literatura, política, cultura e comportamento.
seja em santa maria, em alegrete, no rio de janeiro, em osório ou em liechtenstein.
na verdade, tanto faz.
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22 de março de 2011

Sobre a experiência pessoal e profissional em Alegrete

Praça matriz do Alegrete. Na imagem, uma referência de Mário Quintana ao tipo de cidade que (espero) ficará apenas no passado. Tenho otimismo em relação ao Alegrete.


Semestre passado tive uma incrível experiência ao trabalhar em uma escola pública municipal em Alegrete/RS. Foi uma incrível experiência pois tive a oportunidade de confrontar os meus posicionamentos com determinada realidade escolar, interpretá-la e, na medida do possível, agir sobre ela.

Tive vários momentos que me incitaram à reflexão, embora nem sempre tenham partido de situações positivas. Mas tudo é crescimento e amadurecimento.

Sempre costumo iniciar um debate sendo claro: o problema não é pensarmos diferente. Adoro poder aprender e crescer ao confrontar as minhas ideias com quem pense diferente. Desde que haja coerência e seriedade nos argumentos.

Esse rodeio todo é para narrar uma rápida situação em que me deparei algumas vezes logo que cheguei na cidade. Alguns professores vieram me questionar sobre o que eu estava fazendo "dando aula por lá". Eles comentavam que eu sou jovem, tenho boa formação, etc., e poderia procurar "coisa melhor". Na maioria das vezes eu acenava apenas com um sorriso meio constrangido. Outras eu me sentia mais a vontade para responder o que penso: Tudo bem, eu posso procurar "coisa melhor" (como eles me diziam). Não havia nada que me prendesse por lá, e também já tinha outros planos para mim. Mas, ao mesmo tempo, eu me perguntava e provocava os interlocutores: Se os "bons e jovens professores" (na lógica deles) devem ir embora da cidade, procurar "coisa melhor", quem vai dar aulas para essas crianças?

***

Pensei em terminar o post por aqui, mas convém destacar: conheci ótimos profissionais de educação na rede municipal da cidade, questionadores da própria realidade, abertos para novas ideias e atentos à sua responsabilidade como educadores em incentivar o protagonismo da juventude.

Sim, um outro mundo é possível.
E vocês podem (e devem) ser protagonistas na mudança da realidade, tanto em nível individual quanto da realidade à sua volta.
Espero poder ter passado, de alguma forma, essa mensagem.
Um abraço aos meus ex-alunos da Escola Municipal Lions Clube.

30 de outubro de 2010

O Alegrete que os alegretenses querem para o futuro

O que significa investir em educação? Creio que investir em educação é investir em melhoria de qualidade de vida, de emprego e de desenvolvimento a médio e longo prazo. É criar oportunidades para que as nossas crianças, adolescentes e jovens vejam um horizonte próspero em seu futuro... “É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê!” – cantam Los Hermanos.

Nessa minha estadia profissional pelo Alegrete, tenho ouvido de tudo. Adotei a postura cautelosa de mais ouvir do que falar, pois tudo pelo que passamos pode se converter em aprendizado e amadurecimento. Porém, nem tudo que ouvimos deve ser assimilado acriticamente: a coerência com o modo de concebermos o mundo e modificá-lo deve estar em constante tensão com o que lemos e ouvimos.

Numa dessas conversas, em Alegrete, ouvi dizer que não há oportunidade de formação profissional para o jovem alegretense. De fato, a juventude do Alegrete deve ter prioridade nas políticas públicas nas esferas estaduais e federais (contando com a eleição da Dilma), pois muitos jovens hoje não têm perspectivas de emprego e renda, e surgem como possibilidades, ou a saída para grandes centros industriais, ou o descambar para a criminalidade. Podemos ver que isso se dá pela pobreza da região, ao (ainda!) privilegiar um coronelianismo feudal de subserviência e a concentração de renda em torno de meia dúzia de famiglias. O próprio Alegrete não investe no Alegrete, não gera poder de consumo para que se possam desenvolver economicamente as cidades da região.

Por outro lado, afirmar que nada esteja acontecendo é ler a realidade empírica de forma fragmentada e, portanto, limitada. Voltemos aos anos 90, relembremos do Alegrete naquela época, e imaginaríamos uma cidade universitária? Com certeza isso seria motivo de chacota entre a juventude da época, para quem tinha apenas Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande e Pelotas como possibilidades de cursar uma universidade gratuita (pública e de qualidade!).

Mas o Alegrete está mudando. Hoje a cidade conta com CINCO UNIVERSIDADES, das quais, contribuindo para a interiorização e democratização da educação, TRÊS SÃO PÚBLICAS: a Unipampa, o Instituto Federal Farroupilha (que oferece cursos tecnológicos de níveis médio e superior e atende a uma demanda de licenciaturas e cursos de pós-graduação) e a UERGS (que tende a ter seus investimentos retomados com a eleição de Tarso Genro para o Rio Grande do Sul). Além disso, temos a URCAMP, por onde as pessoas podem ser financiadas por meio do PROUNI. Também há a UNOPAR, que tem contribuído com a formação de profissionais na região por meio do ensino a distância, estimulado pelo Governo Federal, como diminuição das fronteiras à informação e ao conhecimento.

Enquanto a população da cidade não assimila a importância histórica desses investimentos na cidade, nossos jovens não estarão enxergando essas instituições como possibilidades concretas. Nós, educadores, pais, gestores públicos, jornalistas – todos – temos a responsabilidade de divulgar e incentivar nossos jovens. O grande medo hoje na cidade é que ela forme pessoas, mas não gere mercado para que possam atuar na própria cidade e região. Ora, só é possível garantir que esses profissionais possam permanecer e colaborar com o desenvolvimento da cidade se houver a geração ampla de formação e empregos à juventude, por meio de incentivos concretos de emprego e renda nas mais diversas áreas.

O posicionamento estratégico da cidade, a meio caminho do Uruguai e da Argentina, faz com que a cidade seja promissora. Porém, o que parece é que a cidade espera um messias que virá e, com a sua graça e palavras mágicas, transformará a cidade em um reino dos céus. Parece não ser claro que a mudança só pode acontecer por meio de tensionamento político, envolvimento social e posicionamento frente aos projetos para a cidade. Que cidade o povo do Alegrete quer para o Alegrete? E o que é necessário fazer para o Alegrete corresponder às expectativas dos seus cidadãos? Como operar, como resolver os problemas que impedem o Alegrete de corresponder a essas expectativas? Precisamos parar de resmungar e, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperar o apocalipse chegar! Precisamos ser propositivos e objetivos para a cidade que se espera e se quer para o Alegrete!

8 de setembro de 2010

Obras do Governo Federal em Alegrete

Circulando pela cidade do Alegrete, observei uma série de placas que anunciam investimentos do governo Federal nessa cidade. Porém, chamou-me a atenção que, nas placas, o logotipo da gestão de Lula nas placas está tapado ou apagado.

A cidade do Alegrete pertence a uma região pouco desenvolvida do Rio Grande do Sul. Da pecuária que já foi motivo de orgulho no passado, hoje restam grandes latifúndios e centros urbanos médios e pequenos que não apresentam perspectivas de emprego e renda para a juventude, sobretudo aos jovens de periferia.

O Alegrete ainda mantém uma visão tacanha e retrógrada de política, calcada no discurso de manutenção das tradições – na esteira da cultura, o discurso político vincula-se à questões retrógradas de políticas sociais e propriedade privada. Falar em esquerda? Apesar da vice-prefeita ser do PT, o discurso anti-PT no Alegrete é contundente, embora superficial, preconceituoso e limitado. Até discurso pró ditadura eu tive que ouvir esses dias de um cidadão, para quem o marginal é pobre, o pobre é marginal, e só no cacetete as coisas se resolvem (?).

Tanto que aqui é o reduto de votos no dotô. Candidatos que defendem as políticas mais perversas, na contramão da distribuição de renda e de geração de empregos, têm ampla aceitação na cidade. Seja o candidato da RBS para deputado federal pelo PDT, seja o Cabeludinho de Uruguaiana (sim, o do Detran!) para estadual pelo PP... Pelo PP ainda aqui há grande publicidade ao “Canceroso” (sujeito parecido com a personagem de X-Files), e até ao deputado litorâneo do PMDB que concedeu 143% de aumento à atual (des)governadora... O problema é que, mesmo votando naquilo que se chama de “candidatos da região”, a região da campanha têm sofrido ao longo dos anos com falta de investimentos, falta de políticas públicas, e descaso com a maior parte da população: a que não anda de picape em volta da praça...

A quem interessa desvincular obras com investimento federal do Governo Lula em Alegrete?

Pois não me parece plausível haver qualquer impedimento legal sobre o logotipo “Brasil, um país de todos”. Não há aí qualquer referência à candidatura do PT ou de Dilma, mas há a divulgação de que há investimentos na cidade. Pior seria se não houvesse o que divulgar. Se for posições críticas a respeito de como esses recursos foram investidos, ou a respeito de conclusão das obras, até vá lá... Mas e se for pura má-fé?



Essa placa foi a primeira a me despertar a atenção. Está junto a um posto de saúde na Vila Kennedy. O logotipo do Governo Federal estava tapado com uma lona preta, cujas fitas adesivas ainda são visíveis.
Observe que nessa placa, junto a dezenas de casas populares em processo de finalização de construção no bairro Ayrton Senna, o logotipo do Governo Federal está pintado.
Até naquela que talvez seja a maior contribuição do Governo Lula para o Alegrete e para a região, a Unipampa, as placas têm o logotipo do Governo Federal removido. Por quê?

À esquerda, o antigo logotipo da Eletrobrás; à direita, o logotipo do Governo Federal arrancado.

Até obra de saneamento em Alegrete teve o logotipo arrancado!
Nessa farmácia, no centro do Alegrete, o logotipo é tapado. Em outra farmácia, não muito longe, anuncia: Genéricos, até 60% de desconto; Farmácia Popular, até 90% de desconto!
No parque dos Aguateiros, mais um investimento do Governo Federal que teve o logotipo tapado por adesivos. Além desses investimentos aqui citados, não poderia ficar de fora o Instituto Federal Farroupilha, na localidade de Passo Novo, no município do Alegrete, que oferece ensino médio, cursos técnicos, licenciaturas e até pós-graduação!

* Em tempo: queria eu saber se, por acaso, alguém sabia de alguma proibição legal de propaganda de governo durante as eleições. Após uma pesquisa pela internet, pude descobrir que se trata de uma postura equivocada e assimétrica do Supremo Tribunal Federal, na pessoa do Ministro Marco Aurélio Mello. É legal restringir a informação sob uso de peças publicitárias? De qualquer forma, não retiro os questionamentos antes levantados, e os reitero: a quem serve desvincular obras com investimento federal do Governo Lula em Alegrete, no Rio Grande do Sul e no Brasil?

31 de agosto de 2009

Manipulação para a conservação da hegemonia


Hoje estávamos em um café no centro de Santa Maria da Boca do Tanque Sujo, quando vi, na entrada do estabelecimento, a edição dominical do jornal “A RAZÃO” à venda. De longe, nada se lê exceto a afirmação em destaque, com letras quase do tamanho do nome do próprio jornal.

Movido pela curiosidade e vacinado contra a manipulação midiática, quis saber a fonte. Só aí fui descobrir que as aspas eram a afirmação
de Tarso Teixeira, vice-presidente da FARSUL e presidente do Sindicato Rural de São Gabriel. E a fonte da afirmação? O "serviço de inteligência" dos produtores rurais [sic]. Ou seja, eles criam um órgão que está apto a difundir verdades ou mentiras de acordo com o seu próprio interesse. É o cúmulo do cúmulo das nossas instituições baseadas na conservação do poder. Seria cômico.

(se tiver curiosidade, clique na imagem para aumentá-la, ou acesse a versão digital do próprio jornal ao final da postagem)

Logo em seguida, enquanto tomávamos café, reparei que realmente, à certa distância, era visível apenas a afirmação em destaque completamente descontextualizada no referido jornal. Eis o velho artifício de fazer com qu
e a opinião ou a inferência se passe por factual. As pessoas vão olhar essa manchete descontextualizada e o jornal e seus patrocinadores vão conseguir convencer a "opinião pública".

Não demorou outra: logo entrou um homem com a sua esposa, um típico "cidadão de bem" que, depois de sua caminhada vespertina, foi comprar pão. Olhou a "manchete" e exclamou algo do tipo: "Mas olha só! São bandidos mesmo! A Brigada tá certa, tem que matar todos mesmo!".

Sabem, o que realmente me preocupou foi o fato do cidadão não se interessar pela fonte da afirmação. Ingenuamente aceitou a manchete. Típico dos movimentos "Fora Sarney" e "Cansei", movimentos nacionais de indignação durante o intervalo da novela. É a inocência de nem conferir a fonte da informação, e a malícia de quem sabe se aproveitar disso.

Daí a necessidade cada vez maior da democratização da mídia, que hoje é empresarial e responde aos interesses de meia dúzia de famílias. A conferência de comunicação é uma necessidade para que seja reconsiderado o papel da mídia e os seus limites. Quando falo de limites não me refiro a censura, mas à utilização da liberdade de imprensa como liberdade para cometer crimes. Afinal, calúnia, injúria, difamação e ameaça ainda são crimes pelo nosso já defasado código penal.

Não temos meios impressos de "esquerda" diários. E qual a necessidade e função de meios diários de comunicação engajados em um projeto de esquerda? E como diferenciar o discurso de esquerda do discurso consolidado há 200 anos pela mídia que surge com a ascensão da burguesia e servindo aos seus interesses até hoje?
(dêem a devida atenção à definição acima de FARC publicada pela razão provinciana.
É explícita a visão dada por quem está diametralmente oposto no campo de disputas.
Em outras palavras: a metodologia de "reportagem" foi "pras cucuias")

A esquerda não pode entrar no jogo embusteiro da reporcagem hegemônica. Seu papel é o de desvelar. É o constante discurso político a evidenciar a luta de classes, a disputa de interesses. É clarear a realidade, e não escamoteá-la. E isso passa pelo próprio reconhecimento da sua parcialidade em consonância com um projeto de sociedade. Tudo o que existe na mídia hegemônica, mas que não é admitido por ela própria. Se a linguagem conservadora tende a apagar a luta de classes, a linguagem engajada tende a explicitar e explorar essa tensão social constantemente. Sobretudo, trata-se de transformar os modelos de representação do mundo veiculados pela mídia empresarial.

Eu, que me considero um grande defensor das TVs públicas, vejo uma enorme contradição não termos sinal aberto para elas. Para se assistir a TV Senado, por exemplo, temos que ter Sky ou antena parabólica! Isso não é democracia de informação: só vou saber o que acontece no legislativo pelo privilégio que o JN dá ao tucanato e aos demos? A TVE e a TV Brasil são avanços. Mas é necessário avançar no debate sobre as concessões do governo ao mass media. E ampliar o acesso das TVs públicas, e comunitárias, que têm ótimas programações.

Lembro que comentei algo do tipo com o Prof. Denílson ano passado, durante a sua campanha para vereador em Osório. É necessário o contraponto ideológico. Os meios hegemônicos de informação hoje disputam entre si os lucros de mercado. Não há embate de idéias. Afinal, em jornal de cidade pequena, o que tiver destaque além da página policial e da coluna social é lucro. As linhas editoriais tendem a ser iguais, conforme a ideologia pequeno-burguesa. Mais do mesmo.

21 de agosto de 2009

Resultado da omissão e da hipocrisia: a morte de um Silva, um brasileiro (1)


Violência em ruas e estradas na data instituída para conscientizar as pessoas sobre os perigos do trânsito. Liberado o trânsito no trecho da BR 101, no Litoral Norte, onde se formou uma cratera na quarta-feira. Chega ao fim o maior acervo de carros antigos do Brasil. A Justiça determinou a retirada dos veículos do museu da Ulbra, em Canoas. A morte de um integrante do MST durante a desocupação de uma fazenda na Região Central do Estado vai ser investigada pela Polícia civil e Brigada Militar. O ministério Público também vai acompanhar o caso. Os manifestantes estavam na propriedade há 10 dias. O corpo do agricultor morto vai ser enterrado neste sábado em Canguçu. Quinze espingardas calibre 12, que estavam com os PMs e foram apreendidas vão passar por perícia. Duas idosas ficaram feridas em um incêndio em Santa Maria. Sol predomina em todo o Estado nesta sexta-feira. Confirmadas mais nove mortes pela nova gripe no Estado, que passa a ter 93 casos fatais. Definidos, na Assembleia Legislativa integrantes da CPI que vai apurar supostas irregularidades no governo gaúcho. A comissão será instalada na próxima quarta-feira. Um passageiro morreu e um taxista ficou ferido esta tarde em Porto Alegre. Amanhã, em São Paulo, o Inter enfrenta o Palmeiras, líder do Campeonato Brasileiro. E o Grêmio joga domingo, às quatro da tarde, com o Atlético Mineiro no Estádio Olímpico. Uma mulher foi detida em Canoas por passar trotes à Brigada Militar.
(Resumo do RBS notícias, jornal do PIG local entre as novelas das 6 e das 7).

Um sem-terra morreu.
Olhando a TV enquanto jantam, muitos darão de ombros. Outros estão apenas com a TV ligada por costume, nem ouviram o que foi dito. Outros perguntarão: “o que eu tenho a ver com isso?”

Elton Brum da Silva, 44 anos, morreu.
Uma notícia de alguém que faleceu. Na TV, mais uma morte entre tantas. Alguém, um “silva”. Mais simbólico do que esse sobrenome, impossível. É nome do próprio Brasil.

Elton Brum da Silva, trabalhador rural sem-terra foi morto pelas costas. Elton, não o conheci. Também nunca havia ouvido falar nele. Mas o Silva sim. O Silva é um entre tantos brasileiros que sonham dias melhores. Que querem trabalhar e se verem incluídos no corpo social do país. Que querem tudo de bom pra todo mundo. Que deve ter alguém que o ame, e alguém que foi amado por ele. Talvez tenha filhos, ou sobrinhos. Vizinhos e amigos. Talvez ainda tivesse pais, tivesse uma família por quem zelar. Com certeza tinha companheiros de luta. Com certeza compartilhava sonhos com as pessoas que o cercavam.

Mais um Silva morreu. Foi morto. Pela equívoca ação policial. Pelos equívocos governos. Foi condenado à morte o trabalhador privado de terra que questionava as regras do jogo. Que questionava o direito de uns sobre a propriedade privada. Um Silva foi morto hoje pelo sonho de poder ter uma casa e um trabalho. A morte de um Silva hoje expõe as veias abertas de um modelo de sociedade que chega aos seus limites.

O exercício de alteridade pode ser resumido como nos colocarmos no lugar do outro. Pois bem: estamos sentados frente ao computador agora lendo isso. Podemos pensar sobre que teto moramos agora. Sobre a situação econômica da nossa família. A nossa fonte de renda. A nossa formação intelectual. Os nossos hábitos. Nossas manias. Nossos vícios. O que nos dá prazer. Sobre nossos pais e nossos filhos. Sobre o que queremos do futuro. As expectativas, as esperanças que nos movem. Podemos parar agora e pensar em todo o universo que gira nesse instante ao redor do nosso umbigo. Vamos pensar em todas as pessoas e toda a história da nossa vida que fazem com que nos constituamos como esse sujeito que nesse instante está lendo esse texto. Agora, vamos conseguir nos colocar no lugar de nosso vizinho? No lugar do próximo? Somos capazes de imaginar os sonhos e expectativas interrompidas de modo estúpido? Podemos imaginar o que move uma pessoa a viver de acampamento em acampamento, em conflito direto e constante com o sistema? Podemos comensurar o que é ter homens, mulheres e crianças sendo retiradas de uma terra de manhã cedo pela polícia militar? Pessoas que já são feridas na dignidade por não estarem incluídas no sistema, e ainda assim lutam contra esse sistema, e acabam sendo mais humilhadas por esse mesmo sistema. Podemos nos colocar no lugar de um Silva que foi assassinado? Podemos nos colocar no lugar do Elton, de 44 anos, integrante do movimento de trabalhadores rurais sem-terra que foi assassinado pelas costas pela polícia em uma ação de reintegração de posse movida por um latifundiário com a bunda cheia de dinheiro e seu advogadozinho e aceita pela (in)justiça?

Hoje somos levados a agir como se fôssemos muitos: reivindicamos e agimos como consumidores, como clientes, como eleitores, como inquilinos, contribuintes ou pacientes; como estudantes, trabalhadores e/ou aposentados. Talvez nos falte uma unidade: pensar como cidadãos. Pensar que temos responsabilidade pelo sistema que nos cerca em sua totalidade. Afinal, como seria se em vez de reivindicarmos nossos direitos como consumidores, agíssemos como consumidores cidadãos? Como estudantes cidadãos? Trabalhadores cidadãos? Patrões cidadãos? Eleitores cidadãos?
Percebe a sutil diferença?

Hoje um Silva morreu. Elton da Silva foi assassinado.
Por quem?
Quem disparou o tiro deve ser responsabilizado. Quem permitiu a ação policial com uso de armas de fogo merece ser responsabilizado. Quem planejou a ação policial que permitisse a morte de quem quer que fosse, merece ser responsabilizado. Quem adota políticas de repressão análogas às ações da ditadura (que eu esperava encontrar apenas em livros de história e filmes sobre o passado) também deve ser responsabilizado. A justiça que age em seu gabinete mas não calcula as consequências (ou calcula muito bem) que a suas decisões podem tomar também deve ser responsabilizada. Mas não só eles. Hoje todos nós somos também responsáveis por essa morte, por esse assassinato pelas costas, por esse ato de covardia. Por que somos nós que acabamos sustentando esse modelo de sociedade. Esse modelo de fragmentação, de individualismo, de seleção, de hipocrisia. É nossa obrigação fazer um exercício de alteridade e, consequentemente, um balanço de nossa vida. A pessoa que mais se declara inocente é conivente e omissa com a morte dos Silva, a morte de vários brasileiros que como Elton, foram assassinados com um ato de covardia pelo sistema que nós sustentamos. E o que fazer?

A notícia da morte de Elton Brum da Silva foi notíciada na TV depois da novela que se passa no interior. Antes se falou de carros antigos, depois se falou do Inter e do Grêmio. Depois deu a novela do macaco. E, se não agirmos em torno da responsabilidade que temos sobre o universo que nos cerca (que começa – mas não termina – na hora do voto), volta tudo a ser como é, como alguns querem que seja. E daí depois tem a novela das 8.


22 de julho de 2009

óinc, óinc: atchim...


Uma das entradas da gripe suína no Brasil foi pela fronteira que o Rio Grande do Sul tem com a Argentina. Aliás, foi por essa mesma fronteira que há alguns anos entrou a febre aftosa. E isso tudo me lembra uma outra questão: a faixa de fronteira.

É de projeto do nosso "ilustre" senador Zambiasi a redução da faixa de fronteira, que hoje impede que estrangeiros adquiram terras nesse território. Trata-se de uma faixa de 150km da fronteira do Brasil com outros países, que seria diminuída para apenas 50km. Papeleiras têm pressionado politicamente a diminuição dessa faixa, com o intuito de investir da "silvicultura", ou seja, nos "desertos verdes":

"Plantar esse deserto verde na faixa de fronteira é um crime contra a lei de nosso país, contra o bioma pampa e contra a soberania alimentar de nosso estado que está cada vez mais sem terra para produzir alimentos. Estamos arrancando o que ruim e plantando o que é bom para o meio ambiente e para o povo gaúcho" (mulheres da Via Campesina)

Se com uma faixa de fronteira de 150km a circulação de doenças entre os dois países é livre, sem essa faixa, como seria? Na verdade, são mais perguntas do que idéias ou posicionamentos amadurecidos. No entanto, em locais onde a soberania de um país é, de certa forma, suspensa, por pertencer a particulares estrangeiros, o que podemos esperar?

Enquanto isso, me dá pânico vendo na TV o Osmar Terra falar sobre o avanço da gripe. Ele passa uma sensação de impotência muito grande...

Estamos aqui no Rio Grande do Sul enfrentando essa epidemia. O estado tem essa particularidade de muitos casos porque está na fronteira com a Argentina e o Uruguai, que já têm muitas pessoas infectadas. O que nós vemos é que o estado está sendo a porta de entrada dessa gripe aqui no Brasil e o enfrentamento dela está mobilizando todas as forças sociais da região" (Osmar Terra ao G1).

Exatamente por isso vejo como necessário e importante a pauta sobre doenças entrarem na discussão sobre a faixa de fronteira. Está aberto o debate...


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Amigos, estou indo viajar para Santa Cecília. Tô fugindo da gripe... hehehehe...
Mas semana que vem estarei de volta. Até.

6 de setembro de 2008

A História das Coisas


Esse vídeo foi mandado para mim pelo Mauro Gil, meu amigo de Osório. Muito perfeito para começarmos a entender (de forma sistemática) o sistema que rege a nossa existência no mundo capitalista. Acreditamos, muitas vezes, estarmos alheios a esse sistema que vai, desde a exploração da natureza até aos comerciais de TV e o lixo que colocamos fora. Uma visão mais ampla poderá relacionar a poluição do planeta e o governo dos EUA com a miséria e a violência que assola as nossas cidades.

Essa discussão se torna muito importante aqui no RS, principalmente com os avanços que as multinacionais papeleiras estão tendo na metade sul do Estado para plantio de Eucalipto. Uma, que ninguém me tira da cabeça, que se Eucalipto fosse bom, estariam plantando na Europa e não aqui. E, em segundo lugar, é essa balela que o plantio da monocultura de árvores (que intencionalmente chamam de "florestas") vai trazer empregos pra a metade sul. Vão contratar pessoas pra ficar olhando a árvore crescer durante sete anos? Ou vão contratar pessoas com primeiro ou segundo graus para melhoramento da árvore e dos papéis? E a poluição que o processo de branqueamento causa? E o bioma do pampa? Se quisessem diminuir a pobreza da região, que fizessem reforma agrária, que plantassem comida, e não dessem a terra para os estrangeiros.

Créditos: Versão dublada em Português do documentário The Story of Stuff idealizada pela comunidade Permacultura - Orkut. Realizada nos Estúdios Gavi New Track - SP Direção e edição Fábio Gavi; Locução Nina Garcia; Adaptação do texto Denise Zepter. Site brasileiro de divulgação do vídeo http://www.sununga.com.br/HDC/ Colaborem!!!

No Google Vídeos ainda se pode fazer o download desse documentário. Ótima ferramenta para aulas de Português, Inglês (na versão original), Geografia, Biologia, História, Química, etc.