios.

(Caso mais bizarro atualmente, para mim, envolve o inglês de Joel Santana. O deboche que a mídia coloca e que vai para nas conversas de bar... Quantos têm o mesmo ou inferior nível de conhecimento do inglês que o Joel e saem por aí rindo da pronúncia do outro?...)

Enfim: essa do Luxemburgo encontrei no G1. Seria hipercorreção? Nesse caso, temos uma vaga noção de que algumas palavras que usamos no dia a dia não são escritas da mesma forma como que falamos. Podemos falar “mío”, mas sabemos que é “milho”, ou “cascaio” ao invés de “cascalho”. Ao assimilar essa “lógica gramatical” de substituir o /i/ de uma fala espontânea pelo policiamento do /λ/, pode produzir-se pérolas, como “telha de aranha”. Cláudio Moreno traz um outro exemplo: o /l/ pelo /r/, como em "carça", "sordado", "marvada" em lugar de “calça”, “soldado” e “malvada”. Na tentativa de se corrigir, quem antes falasse “disfarça” e “armário”, poderia exagerar no anseio de se corrigir e largar um "disfalça" ou "almário".

Esse fenômeno costuma aparecer onde a cultura linguística, popular e espontânea choca-se com uma outra manifestação linguística que tenha um maior respaldo. Imaginemos, por exemplo, alguma comunidade de interior que, acompanhando uma telenovela, percebe a pronúncia utilizada de certos vocábulos como diferente da sua e tentam se “corrigir”. Podemos imaginar também que alguém com a pretensão de manifestar erudição e conhecimento como forma de poder para alguma pessoa ou grupo que detenha, reconhecidamente, essa erudição ou conhecimento. Em ambos os casos – mas poderia imaginar outros! – o resultado pode ser desastroso!

Não é “istudar”, mas “estudar”; tampouco “genti”, mas “gente”. Quem não lembrou agora da Carla Perez e ou seu memorável “i” de “iscola”? Talvez coubesse uma conferida na literatura especializada para classificar com mais propriedade o “descordar” do “discordar”. Pode ser um erro de digitação? Ou uma outra classificação a respeito da similaridade do /e/ átono e do /i/? Sim, pode ser, e talvez seja ainda necessário nem dar tanto alarde a respeito dessa do Luxa. Ainda por cima foi despedido, vamos dar um desconto para ele.

No entanto, errar o endereço do próprio blog, assim? http://uxemburgo.blog.uol.com.br/? Isso sim, é imperdoável...

Mas foi o parágrafo no texto do G1 me incomodou, mais até que o equívoco do recém ex-treinador do Palmeiras. Pode ser até inocência do redator, ao querer justificar o estranhamento que o leitor vai encontrar no print-screen. Mas sua observação revela muito mais:

Luxa também anunciou o seu desligamento do time do Palestra Itália pelo seu twitter com os seguintes dizeres: "Não sou mais técnico do Palmeiras. Fui demitido por descordar das atitudes do Keirrison" - escreveu o treinador, cometendo um pequeno deslize ortográfico ao digitar "descordar" em vez de "discordar".

Posso até estar exagerando, mas a minha leitura aponta esse desejo sádico de quem tem a pretensão de achar que sabe mais que o outro. Vejam a minha superioridade: eu sei escrever certo, e sei que ele – e justo ele, uma celebridade! – não sabe. “Ai meus sais”, já dizia uma antiga personagem de tevê. Pra que isso, hein? Pra quê?

11 de junho de 2009

"Quem disse que a literatura não incomoda mais?" (1)




(ao lado: imagem de meninos cheirando cola, retirada do filme Última Parada 174, de Bruno Barreto)


"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico."
(Nelson Rodrigues)

O caso dos livros didáticos em São Paulo

Recentemente, cartilhas escolares do estado de São Paulo foram distribuídas à rede pública com um mapa peculiar: para o governo tucano de José Serra, o mapa da América do Sul contém dois Paraguais, sendo que o Paraguai (do Norte?) está fundido com a Bolívia; ao mesmo tempo em que não há vestígios nem do Equador, tampouco do Uruguai (ou, de acordo com a cartilha, trata-se de um Paraguai mais ao sul). Depois disso, livros contendo expressões como "chupa rola", "cu" e "chupava ela todinha" foram distribuídos pela Secretaria Estadual da Educação de São Paulo como material de apoio a alunos da terceira série do ensino fundamental”, ou seja, para crianças com média de 9 anos de idade.

Não bastasse isso, ainda houve a polêmica com livros de poesia: em um dos casos, uma mãe de aluno procurou a imprensa denunciando que um livro de Manoel de Barros (Memórias inventadas), contendo supostas passagens eróticas, foi distribuído a crianças da 6ª série. O outro caso se refere ao livro "Poesia do Dia -Poetas de Hoje para Leitores de Agora", distribuído às crianças da 3ª série. Entre poemas de diversos autores, encontra-se o tão criticado poema de Joca Reiners Terron. Não que o poema mereça críticas pejorativas – ou, pelo menos nesse caso, não é essa a questão –, mas a sua leitura é tida como inapropriada para crianças:

Manual de auto-ajuda para supervilões

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica. É melhor não deixar testemunhas.
Não vá se entusiasmar e matar sua mãe. Até mesmo supervilões precisam ter mães.
Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.
Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.
Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira, assim sua técnica evoluirá. Não se preocupe. Patos abundam por aí.
Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo. Ou Malcolm.
Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.
Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não podem mais abrir a boca.
Odeie. Assim, por esporte. E torça por time nenhum.
Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia. Principalmente brincar de dama.
Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração, pedra no rim em vez de alma.
Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.
Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.
Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.
Nunca ame ninguém. Estupre.
Execre o amável. Zele pelo abominável.
Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.

[In: SARMATZ, Leandro (org.) Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora. São Paulo: Ática, 2008]


A questão não deve ser direcionada no poeta, mas a quem permitiu que fosse distribuído (institucionalmente) às crianças. Antes de tudo, deve-se ressaltar o posicionamento do organizador do livro, o próprio Leandro Sarmatz:

“em todas as matérias sobre o caso, quem foi devidamente crucificado, teve o nome citado à exaustão, foi obrigado a se “explicar” como um daqueles criminosos furrecas em programa mundo-cão da TV às 18h? O desastrado funcionário público? O secretário de educação? O governador do Estado? Não. Coube ao autor de um poema a tarefa aziaga de tentar desfazer o nó que sequer foi amarrado por ele. E que está aí muito antes dele ter pensado e concebido o poema”.

De qualquer jeito, o debate foi parar na imprensa. E jornalistas e aventureiros no jornalismo resolvem desfiar suas críticas e suas “críticas”. Presenciamos por intermédio desses acontecimentos que a poesia é indissociável da sociedade e, portanto, não é simplesmente desinteressada. Não quero jogar tudo nas costas do Joca Terron não: mas a dimensão da institucionalização de seu poema (específico) marcou a politização (nos sentidos amplo e corrente) das leituras.

Abaixo segue uma seleção (aleatória) de alguns comentários sobre a questão e o poema. Sim, deve-se estabelecer essa distinção: uma coisa são opiniões sobre o fato, ou seja, a distribuição de livros para crianças indicados para adolescentes; e outra coisa é o poema e sua temática.

Livro para adolescentes é entregue a crianças em SP
da Folha Online
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u572983.shtml

Isso nunca foi pornografia!
por Leandro Sarmatz (Portal Luis Nassif)
http://blogln.ning.com/profiles/blogs/isso-nunca-foi-pornografia

Um moralismo rançoso e hipócrita

por Kleber Pereira dos Santos
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=540DAC006

Poesia para crianças
por Luciano Martins Costa
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/oinoradio.asp?id={E69124DF-B805-4060-B5E2-256E4EB27A4B}

O estado da Poesia no Estado de São Paulo: apologia a Joca Reiners Terron!
por C. Guilherme A. Salla
http://guisalla.wordpress.com/2009/05/29/o-estado-da-poesia-no-estado-de-sao-paulo-apologia-a-joca-reiners-terron/

21. Livro para adolescentes é entregue a crianças em SP
por Fábio Takahashi (Folha de SP)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63746

Autor diz que texto não é para crianças
por Gilberto Yoshinaga (Agora)
http://www.agora.uol.com.br/saopaulo/ult10103u572848.shtml

Poesia para crianças da rede pública fala em droga, sexo e estupro
por Milton Jung
http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/miltonjung/2009/05/27/poesia-para-criancas-da-rede-publica-fala-em-droga-sexo-e-estupro/

Minha mãe não vem mesmo!
por Toni C.
http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=57865

O jornalista Luciano Martins Costa, por exemplo, atem-se a depreciar o “suposto poema”, como ele mesmo se refere:

"O texto distribuído para crianças de nove anos e que, segundo aceita o jornal, seria apropriado para adolescentes de treze, diz mais ou menos o seguinte, retirados trechos também impróprios para leitura em público:
'Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica'.
Só nessa primeira frase a obra mereceria algum reparo antes de ser selecionada, pois o autor confunde umbigo com o cordão umbilical".

Seus argumentos pífios ignoram, por exemplo, como no trecho selecionado, o uso de metonímia. “E talvez nem possa ser considerado um poema”, enfatiza esse jornalista. Pergunto: porquê? Metonímia e ironia não seriam de uso pertinente em poemas? E além do mais: é possível ignorar toda uma tradição da literatura e o mal? Embora não seja esse o caso: acredito que o referido jornalista tenha superado a fase da puberdade e tenha discernimento em reconhecer uma ironia. Embora eu tenha as minhas dúvidas. Lembra-me o “causo” supostamente ocorrido na ditadura de Pinochet, em que soldados iam atrás de livros subversivos e queimavam “Chapeuzinho Vermelho” mas ignoravam o “Capital” de Marx. Aliás, o que esperar de um jornalista que, aproveitando o gancho, publica ainda no mesmo texto:

"Sem resvalar para o trauma da censura, que a sociedade brasileira tem ojeriza de enfrentar desde o processo de redemocratização, talvez fosse conveniente também avaliar as histórias em quadrinhos e outros conteúdos que são oferecidos nesses suplementos inseridos nos diários".

“Sem resvalar”, mas poderíamos ler nas entrelinhas “já resvalando...”. Olhem só, se não fosse a democratização, a moral e os bons costumes estariam resguardados. Desculpem-me os incrédulos, mas é isso que eu estou lendo nessas linhas do renomado jornalista. E como um ponto de vista sobre a poesia pode denunciar a visão do mundo do sujeito, pois ainda leio nessas linhas: hoje em dia é toda essa roubalheira, essa barbaridade... No tempo dos milicos não era essa promiscuidade... Reitero as desculpas. É isso que eu estou lendo.

Na Folha de São Paulo, Fábio Takahashi faz uma leitura, digamos, mais sóbria dos fatos. Traz a voz do próprio Terron sobre os fatos ("Não é para crianças de nove anos. São várias ironias, que elas não entendem" e “Espero que o Serra [governador José Serra] não ache o texto um horror, como ele disse do outro livro. Horror é quem escolhe essas obras para crianças"), além de opiniões, em princípio respeitando a contradição. É justamente nesse ponto que, após lermos a posição do Professor Vitor Paro, da Faculdade de Educação da USP, que atribui a escolha do livro para crianças como incompetência e ignorância do governo por avaliar o livro apenas depois da imprensa noticiar, lemos a seguinte pérola:

"A coordenadora do curso de pedagogia da Unicamp, Angela Soligo, classifica como 'um horror' o poema. 'Tem uma ironia que talvez só o adulto entenda. É totalmente desnecessário para uma escola'. 'Já é o segundo caso. Os professores ficam inseguros com o material', disse ela".

Isso me lembra outro caso: o de professores do ensino básico aqui de Santa Maria da Boca do Monte que se recusavam a trabalhar em sala de aula o Vôo da Madrugada, livro de contos de Sérgio Sant’Anna, que na ocasião constava como uma das leituras obrigatórias do vestibular da UFSM. Por quê? Por que contém uma série de palavrões? Pelo menos a professora Angela supõe que “talvez” só um adulto entenda. O jornalista Luciano Martins Costa não entendeu, ou se fez que não entendeu.

Talvez a melhor resposta a esse tipo de “opinião” seja o texto de Guilherme Salla, da qual extraio o seguinte trecho:

"Aliás, é mesmo uma vergonha expor nossas crianças de nove anos ao sexo e às palavras chulas da poesia e artes contemporâneas dentro do ambiente escolar… é melhor que elas tenham estas experiências sozinhas, por si próprias nas ruas e em suas casas para que, aos doze ou treze engravidem e possam ir cuidar de suas próprias vidinhas…"

Uma síntese? HIPOCRISIA. Talvez o Salla exagere para o outro extremo, talvez não. Mas banir o poema do Terron do estado zé-serrado, duvidando de sua poesia (ao menos por essa via duvidosa de leitura) e não reconhecendo a recomendação para adolescentes é por pura hipocrisia. É um horror ler o poema do Terron, mas Vinícius de Morais, Manuel Bandeira ou Carlos Drummond é permitido. E Jorge Amado, imagina se algum estudante ler? De Alexandre Dumas a Dostoiévski, um perigo! Sem falar que o décimo canto dos Lusíadas e O Cortiço existem em qualquer biblioteca pública e estão disponíveis no portal de Domínio Público.

Uma leitura ponderada? Recomendo a Kléber Pereira dos Santos faz. E o que ele diz? O que me parece óbvio: trata-se apenas de uma reclassificação etária. Palavrões, pornografias e demais manifestações tidas como politicamente incorretas: que criança está isenta delas?

“Qualquer pelada entre moleques descalços é uma sinfonia de palavrões maior do que existe em todas as páginas da HQ criticada e imagens pornográficas são distribuídas às nossas castas meninas usuárias de calças hiper-justas por toda cidade nas lonas improvisadas dos vendedores de DVDs piratas (sem classificação etária, até apelidam os pornôs de "educativos"... não deixam de ser, de certo modo). Um moleque, mesmo o da faixa etária que realmente não deveria ter os ditos livros em mãos, se mora na Cidade Tiradentes sabe muito bem o que é o PCC. Uma menina de 13 anos hoje não só sabe palavrões escabrosos e detalhes minuciosos sobre o ato sexual como convive com amigas barrigudinhas, e não por causa de muitos Mclanches felizes ou de livros "obscenos" – talvez por causa da falta deles, para as fazerem ter um mínimo de juízo antes de iniciarem a vida sexual”.

Por fim: “E aí? Vamos queimar a obra de Platão em praça pública ou banir os poetas da república?”, como nos pergunta C. Guilherme A. Salla.