literatura, política, cultura e comportamento.
seja em santa maria, em alegrete, no rio de janeiro, em osório ou em liechtenstein.
na verdade, tanto faz.

12 de setembro de 2010

"Provas", de Ruben Pereira



Canção "PROVAS"
Ruben de Oliveira Pereira
Autor (1995) e intérprete (2010)

Produção do Blog do Berned

8 de setembro de 2010

Obras do Governo Federal em Alegrete

Circulando pela cidade do Alegrete, observei uma série de placas que anunciam investimentos do governo Federal nessa cidade. Porém, chamou-me a atenção que, nas placas, o logotipo da gestão de Lula nas placas está tapado ou apagado.

A cidade do Alegrete pertence a uma região pouco desenvolvida do Rio Grande do Sul. Da pecuária que já foi motivo de orgulho no passado, hoje restam grandes latifúndios e centros urbanos médios e pequenos que não apresentam perspectivas de emprego e renda para a juventude, sobretudo aos jovens de periferia.

O Alegrete ainda mantém uma visão tacanha e retrógrada de política, calcada no discurso de manutenção das tradições – na esteira da cultura, o discurso político vincula-se à questões retrógradas de políticas sociais e propriedade privada. Falar em esquerda? Apesar da vice-prefeita ser do PT, o discurso anti-PT no Alegrete é contundente, embora superficial, preconceituoso e limitado. Até discurso pró ditadura eu tive que ouvir esses dias de um cidadão, para quem o marginal é pobre, o pobre é marginal, e só no cacetete as coisas se resolvem (?).

Tanto que aqui é o reduto de votos no dotô. Candidatos que defendem as políticas mais perversas, na contramão da distribuição de renda e de geração de empregos, têm ampla aceitação na cidade. Seja o candidato da RBS para deputado federal pelo PDT, seja o Cabeludinho de Uruguaiana (sim, o do Detran!) para estadual pelo PP... Pelo PP ainda aqui há grande publicidade ao “Canceroso” (sujeito parecido com a personagem de X-Files), e até ao deputado litorâneo do PMDB que concedeu 143% de aumento à atual (des)governadora... O problema é que, mesmo votando naquilo que se chama de “candidatos da região”, a região da campanha têm sofrido ao longo dos anos com falta de investimentos, falta de políticas públicas, e descaso com a maior parte da população: a que não anda de picape em volta da praça...

A quem interessa desvincular obras com investimento federal do Governo Lula em Alegrete?

Pois não me parece plausível haver qualquer impedimento legal sobre o logotipo “Brasil, um país de todos”. Não há aí qualquer referência à candidatura do PT ou de Dilma, mas há a divulgação de que há investimentos na cidade. Pior seria se não houvesse o que divulgar. Se for posições críticas a respeito de como esses recursos foram investidos, ou a respeito de conclusão das obras, até vá lá... Mas e se for pura má-fé?



Essa placa foi a primeira a me despertar a atenção. Está junto a um posto de saúde na Vila Kennedy. O logotipo do Governo Federal estava tapado com uma lona preta, cujas fitas adesivas ainda são visíveis.
Observe que nessa placa, junto a dezenas de casas populares em processo de finalização de construção no bairro Ayrton Senna, o logotipo do Governo Federal está pintado.
Até naquela que talvez seja a maior contribuição do Governo Lula para o Alegrete e para a região, a Unipampa, as placas têm o logotipo do Governo Federal removido. Por quê?

À esquerda, o antigo logotipo da Eletrobrás; à direita, o logotipo do Governo Federal arrancado.

Até obra de saneamento em Alegrete teve o logotipo arrancado!
Nessa farmácia, no centro do Alegrete, o logotipo é tapado. Em outra farmácia, não muito longe, anuncia: Genéricos, até 60% de desconto; Farmácia Popular, até 90% de desconto!
No parque dos Aguateiros, mais um investimento do Governo Federal que teve o logotipo tapado por adesivos. Além desses investimentos aqui citados, não poderia ficar de fora o Instituto Federal Farroupilha, na localidade de Passo Novo, no município do Alegrete, que oferece ensino médio, cursos técnicos, licenciaturas e até pós-graduação!

* Em tempo: queria eu saber se, por acaso, alguém sabia de alguma proibição legal de propaganda de governo durante as eleições. Após uma pesquisa pela internet, pude descobrir que se trata de uma postura equivocada e assimétrica do Supremo Tribunal Federal, na pessoa do Ministro Marco Aurélio Mello. É legal restringir a informação sob uso de peças publicitárias? De qualquer forma, não retiro os questionamentos antes levantados, e os reitero: a quem serve desvincular obras com investimento federal do Governo Lula em Alegrete, no Rio Grande do Sul e no Brasil?

31 de agosto de 2010

"Há metafísica bastante em não pensar em nada"

É do Ruben a ótima sugestão de leitura do seguinte poema de Alberto Caieiro, heterônimo do grande poeta português Fernando Pessoa. Curtam:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.


O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.


Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).


O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?


"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.


Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.


O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.


Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!


(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)


Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

(poema V de O criador de Rebanhos, 1925)

18 de agosto de 2010

Eleições 2010: políticas públicas para portadores de necessidades especiais no centro do debate

Foi na Bandeirantes que os portadores de necessidades especiais tornaram-se tema de debate nas eleições presidenciais. O tucano José Serra insistia que o amparo governamental a essa parcela da população havia regredido durante os oito anos de governo Lula. Apenas nos dias seguintes ao debate se teve acesso aos fatos e números reais, que no momento acabam se perdendo.

Dias depois, repassei
o seguinte texto para alguns amigos que, por um motivo ou outro, têm interesse no tema:

Apaes: “Serra distorceu informações, tirou proveito das angústias de pais e reforçou preconceitos”, por Conceição Lemes: http://www.viomundo.com.br/denuncias/apaes-%E2%80%9Cserra-distorceu-informacoes-tirou-proveito-das-angustias-de-pais-e-reforcou-preconceitos%E2%80%9D.html

Essa iniciativa propôs que pudéssemos debater, em determinado círculo de amigos, as diferentes posições que delineiam as políticas públicas para os portadores de necessidades especiais.

Por exemplo: uma amiga, que já me declarou, de antemão, seu apoio ao Serra, respondeu-me o seguinte:

Li o link que você me mandou, e tenho que admitir que ali há coisas com as quais eu concordo. Mas também existem coisas que sou contra. Para quem olha de fora é diferente de quem está lá dentro (eu estou no meio), por isso entendi o que foi colocado de ambas as partes; o problema é que no papel é uma coisa, no real é outra...

Ao início do horário de propaganda política, José Serra volta ao tema. Veja aqui.

Eis que o meu amigo Luciano, do blog Reflexões, e acadêmico do curso de Educação Especial, puxa a conversa...

Luciano:
Você viu o horário político, bruxo? Viu a declaração do Serra?

Blog do Berned:
Qual delas?

Luciano:
A que ele promete fazer um centro de tratamentos para as pessoas deficientes.

Blog do Berned
Sim.

Luciano:
Como se a deficiência fosse uma doença que pode ser curada!

Blog do Berned:
Pelo que já conversamos, isso é tratar como área de saúde o que é da área da educação! Ou seja, totalmente oposto às políticas de inclusão.

Luciano:
Sim! Mas é uma visão em que ele vai perder muitos votos por causa disso. Porque a cabeça dos pais, hoje em dia, está em aceitar a deficiência dos filhos e fazê-los levar a vida mais normal possível, e com os professores é a mesma coisa. Pelo menos essa é a minha visão. Talvez eu esteja sendo utópico, mas estamos caminhando para esse lado.

13 de agosto de 2010

Eleições 2010: para que votar?

Ante as próximas eleições, frente às tomadas de posicionamentos e aos debates políticos, é possível que muitos façam a seguinte pergunta: para que votar?

A nossa jovem democracia tem conquistado grandes avanços desde o final da ditadura militar, embora possa amadurecer ainda mais. Através da democracia representativa, delegamos alguém a tomar posições por nós nas instâncias legislativas e executivas do poder com o nosso voto. Entre as pessoas próximas, costumo dizer que o voto é uma procuração que concedemos a uma outra pessoa, para que tome decisões por nós. Ou seja, você conhece os seus candidatos? Sabe que ideias têm, que valores têm, que posicionamentos tomam? Você daria uma procuração para essa pessoa a quem você direciona o seu voto? Ora, não se trata também de negar veementemente as questões acima e anular o voto. Trata-se de conhecer, sobretudo, que projeto de sociedade tais candidatos representam, e conferir se equivale às suas expectativas. Também sempre defendi o voto em classes: ou seja, romper, de fato, aquela posição de subserviência em votar no dotô. Fazer valer, principalmente, nos cargos para o legislativo: votar em líderes comunitários ou em representantes sindicais, que representem os interesses de cada posição social. E que o dotô receba votos apenas dos dotores...

Alguns poderão dizer que o poder corrompe. Que o voto em classe – pobre votando em pobre, por exemplo – apenas possibilitaria ao candidato eleito fazer aquilo tudo que antes criticasse. Refuto essa lógica perversa pois acredito que as pessoas podem, cada vez mais, tomar para si essas responsabilidades que são hoje delegadas a um outro: ou seja, que se possa articular mudanças no sistema social a fim de que possamos ter uma democracia de fato. Democracia vem do do grego, “governo do povo”, embora ainda na Grécia fosse elitista esse regime, haja vista que a porcentagem de “cidadãos” era mínima, já que excluía mulheres, escravos e estrangeiros. À democracia contrapõe-se a monarquia, em que o poder é de uma linhagem familiar legitimada pela unção divina. Porém, ao invés de uma democracia plena, por muito tempo estivemos na mão de oligarquias – “governo de poucos”. Os poucos que detinham o poder político e econômico governavam. Nos anos 60, quando o trabalhismo ameaçava o status quo, as oligarquias, que apoiaram o golpe revelaram-se justamente enquanto ditadura – “governo na mão de uma pessoa, um grupo ou uma classe”. O Brasil ainda possui seus oligarcas na política, sejam eles candidatos ou financiados por eles. Por isso é tão importante a defesa de uma reforma política no Brasil, que entre outras coisas defenda o financiamento público exclusivo de campanha: para que os candidatos sejam eleitos pelos projetos que defendem, e não pelas doações que recebam. Defendemos uma reforma política que leve ao pé da letra a etmologia de democracia!

Para “quais os critérios para o voto?”, eu reformularia a pergunta: qual é o papel de um governo? Entre diferentes candidatos, diferentes partidos, diferentes coligações, há diferentes projetos que concebem diferentes modelos de sociedade, de governo e de país. Qual é o projeto político que defendemos para o Brasil? Qual é o papel de um governo? Não sei se diferentes projetos políticos responderiam de mesma forma essa pergunta. Eu acredito que um governo, nas condições atuais, sirva para, efetivamente, melhorar as condições de vida das pessoas, universalizando o acesso aos bens públicos que são de direito de todos. Outros podem achar que a vida do povo é supérflua nesse embate político, apesar de isso não ser admitido... O que não se deve fazer, de modo algum, é cair no debate despolitizado, atacando candidatos com críticas pessoais e não políticas. Devemos escolher um projeto político para o país, portanto não faz sentido escolher “A” ou “B” como se escolhe um time de futebol para torcer...

Por aí também podem alegar o descrédito das instituições políticas, sobretudo dos partidos. No Brasil, diferente de outros países, é necessário estar vinculado a algum partido político para ser candidato. Acontece que as legendas, enquanto tivessem mais ou menos uma unidade programática, mais coerentes seriam. Porém, na maioria das vezes, as pessoas vinculam-se a partidos não para a defesa de um projeto específico, mas porque encontram mais facilidades em se candidatar, ou para conseguir um eventual trabalho em algum órgão público. Isso acaba por descaracterizar certas bandeiras partidárias: tanto faz estar em um lado ou outro das disputas eleitorais. No entanto, simplesmente concluir isso é desconsiderar que há partidos que se estruturam de modo diferente entre si. Há partidos que têm correntes internas, a fim de forçar debates internamente; há partidos que têm mais ou menos pré-definidas as suas diretrizes ideológicas; e há o que chamamos de “legendas de aluguel”, entre outros nuances que poderíamos considerar. Com a legalidade do financiamento privado de campanha, o sujeito pode ver a sua própria candidatura como um investimento: ele não está para defender uma ideia conjunta, em que qualquer candidato de seu partido levará consigo. Há conflitos intrapartidários em virtude justamente dessa lógica absurda em que o candidato precisa se eleger em nome de um personalismo que, na verdade, é a busca pelo retorno do capital investido/perdido. Todavia, não creio que se possa generalizar essa afirmação.

Eis a responsabilidade que temos ao delegar essa procuração, não em nosso nome, mas em nome de nossa comunidade, de nossa cidade, de nosso futuro. Certas posturas, circunstâncias, opções, poderão modificar diretamente a vida de milhares de pessoas, positivamente ou negativamente. Percebe a responsabilidade? E ainda falam em voto facultativo! Para mim, abrir mão do voto, seja branco ou seja nulo (legalmente têm o mesmo propósito), ou ainda, desejar o voto facultativo, é apenas uma desculpa para não assumirmos a nossa responsabilidade frente às nossas escolhas.

Sugiro ainda a leitura do ótimo texto no blog Igor de Fato: Histórias de um novo Brasil.

10 de agosto de 2010

Com valor e fibra, tu és o orgulho de Santa Maria

Do G1: Site do Chivas comete erro e publica escudo do Inter de Santa Maria. Serviço da final da Libertadores vem com gafe; nas outras seções da página, porém, o escudo colorado está correto.
 
Colorado, com um pé na América e outro no Mundial...

28 de julho de 2010

Jornal de Artes: igual a um sobre o nourrau

O seguinte texto foi publicado originalmente na edição de dezembro de 2009 no Jornal de Artes, organizado pelos amigos Clauveci Muruci e seu filho, Maurício. Passado um tempo, resolvi divulgá-lo também no blog.

A posição social do ator é única: é um gesto de alteridade. A ele, e mais a nenhum outro papel social, cabe colocar-se no lugar do outro. Estamos falando de representação, mas, sobre tudo, um gesto de despersonalização em nome de outrem. Pelo próprio corpo e pela própria voz o ator conduz esse outro com o seu próprio eu.

Ao falar de representação, talvez pudéssemos estender o gesto de alteridade ao artista de modo geral. Afinal, desde Platão a representação é tomada como assumir a voz de alguém que lhe é diferente. Assim, o poeta, o ficcionista e o pintor também estariam sendo levados pelo gesto de despersonalização para dar voz ao outro. No entanto, o artista de modo geral pode “representar”, ainda que não abra mão de si próprio. O pintor pode pintar o que lhe convier e do modo que lhe convier, de forma que possamos identificar sua postura em relação à arte e à sociedade através de suas escolhas para a composição final; assim também sucede ao escritor, em que não é necessário abrir mão de seu orgulho, de seu amor próprio, conquanto que a escrita lhe seja um meio de ascensão e não um gesto de amor, de apagamento de si próprio. O processo de escrita pode se tornar um gesto de amor, mas de modo geral: o escritor se apaga em prol da materialização da escrita como um monumento, que se emancipa do próprio escritor e sobrevive a ele, e fica à disposição de quem se interessar. Correndo o risco de ser como uma velha estátua de praça pública, quando ignoramos quem seja o homenageado; pode-se não ter interesse.

Não que o ator não passe pelo mesmo processo. As suas opções passam pela seleção do tema e do texto – ainda que possamos não ter falas ou ter atuações sob improviso, ainda há ao menos um texto anterior e mínimo que dê coerência a um roteiro – além do próprio modo de conceber a representação cênica e materializá-la no seu desempenho de uma personagem: o seu modo de conceber a arte e a sociedade está em jogo. A relação do teatro com o público é, antes de tudo, necessária pois é imediata: sem público não há espetáculo e não há ator. Já dizia Peter Brook, que no momento que colocamos uma pessoa a caminhar e outra a observá-la, já estamos tocando a base do teatro, ou seja, o contato do artista com o público. O escritor, o pintor e o cineasta podem vir a materializar um objeto artístico alheios a um público, podendo ser reconhecidos anos após a morte, ou nunca. Mas o objeto – o livro, a tela, a escultura, o filme – estão lá, ao alcance de quem queira apreciar. O ator precisa do reconhecimento na efemeridade da sua existência para ter público, para ter espetáculo, para ser ator.

No entanto, a posição social que a representação do ator exerce se diferencia de outros artistas: o exercício de alteridade não é uma opção, é da própria essência do ator. É inerente à sua arte colocar-se no lugar de um outro, assumir-lhe o modo de ver o mundo e seus anseios, e transmiti-lo a um público. Ser um outro, no período de um espetáculo: viver na pele, deixar ser tomado por uma outra existência que não a sua. O glamour que a profissão possui hoje se torna uma força contrária à própria essência do ator: pois a necessidade de ter um nome reconhecido como celebridade pode sobrepujar justamente a sua despersonalização. É direcionar o seu próprio trabalho para que, antes de o público ver a personagem, veja o sujeito que a interpreta. Mas apenas o reconhecimento não faz o artista; se a essência da dramaturgia consiste em materializar no aqui e agora uma existência que nos é alheia, não há arte, mas há puro produto comercial, se não somos levados a ignorar – ainda que pelo momento da peça – a existência pessoal do profissional que atua em detrimento do universo ficcional que justifica o espetáculo.

O que aprende o ator com sua personagem? O que tem de diferente e semelhante a si? Perguntinhas banalizadas em programas de entrevista, mas importantes de serem tomadas de forma mais ampla. É necessário tomarmos para nós a relação que existe entre o ator e o outro, sua personagem. Através do diferente, não se trata de apenas marcar a diferença, mas equilibrar as semelhanças para que o público possa identificar-se e ser tomado pela proposta da peça. Ainda que seja um universo exótico ou fantasioso, estão em jogo as relações e as reações humanas. Por isso é necessário tolerar e conviver com a diferença, enxergando-nos como parte de um mesmo corpo social, e parte da mesma humanidade.

É tão difícil fechar os olhos aos nossos interesses, ainda que por instantes, para compreender a posição do outro... A despersonalização é um gesto de amor: o que ama está disposto a sacrificar a sua própria constituição enquanto sujeito pelo ser amado, como as relações entre pais e filhos, companheiros conjugais e amigos nos ensinam isso. Abrir mão de si próprio: o próprio cristianismo nos ensina isso, mas embora nossa sociedade ocidental tenha sido modelada por sua religiosidade, são-nos apagados - a partir de interesses históricos - certos valores como a alteridade. Amamo-nos aos outros como a nós mesmos? Somos capazes de um amor pleno e universal para com o outro? A arte, de forma geral, é e precisa reconhecer que sua essência precisa ser e é, sobretudo, um gesto de amor ao próximo.


Post-Scriptum: Agradeço a colaboração do amigo e ator Maico Silveira para a composição dessas reflexões.

30 de junho de 2010

Uma leitura de O caminhão, de Marguerite Duras

Minha mãe está lendo O caminhão, tradução de Le camion, de Marguerite Duras, livro com que trabalhei durante meu projeto de pesquisa no mestrado. Durante a tarde, entre uma conversa pela internet de muitos temas, ela toca no assunto e puxa conversa...


Mãe: Estou quase terminando O Caminhão...

Blog do Berned: E o que está achando?

Mãe: Meio complicado... Tem que entrar na história para entender o que ela pretende... 
Parece escondido...
Tem que aguçar a imaginação...

Blog do Berned: Sim, é a ideia: exigir do leitor uma participação ativa na leitura.

Mãe: Yes! Disseste melhor!
Tem que se colocar em cada personagem... tipo, viver junto a história.
Estar no caminhão.
Imaginar a paisagem...
E o que se passa na cabeça da mulher...
É tudo invenção o que ela fala?
Ela saiu de um sanatório como fala o Gérard Depardieu...
Ou é uma solitária que procura viver uma história pedindo carona?

Blog do Berned: Eis o tempo hipotético na organização da narrativa!

Mãe: Ou seja: uma incógnita!

Blog do Berned: Não é uma incógnita, pois não há resolução para isso. 
Ou seja, as possibilidades são infinitas! 

Mãe: Hummm... não tinha pensado nisso!
Cada leitor imagina o que quiser e pronto.

Blog do Berned: Exatamente...

Mãe: Será que no filme não fica meio... sem graça?
Pois, no final, é a montagem de um filme...

Blog do Berned: Talvez, não vi o filme.
Mas acho que o efeito é semelhante... Pois a atenção não estaria na imagem, apesar dela estar bem ali em frente! Mas possivelmente no som, como um convite para fechar os olhos e imaginar...

Mãe: Hummmm...
Mas já fiquei imaginando como seria o filme...

Blog do Berned: Exatamente, é esse o efeito!

Mãe: Imaginar e não assistir?

Blog do Berned: Sim!

Mãe: E também seria sem ação...
Ela por vezes cantarola uma canção...

Blog do Berned: E que canção é?
Imagina alguma para o filme que se passa durante a tua leitura?

Mãe: Ainda não tentei...
Mas num filme ficaria meio parado. Pois ele, G.D., só responde por monossílabos...
Ficaria um diálogo unilateral?

Blog do Berned: Imagina que ela está no papel de quem conta uma história;
e ele, no nosso papel, daquele que ouve a história e orienta o nosso papel, a participar, a interrogar(-se) e a imaginar a história.

Mãe: Então, é uma sala com uma mesa e somente duas personagens contando uma história que o público só imagina....

Blog do Berned: O paradoxo é ir ao cinema ver isso, quando as narrativas contadas por alguém ao pé de fogueiras são milenares...
O homem sente a necessidade de ouvir e contar histórias...

Mãe: Mas e esse filme existe?

Blog do Berned: Sim. 
E se passa em uma sala, com uma mesa e somente duas personagens contando uma história que o público só imagina.

Mãe: E não foi aquele que ela não gostou de como fizeram?
Não... esse foi O Amante!

Blog do Berned: O caminhão foi ela mesma quem fez.

Mãe: E ela gostou?

Blog do Berned: Sim... ela fez como queria que fosse feito.

Mãe: Hummm... Intrigante e curioso.
Ou desperta a curiosidade para assisti-lo.


Para conhecer mais da boleia desse caminhão, procure o livro aqui.

29 de junho de 2010

Patriotismo de copa do mundo

Foto: Fifa.com, via Flickr/Y!

Muita gente critica esse fenômeno em terras tupiniquins, o nosso patriotismo que se alterna entre copas do mundo de futebol e olimpíadas de verão. Tais críticos, suponho, têm em vista um patriotismo constante ao longo do ano, e que teria seu apogeu no sete de setembro, no quinze de novembro, e talvez no 22 de abril. Seu modelo é, supostamente, as comemorações do 4 de julho nos Estados Unidos e do 14 de julho na França.

Se considerarmos o motivo de comemoração em relação ao julho estadunidense e ao francês, verificaremos que remete a momentos profundamente significativos, de rompimento com uma ordem vigente e surgimento de outra ordem, com intenso apoio e participação popular. É destacado o orgulho nacional de se ter participado de uma grande vitória para o seu país, a sua nação e o seu território.

E no Brasil, por que é diferente? De fato, com os acontecimentos que precederam e atingiram o seu ponto alto no sete de setembro em São Paulo, a independência do Brasil representou uma independência de fato? Ora, as elites mantiveram-se as mesmas, o sistema escravagista e monárquico permaneceu o mesmo, e a dependência política de Portugal, econômica da Inglaterra e cultural da França mantiveram o Brasil agindo como uma colônia. A própria proclamação da república, com mais de cinquenta anos de atraso, apenas exprimiu o esgotamento de um sistema em si mesmo, não modificando substancialmente em nada a política e a economia nacional.

Em termos políticos e econômicos, as grandes mudanças iniciaram com o governo de Getúlio Vargas. O caudilho gaúcho, que garantiu inúmeros avanços nas áreas trabalhista e industrial, ainda representava os interesses de sua classe social, embora confrontasse o eixo São Paulo – Minas Gerais. Sua Revolução de 30, que dá início aos 15 anos ininterruptos de presidência, é sim um marco de resistência e luta, ainda que da incipiente classe burguesa.

Quando o processo político do Brasil apontava para mudanças consistentes e significativas pelas eleições democráticas, sobretudo após os anos JK, de efervescência cultural e de grandes construções, os militares, apoiados pela UDN, reprimem os indicativos da mudança por vir e garantem no poder a mesma elite de sempre. Resumindo: na história do Brasil não há vitória de contestadores e revolucionários. As mudanças são tênues, vindas de regimes democráticos ou pelo próprio peso da história.

Que orgulho nacional pode advir dessa história oficial?

De fato, no Rio Grande do Sul, o orgulho gaúcho é muito mais intenso do que o de ser brasileiro, em que a Revolução Farroupilha é o grande motivo. E ainda, aos que possam condenar essa comemoração como uma batalha de interesses de oligarcas, no mesmo estado temos a figura de Leonel Brizola como referência pela Legalidade, a última grande resistência do poder civil ao golpe militar que a precederia. Poderemos admitir que efeito semelhante há em Minas Gerais em relação à Inconfidência e em Pernambuco em relação à Confederação do Equador.

O que torna o nosso país motivo de orgulho? Que ações humanas tornam o nosso especial e destacado em relação a outros? O que nos coloca na ponta de grandes países? Até pouco tempo, que atividade cumpria essa necessidade de auto-afirmação, senão o esporte, e mais especificamente o futebol?

Possivelmente apenas no século XXI começamos a abandonar o complexo de vira-latas e ter orgulho de nosso país, pela via democrática e coalizão política em torno de um projeto nacional de desenvolvimento e distribuição de renda. Apesar de sua imprensa e parte da população não terem assimilado que a mudança veio pra ficar, cada um de nós tem responsabilidade pela construção do país e grande nação que todos queremos que seja. Ter orgulho é ter amor-próprio, e amor-próprio se conquista pela satisfação em colaborar.

20 de abril de 2010

A Veja vende o seu pato

"Eu me preparei a vida toda para ser presidente", diz o presidenciável tucano José Serra na capa do caduco folhetim semanal. E não vai ser, assim como o Maluf (outro que está há tempos esperando a sua vez...).

Leia aqui, no Conversa Afiada, a denúncia dessa que é mais uma peça apelativa pró-Serra.

Sem falar no fotoshop forçado, em que o dito candidato aparece sem as olheiras habituais e as salientes gengivas que lhe são naturais:

Veja mais "fotoshopagens" equivocadas, aqui.

1 de abril de 2010

Contra ou a favor ao aborto? Vai pensando aí...


Do Portal Vermelho:


O debate foi proposto... Vamos repensando nossas posições, pois, mais cedo ou mais tarde, esta questão, entre outras tão delicadas que vêm sendo proteladas, vai ter que ser encarada e discutida... São questões sobretudo de ética e de saúde pública para as quais não podemos simplesmente ignorar por mais e mais tempo!

Sem falar que eu adorei a composição do vídeo. Muito bem pensado, muito bem feito...

A iniciativa é do pessoal da Ipas, a partir da página www.vaipensandoai.com.br

27 de março de 2010

Quando a pólvora do fósforo explode um grampeador de mercúrio

Um amigo meu dizia – a Taise narrando – que o grampeador não deveria se chamar “grampeador”. Deveria chamar-se “grampeadouro”. Como “bebedouro”, que é o aparelho em que se bebe. Grampeador não deveria ser a pessoa que está grampeando?

Esse foi um dos tópicos de uma conversa entre eu e a Taise, sábado pela manhã cedo, sobre o significado das palavras, enquanto tomávamos chimarrão.

Foi a Taise que puxou assunto a respeito do mercúrio, o “negocinho vermelho” que as mães passavam no machucado das crianças, que é uma solução iodada utilizada para evitar infecção. Ela questionou-se a respeito do nome do remédio, que se refere a um metal pesado, extremamente tóxico. E que, obviamente, não está na solução do referido medicamento, à base de iodo, um não-metal. Pensemos que as pessoas estão mais propícias a lembrar do mercúrio como remédio e não como elemento químico: será que dá agora para imaginar as pessoas passando mercúrio na pele...?

Caso contrário – argumentei – é o do fósforo. O fósforo não tem fósforo. Na verdade, está certo se falamos em “caixinha de fósforo”, pois o elemento fósforo está presente na lateral da caixinha, e não no palito. O palito possui pólvora (mistura de nitratos, enxofre e carvão), mas, ao falarmos em caixinha de fósforo, somos levados a imaginar uma caixa que contenha fósforo: e assim, o palito de pólvora ganha o nome de “fósforo”! Porém – como a Taise argumentou – imaginemos as pessoas receosas pela sensação de violência que a ideia de ter pólvora em casa propicia...

PS: A sugestão de título é da própria Taise, que corresponde à maneira de levar as suas inquietações.