literatura, política, cultura e comportamento.
seja em santa maria, em alegrete, no rio de janeiro, em osório ou em liechtenstein.
na verdade, tanto faz.

12 de janeiro de 2011

Oportunidades

Ir ou não ir? O calor insuportável de Santa Maria tinha sido interrompido por uma chuva forte ao final da tarde. Deveríamos ir, eu e Miguel, para aquela chuva, brincar na calçada? O primeiro impulso – como “adulto” – é o de não ir. Como assim, sair para tomar banho de chuva? Não que me importe com o que os outros pudessem pensar: de fato, não me importo com isso. Ou melhor, não quero me importar, esforço-me para não me importar com o que os outros pensem de mim, das minhas coisas, do que eu faço ou deixo de fazer. A dúvida em ir não durou mais do que cinco segundos, mas é como se o tempo tivesse parado a fim de que eu pudesse refletir sobre se deveria ir ou não ir. A prudência recomendaria que não fôssemos, se considerarmos todas as recomendações de nossos médicos, noticiários, mães, avós, policiais e benzedeiras. Tomar banho de chuva pode dar um resfriado, talvez até uma tuberculose! Um "resbalo" e uma queda de mau jeito poderiam trazer problemas sérios! Ora, como os seres humanos são frágeis! Já é um milagre a minha existência, se pensarmos em toda a trajetória da carga genética que trago em mim, que constitui o que sou, e que veio dos meus pais e dos meus avós, de Adão e de Eva, dos primórdios da humanidade, dos ancestrais primatas e do primeiro ser vivo: um ser unicelular, com membrana, material genético e um monte de composto orgânico que formava o seu metabolismo. Meu ancestral não morreu – não ao menos antes de passar a carga genética que nos une – nem na Segunda Guerra Mundial, nem na Guerra dos 100 anos, nem durante a Peste Negra ou durante a caça às Bruxas, nem no incêndio de Roma por Nero ou na destruição de Sodoma e Gomorra por Deus, nem foi pisoteado por um mamute, nem comido por um dinossauro ou morrido junto com eles pela queda de um gigante meteoro. Se a minha carga genética sobreviveu às Eras Glaciais e ao Dilúvio, qual o risco em tomar o banho de chuva? O que eu sei é que minha mãe sempre me diz que faz bem à saúde tomar um copo de água todo dia logo após acordar. Mas li, outro dia, na internet, que bom mesmo é tomar uma colher de azeite em jejum. Afinal, devemos tomar água ou azeite ao acordar para manter a boa saúde? Ou não tomar nada e ir logo escovar os dentes? Espreguiçar-se, estalar os dedos, bocejar, coluna ereta, remédios, lentes de contato, sabonete, fio dental, creme para o cabelo, desodorante, xixi, cocô. Cotonetes: usá-los ou não usá-los? Que dilema mortal! Sempre usei cotonetes, mas de uma hora para outra viraram os vilões dos ouvidos. Menos mal que as recentes pesquisas nos Estados Unidos liberaram os ovos! Agora podemos comer ovos todos os dias sem nos preocuparmos com o colesterol! Ou não, já que não há nada mais impreciso, superficial e inconstante do que as pesquisas idiotas recém divulgadas nos EUA, e que são repassadas para nós – pessoas comuns – pelo jornal Hoje e pelas páginas de emails. E então, tomar água ou azeite de cozinha? Pode ser óleo de soja, ou tem que ser de girassol ou de oliva? Não tomar nada? Misturar os dois? Ah, não, água e óleo não se misturam. Uma solução é às segundas, quartas e sextas tomar água ao acordar, e às terças, quintas e sábados tomar óleo: no domingo eu vou dormir até o meio-dia, e não vou me preocupar com isso. Além do mais, tenho que me matricular na natação, na ioga, no pilates, no aikido, no inglês, na academia... Porém, devo procurar a sensação de paz e de felicidade pagando por ela? Conta, boleto, promoção, cheque, cartão de crédito, dívida no banco, cartão telefônico, sedex, empréstimo, parcela a partir de 24 vezes sem juros, imposto de renda, matrícula, taxa disso, taxa daquilo, desconto, pedágio, mensalidade,  folheto promocional, propaganda, telemarketing, contracheque, SPC, SERASA, IPTU, IPVA, ICMS, consumismo, imperialismo, anarquismo, nacionalismo, barbarismo, catecismo, futurismo, dadaísmo, capitalismo, eufemismo, bairrismo, provincianismo, chauvinismo: eis a vida do Homo sapiens sapiens moderno, pósmoderno, contemporâneo, de vanguarda, sedentário para agir e para pensar sua vida, constante e chata. Talvez eu caminhe, talvez eu corra. Talvez eu faça aeróbica na frente do computador, através de vídeos do youtube. E para que fazer tudo isso? Todas essas atividades de uma rotina saudável vão me trazer a felicidade? Talvez eu libere adrenalina, que me dará sensação de bem estar. Mas a adrenalina é o mesmo hormônio que as pessoas liberam quando têm a sensação de medo, para estimular a luta ou a fuga. Devo lutar ou fugir? Devo procurar a felicidade no Google e respondendo a todos os emails, scraps e powerpoints repassados ou procurar os meus familiares e os meus amigos para abraçá-los e dizer a eles o quanto eu gosto deles e o quanto eu sinto saudades deles? Eu deveria também era procurar fazer novos amigos, aproveitando a oportunidade de oferecer um sorriso a cada estranho, vendo-o como um amigo em potencial. O que será que passa pela cabeça do outro, daquele vizinho, daquele sujeito que passou por mim na calçada? Como as crianças têm facilidade em fazer novas amizades! É possível ver o outro como um amigo e não como um concorrente, um inimigo ou simplesmente com indiferença? Ainda devo preocupar-me com o que os outros pensam? Quem não vai, quem não se joga, quem não tenta aproveitar essas pequenas oportunidades de buscar a felicidade, faz o quê? Espera o que da vida, tentando julgar os outros da proteção de seu próprio cubo de concreto? Eu e o Miguel tomamos o banho de chuva, e, de mãos dadas, para que ele não caísse, corríamos pela calçada, colocávamos nossas cabeças em baixo da calha com água fria, pulávamos nas poças e éramos tomados por uma sensação de completude. Um momento único entre pai e filho: eu acompanhava e protegia o meu filho, o meu descendente, aquele que carrega os meus genes para além da minha existência, ao mesmo tempo em que partilhávamos daquela alegria na chuva, daquela felicidade, fator importante para que se tenha uma vida saudável e longa. Tomar banho de chuva, dessa forma, converte-se em um ato político, um signo de liberdade e de felicidade.

Vídeo: Letra e voz de Igor de Fato (2011)

3 de dezembro de 2010

epitáfio (coro de vozes e classes gramaticais)


nasceu,
cresceu,
amou,
viveu:
fodeu,
foi fodido,
fodeu-se
tanto
tanto
tanto.

5 de novembro de 2010

Quem disse que a literatura não incomoda mais? (4)



Em um de meus momentos de lapso – assistindo ao Jornal Nacional – sou informado sobre o pedido para que “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, não seja distribuído em escolas, pelo motivo de possuir em seu texto elementos de preconceito racial. Será que o caminho é mesmo o de retirar esse livro de circulação?

Duas verdades estão em jogo: uma, de que Monteiro Lobato é um dos escritores de literatura infanto-juvenil mais importantes de nosso país, pela qualidade de sua obra. Da mesma forma que, pelo conjunto da obra de Monteiro Lobato, compreendemos que ele era sim preconceituoso, com os mesmos argumentos deterministas e positivistas que regeram o nosso naturalismo – veja como o preconceito social e racial é construído em “O Cortiço”, do Azevedo – e que, na Europa, justificaram a Questão Dreyfus, a perseguição a minorias pelos nazistas e o trato dos franceses para com os argelinos.

As posições pessoais do autor influenciam a qualidade da sua obra? Mesmo impressas no texto, essas ideias pessoais do autor afetam a compreensão de sua obra? Sabemos que José de Alencar, em nenhum momento, questiona a escravidão no Brasil. O próprio Machado de Assis, através de leituras controversas sobre sua obra, nos dá a impressão de, vez ou outra, ser cruel com a condição – e contradição – do negro nas circunstâncias da abolição da escravidão. Outro caso mais recente poderia ser citado, como a obra poética de Ferreira Gullar e suas atuais posições políticas, e o recente premio Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas Llosa.

Acredito ser pertinente sim o debate proposta pelo Conselho Nacional de Educação. Porém, não seria o caso de vetar a circulação do livro em meios escolares. Não por uma posição medíocre e hipócrita de ser contra a qualquer forma de censura! Deveríamos permitir essa circulação com as devidas ressalvas. A nossa história é constituída por processos positivos e negativos ao longo de sua formação... Não podemos simplesmente apagar o que não nos convenha! Pelo contrário: como profissionais da educação, essa é uma ótima oportunidade de recuperarmos e refletirmos com nossos alunos as condições históricas, culturais e ideológicas dos diferentes momentos da história do nosso país.

30 de outubro de 2010

O Alegrete que os alegretenses querem para o futuro

O que significa investir em educação? Creio que investir em educação é investir em melhoria de qualidade de vida, de emprego e de desenvolvimento a médio e longo prazo. É criar oportunidades para que as nossas crianças, adolescentes e jovens vejam um horizonte próspero em seu futuro... “É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê!” – cantam Los Hermanos.

Nessa minha estadia profissional pelo Alegrete, tenho ouvido de tudo. Adotei a postura cautelosa de mais ouvir do que falar, pois tudo pelo que passamos pode se converter em aprendizado e amadurecimento. Porém, nem tudo que ouvimos deve ser assimilado acriticamente: a coerência com o modo de concebermos o mundo e modificá-lo deve estar em constante tensão com o que lemos e ouvimos.

Numa dessas conversas, em Alegrete, ouvi dizer que não há oportunidade de formação profissional para o jovem alegretense. De fato, a juventude do Alegrete deve ter prioridade nas políticas públicas nas esferas estaduais e federais (contando com a eleição da Dilma), pois muitos jovens hoje não têm perspectivas de emprego e renda, e surgem como possibilidades, ou a saída para grandes centros industriais, ou o descambar para a criminalidade. Podemos ver que isso se dá pela pobreza da região, ao (ainda!) privilegiar um coronelianismo feudal de subserviência e a concentração de renda em torno de meia dúzia de famiglias. O próprio Alegrete não investe no Alegrete, não gera poder de consumo para que se possam desenvolver economicamente as cidades da região.

Por outro lado, afirmar que nada esteja acontecendo é ler a realidade empírica de forma fragmentada e, portanto, limitada. Voltemos aos anos 90, relembremos do Alegrete naquela época, e imaginaríamos uma cidade universitária? Com certeza isso seria motivo de chacota entre a juventude da época, para quem tinha apenas Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande e Pelotas como possibilidades de cursar uma universidade gratuita (pública e de qualidade!).

Mas o Alegrete está mudando. Hoje a cidade conta com CINCO UNIVERSIDADES, das quais, contribuindo para a interiorização e democratização da educação, TRÊS SÃO PÚBLICAS: a Unipampa, o Instituto Federal Farroupilha (que oferece cursos tecnológicos de níveis médio e superior e atende a uma demanda de licenciaturas e cursos de pós-graduação) e a UERGS (que tende a ter seus investimentos retomados com a eleição de Tarso Genro para o Rio Grande do Sul). Além disso, temos a URCAMP, por onde as pessoas podem ser financiadas por meio do PROUNI. Também há a UNOPAR, que tem contribuído com a formação de profissionais na região por meio do ensino a distância, estimulado pelo Governo Federal, como diminuição das fronteiras à informação e ao conhecimento.

Enquanto a população da cidade não assimila a importância histórica desses investimentos na cidade, nossos jovens não estarão enxergando essas instituições como possibilidades concretas. Nós, educadores, pais, gestores públicos, jornalistas – todos – temos a responsabilidade de divulgar e incentivar nossos jovens. O grande medo hoje na cidade é que ela forme pessoas, mas não gere mercado para que possam atuar na própria cidade e região. Ora, só é possível garantir que esses profissionais possam permanecer e colaborar com o desenvolvimento da cidade se houver a geração ampla de formação e empregos à juventude, por meio de incentivos concretos de emprego e renda nas mais diversas áreas.

O posicionamento estratégico da cidade, a meio caminho do Uruguai e da Argentina, faz com que a cidade seja promissora. Porém, o que parece é que a cidade espera um messias que virá e, com a sua graça e palavras mágicas, transformará a cidade em um reino dos céus. Parece não ser claro que a mudança só pode acontecer por meio de tensionamento político, envolvimento social e posicionamento frente aos projetos para a cidade. Que cidade o povo do Alegrete quer para o Alegrete? E o que é necessário fazer para o Alegrete corresponder às expectativas dos seus cidadãos? Como operar, como resolver os problemas que impedem o Alegrete de corresponder a essas expectativas? Precisamos parar de resmungar e, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperar o apocalipse chegar! Precisamos ser propositivos e objetivos para a cidade que se espera e se quer para o Alegrete!

24 de outubro de 2010

Por que me engajar?


Certos olhares não mentem. “O que ele quer, fazendo campanha política? Ainda mais de graça, para os outros, que nem sabem quem ele seja! Ele não precisa disso!” Ou, “como ele se deixa levar por essa politicagem?” Para começar a responder perguntas como essas, citaria um verso do maestro Jobim: “É impossível ser feliz sozinho!”.

Durante meu ensino médio em Osório, gostaria de ter me envolvido mais na política estudantil. Porém, a falta de acesso à informação limitava-me. Ainda assim, com alguns amigos, conseguimos tornar viável o plebiscito contra a ALCA no município em 2002!

A grande expectativa que criei pela atuação da política estudantil na universidade foi frustrada ao ter as minhas primeiras impressões na UFSM. Eu, com 17 anos, imaginava que a política estudantil poderia propor novos métodos de fazer política, e não apenas reproduzir o que já se fazia na política institucional. Possivelmente essa leitura que fiz nas minhas primeiras impressões tenha se dado por não haver outros movimentos estudantis expressivos e de esquerda que se contrapusessem às práticas do movimento hegemônico naquele momento. Deixem-me esclarecer: não me contrapunha, de modo geral, às pautas, mas às práticas políticas. De qualquer forma, mesmo não me engajando de fato, acompanhava e apoiava as pautas do movimento estudantil.

De qualquer modo, nas conversas com os amigos são apresentadas ideias, opções e saídas... A gente ouve tudo, assimila, mas certas coisas precisam de um amadurecimento lento...

Movimento promovido
pela UNE e UBES em 2007
Já estava no mestrado, e por ocasião de um evento, estava em São Paulo. Chovia desde cedo naquela manhã. Nisso, estava a uns 200m da prefeitura da capital, sobre um viaduto, próximo à marquise de uma grande loja, em que uns quantos mendigos – homens, mulheres, crianças e idosos – abrigavam-se da chuva. Pude ouvir o diálogo em que um policial informava a uma mulher que todos eles deveriam sair dali, para que a loja pudesse abrir. A mulher (com duas crianças em volta e uma no colo) então responde que eles não teriam problema algum em sair dali, e questionava: “mas para onde a gente vai?” Sobre o viaduto, dava para enxergar as telas recém colocadas pela prefeitura de São Paulo para impedir que mendigos se abrigassem ali.

“Mas para onde a gente vai?” – a pergunta me ressoava na cabeça. Já não era mais o mesmo depois dessa cena. E se fosse comigo? Essa era a segunda pergunta que ressoava na minha cabeça... Afinal, as oportunidades que tive e pude aproveitar foram, em grande parte, por sorte. De mesmo modo que eu pude nascer no seio de uma família que pode me oportunizar certas condições, há aqueles que nasceram sem acesso a um mínimo dessas oportunidades. E quando o meu filhote nasceu... Aí eu percebi mesmo que eu não poderia me contentar com as coisas do jeito que são. Que, se eu pudesse contribuir para que houvesse uma universalização de oportunidades, eu iria me engajar. Não apenas para oportunizar um futuro melhor para o meu filho, mas para que o mundo ofereça condições mais humanas para todos os nossos filhos.

Como ser feliz sozinho? Como ser feliz vendo miséria e descaso por todos os lados? Se, por algum acaso, não sou eu e minha família passando por necessidades, poderia (e poderá) por algum acaso ser eu ou algum dos meus necessitando da mão do Estado, como há tantas e tantas famílias que pelos mais variados motivos são postas à margem pelas leis do capital. Se eu puder colaborar para o fortalecimento de um Estado que contribua para a construção do socialismo e para o protagonismo popular, estarei me engajando por essa luta.


O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito,
vamos de mãos dadas... (Drummond)
 
Por isso pego as bandeiras e dou a “cara à tapa”. Porque me vejo como parte de um ideal maior, em nome de um projeto concreto que possa melhorar de fato a vida das pessoas que precisam, mesmo reconhecendo as contradições que possa haver. Como dizia o Raulzito, "Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só; mas sonho que se sonha junto é realidade"!

O processo democrático não termina com o voto. Pelo contrário, é pelo direito ao voto que o processo democrático começa, e é pelo dever ao voto que não podemos nos isentar das responsabilidades que existem através do processo democrático.

23 de outubro de 2010

O que restará afinal?


Uma professora que havia me visto em plena campanha no calçadão do Alegrete perguntou-me, numa outra oportunidade, a respeito da suposta violência contra o candidato Serra, no episódio do Rio de Janeiro. Na opinião dela, tanto o Serra errou, como o Lula errou ao desdenhar a violência. Como cobrar de nossos alunos que não joguem bolinhas de papel na sala de aula, quando há exemplos como esse na esfera política? Ensaiei uma contestação a fim de argumentar que houve sim fraude, mas, no momento, optei em não prolongar esse debate. Isso porque, utilizando a mesma comparação que ela já havia feito, creio que o que poderá restar são o conhecimento e os valores que pudermos oferecer aos nossos alunos, e não eventuais os problemas de indisciplina, como as bolinhas de papel. Ou seja, de mesmo modo, o que é importante para o futuro do nosso país, a propósito das eleições, não é se era uma bolinha de papel ou uma bobina de papel, mas as visões de mundo e de país que há nos distintos projetos de cada um dos candidatos.

15 de outubro de 2010

Manifesto em Defesa da Educação Pública


E-mail recebido:

Caras e caros colegas professores universitários,
Vejam em anexo um Manifesto em defesa da Educação pública. Foi preparado por iniciativa de colegas da USP, entre os quais Ricardo Musse e Vladimir Safatle. Também está em preparação um ato público de manifestação de repúdio à candidatura ultra-conservadora do Senhor José Serra, a ser realizado na capital paulista.
Peço encarecidamente que leiam este sucinto Manifesto e o assinem, caso concordem com seus termos. Peço também a mais ampla divulgação para essa iniciativa.
Pessoalmente, considero a leitura desse manifesto muito oportuna, porque o mesmo traz de volta à memória algumas das funestas realizações – no campo específico da educação pública – de José Serra e de seus amigos, como Paulo Renato. Para aderir ao Manifesto é preciso mandar um email para o endereço que segue.
emdefesadaeducacaopublica@gmail.com
Saudações republicanas, laicas portanto.

***

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.

Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.

Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política de sucateamento da Rede Pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.

Os salários da Rede Pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores qualificados e a desestimular quem decide se manter na Rede Pública. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.

Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.

No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontra paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.


Em tempo: veja as fotos do protesto dos professores da rede estadual de São Paulo em março desse ano:
http://educacao.uol.com.br/album/greve_professores_SP_2010_03_26_album.jhtm?abrefoto=27 .

9 de outubro de 2010

Osso duro de roer



Tropa de Elite 2 permite-se inicialmente a uma leitura superficial que aponta para a desmoralização ética do sistema de segurança pública e da política. Em outras palavras, todos estariam corrompidos, e agindo no poder público para benefício próprio com objetivos financeiros e eleitorais. Outra leitura superficial seria relacionar em imediato os acontecimentos da narrativa com o contexto eleitoral.

O fato de o filme ser lançado no contexto eleitoral permite uma comparação imediata com a realidade atualíssima, considerando-se a reeleição do governador e as políticas das unidades de polícia pacificadora. Ora, o filme vem sendo produzido desde o ano passado, e seria leviano considerá-lo como um reflexo da realidade (o filme não foi feito semana passada!).

Chamamos a atenção para a crítica sobre a esquerda que o Nascimento faz ao início do filme, que se modifica ao final, quando ele percebe que o deputado Fraga, na luta pelos direitos humanos, está do mesmo seu lado contra o sistema. Se o Fraga havia se utilizado do caso de Bangu I para se promover politicamente, outros haviam se utilizado da estrutura corrompida do sistema.  Há legitimidade do processo eleitoral, e não há o nivelamento político: pelo contrário, a narrativa do filme deixa claro que todos tomam partido, seja por valores humanitários, seja por interesses eleitoreiros e financeiros.

Ao fim do filme, é lançada toda a responsabilidade em nós, eleitores, tanto no que se refere à ação e financiamento das milícias, quanto de quem elege políticos comprometidos com o sistema que favorece as milícias. O filme é muito bom, e merece uma conclusão crítica pautada nos detalhes dos movimentos do enredo.

4 de outubro de 2010

Um diálogo quase fictício

E no meio do papo...

- Meu colega aqui votou Marina.


- Proteção ambiental aos tucanos! Tudo bem, votou, agora já era...


- Mas no segundo turno a onda verde vira vermelha – diz ele. Ele é um daqueles que são
revoltados com a corrupção...

- A questão é: se ele achou que no momento histórico atual era importante o voto na Marina, que agora analise friamente as proposições para o futuro do Brasil que estão em jogo.


- Ele disse que não é louco de votar em Serra... Não rasga dinheiro – foi o que disse.


- Sério... o problema real não é um governo ter focos de corrupção, pois as pessoas são corruptíveis, e qualquer governo pode ser suscetível a isso, independente do partido ou das lideranças que lá estejam. A questão é se há a valorização das instituições públicas que reprimam e coíbam a prática da corrupção.


- Sim, o que as pessoas não entendem é que a última coisa que a mídia quer ao promover os escândalos midiáticos denuncistas é resolver o problema da corrupção. As críticas da mídia se tornam vazias pois não são propositivas. Elas seriam muito mais efetivas se tomassem partido formalmente e defendessem reformas estruturais na política. Bem se vê que para os "barões da mídia" é conveniente o modo como as coisas estão...

12 de setembro de 2010

"Provas", de Ruben Pereira



Canção "PROVAS"
Ruben de Oliveira Pereira
Autor (1995) e intérprete (2010)

Produção do Blog do Berned

8 de setembro de 2010

Obras do Governo Federal em Alegrete

Circulando pela cidade do Alegrete, observei uma série de placas que anunciam investimentos do governo Federal nessa cidade. Porém, chamou-me a atenção que, nas placas, o logotipo da gestão de Lula nas placas está tapado ou apagado.

A cidade do Alegrete pertence a uma região pouco desenvolvida do Rio Grande do Sul. Da pecuária que já foi motivo de orgulho no passado, hoje restam grandes latifúndios e centros urbanos médios e pequenos que não apresentam perspectivas de emprego e renda para a juventude, sobretudo aos jovens de periferia.

O Alegrete ainda mantém uma visão tacanha e retrógrada de política, calcada no discurso de manutenção das tradições – na esteira da cultura, o discurso político vincula-se à questões retrógradas de políticas sociais e propriedade privada. Falar em esquerda? Apesar da vice-prefeita ser do PT, o discurso anti-PT no Alegrete é contundente, embora superficial, preconceituoso e limitado. Até discurso pró ditadura eu tive que ouvir esses dias de um cidadão, para quem o marginal é pobre, o pobre é marginal, e só no cacetete as coisas se resolvem (?).

Tanto que aqui é o reduto de votos no dotô. Candidatos que defendem as políticas mais perversas, na contramão da distribuição de renda e de geração de empregos, têm ampla aceitação na cidade. Seja o candidato da RBS para deputado federal pelo PDT, seja o Cabeludinho de Uruguaiana (sim, o do Detran!) para estadual pelo PP... Pelo PP ainda aqui há grande publicidade ao “Canceroso” (sujeito parecido com a personagem de X-Files), e até ao deputado litorâneo do PMDB que concedeu 143% de aumento à atual (des)governadora... O problema é que, mesmo votando naquilo que se chama de “candidatos da região”, a região da campanha têm sofrido ao longo dos anos com falta de investimentos, falta de políticas públicas, e descaso com a maior parte da população: a que não anda de picape em volta da praça...

A quem interessa desvincular obras com investimento federal do Governo Lula em Alegrete?

Pois não me parece plausível haver qualquer impedimento legal sobre o logotipo “Brasil, um país de todos”. Não há aí qualquer referência à candidatura do PT ou de Dilma, mas há a divulgação de que há investimentos na cidade. Pior seria se não houvesse o que divulgar. Se for posições críticas a respeito de como esses recursos foram investidos, ou a respeito de conclusão das obras, até vá lá... Mas e se for pura má-fé?



Essa placa foi a primeira a me despertar a atenção. Está junto a um posto de saúde na Vila Kennedy. O logotipo do Governo Federal estava tapado com uma lona preta, cujas fitas adesivas ainda são visíveis.
Observe que nessa placa, junto a dezenas de casas populares em processo de finalização de construção no bairro Ayrton Senna, o logotipo do Governo Federal está pintado.
Até naquela que talvez seja a maior contribuição do Governo Lula para o Alegrete e para a região, a Unipampa, as placas têm o logotipo do Governo Federal removido. Por quê?

À esquerda, o antigo logotipo da Eletrobrás; à direita, o logotipo do Governo Federal arrancado.

Até obra de saneamento em Alegrete teve o logotipo arrancado!
Nessa farmácia, no centro do Alegrete, o logotipo é tapado. Em outra farmácia, não muito longe, anuncia: Genéricos, até 60% de desconto; Farmácia Popular, até 90% de desconto!
No parque dos Aguateiros, mais um investimento do Governo Federal que teve o logotipo tapado por adesivos. Além desses investimentos aqui citados, não poderia ficar de fora o Instituto Federal Farroupilha, na localidade de Passo Novo, no município do Alegrete, que oferece ensino médio, cursos técnicos, licenciaturas e até pós-graduação!

* Em tempo: queria eu saber se, por acaso, alguém sabia de alguma proibição legal de propaganda de governo durante as eleições. Após uma pesquisa pela internet, pude descobrir que se trata de uma postura equivocada e assimétrica do Supremo Tribunal Federal, na pessoa do Ministro Marco Aurélio Mello. É legal restringir a informação sob uso de peças publicitárias? De qualquer forma, não retiro os questionamentos antes levantados, e os reitero: a quem serve desvincular obras com investimento federal do Governo Lula em Alegrete, no Rio Grande do Sul e no Brasil?

31 de agosto de 2010

"Há metafísica bastante em não pensar em nada"

É do Ruben a ótima sugestão de leitura do seguinte poema de Alberto Caieiro, heterônimo do grande poeta português Fernando Pessoa. Curtam:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.


O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.


Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).


O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?


"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.


Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.


O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.


Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!


(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)


Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

(poema V de O criador de Rebanhos, 1925)